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Para manter uma identidade cultural
Trecho do discurso do desembargador Henrique Fontes durante o lançamento da pedra fundamental do monumento comemorativo ao bicentenário da colonização açoriana, em 20 de fevereiro de 1948:
"Duzentos anos, meus senhores, são decorridos daquele momento, daquele dia da chegada à nossa terra dos nossos antepassados. Se as fainas agrícolas não conduziram à vitória esperada, se os açorianos não imitaram os gregos (...) se não realizaram eles o sonho de Silva Paes, limitados às suas esperanças à criação de núcleos agrícolas, entretanto alicerçaram obra de maior envergadura: o açoriano e o madeirense, pela sua descendência, conservaram para o Brasil este pedaço de chão sobre o qual o Castelhano ousou por o pé mas não logrou deitar a mão nem descansar a cabeça (...) Não poderíamos deixar, neste dia de perpetuar, num momento, os laços de gratidão que nos unem a estes antepassados, pelo valioso legado que nos deixaram, principalmente a língua, que a trouxeram melodiosa e viva como a falavam e cantavam nas ilhas ensolaradas, e os sentimentos, que são aqueles do povo livre e consciente de que tanto nos envaidecemos."
Açorianidade
Tudo começou após a 2ª Guerra Mundial. Como o habitante do litoral não se dava conta da importância social de resgatar sua identidade cultural. Surge, um movimento voltado para o revigoramento desta identidade quase estagnada, retraída diante de outras manifestações mais estruturadas. O cenário esta pronto - a imagem negativa de homem incapaz e indolente do litoral - e criam-se as condições que tornariam concretas as primeiras reações contra esta situação. Através da realização do 1º Congresso de História Catarinense, realizado em Florianópolis, em março de 1948, este comemorativo do Segundo Centenário da Colonização Açoriana que contou com uma exposição histórica, geográfica e folclórica, tendo por objetivo, segundo Boléo: demonstrar as condições culturais da população de origem açoriana, aos catarinenses e aos congressistas, tanto quanto possível, a sobrevivência de costumes dos Açores e também da Madeira. Trouxe a tona a discussão do papel do homem litorâneo catarinense. Segundo Oswaldo Cabral, descendente de açorianos, utilizando da obra de Othon Gama D'Eça "Homens e Algas" que retrata o cotidiano sofrido e os obstáculos ultrapassados para a sobrevivência numa terra que, apesar de bela, não lhe permitia desenvolver os métodos que aplicava em solo açoriano. Se não bastasse isso, quando da chegada dos imigrantes encontrariam uma outra realidade daquela a que estavam acostumados, terra imprópria para a cultura do trigo. Com a série de eventos realizados naquela ocasião com apoio de vários políticos e ilustres, como também da impressa escrita que divulgou todas as questões difundidas durante o congresso e pelos questionamentos formulados. Tudo isso, somados a repercussão do sucesso do encontro, obtendo resultados satisfatórios que foram colhidos, podemos afirmar que a açorianidade nada mais é do que o respeito próprio que devemos sempre cultivar para que não percamos nossa identidade cultural.
A Farra do Boi. Palavras, Sentidos, Ficções. Maria Bernardete Ramos Flores, Ed. da UFSC, Florianópolis, 1997. |