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Proseando com o Manezinho
Nesta seção cada duas semanas será incluído um Manezinho da Ilha. Figuras folclóricas do nosso cotidiano estarão desfilando por aqui. Os dados foram coletados pelo Jornalista Aldírio Simões e registrados em seu livro "Retratos à Luz da Pomboca".
Bebeco do Pantiçuli
Sentado
em uma cadeira, defronte a sua modesta casa no costão da praia
de Pântano do Sul, Germano José da Lapa faz hora para ver o
tempo passar com os olhos pregados no mar, contemplando o mesmo
cenário em que veio ao mundo há 80 anos, descansando as mãos
calejadas sob a angústia de uma mísera aposentadoria de um salário
mínimo. Sete
dias após o seu nascimento, o pai pegou o umbigo do filho e
enterrou debaixo de uma pedra na ilha dos Moleques, uma simpatia
à moda antiga para evocar a proteção de bruxos e feiticeiras
que habitavam as ilhas que contornam a Ilha de Santa Catarina.
Seu Bebeco, como é conhecido, ganhou fama de valente, um
artista na arte de contar histórias e puxar cantoria de
boi-de-mamão, terno-de-reis e do Divino, sendo respeitado como
o maior pescador da região. Orgulhoso,
guarda como troféu e para dirimir dúvidas, fotografias
expostas no restaurante do compadre Arante de um raro cação
mangona com cerca de 2.000 quilos, o maior peixe pescado no Pântano
do Sul. “O bicho parecia uma baleia. Com uma só rabanada
jogou nós numa altura desse poste aí. Virou canoa, virou remo,
virou tudo. Só o “figo” pesou 410 quilo. O óleo do
“figo” foi mandado pra São Paulo, pra lubrificar trilho de
trem”. A
história de seu Bebeco confunde-se com a história do Pântano
do Sul – o nome origina-se de uma planície sedimentar
paludosa, ao norte do povoado –, uma vila de pescadores
situada na grande enseada em mar aberto, defronte às ilhas das
Três Irmãs, ao Sul da Ilha de Santa Catarina, que, no início
do século, era pródiga na caça de baleias. Seu
Bebeco conta orgulhoso que foi em sua juventude o maior dançarino
do lugar. Botava um tamanco no pé, chapéu de palha para
esconder o cabelo mal cortado, estava pronto. “Era homi pra
dançá, oh. A rapaziada memo dizia: bailo que o Bebeco não tá,
não presta. –
Cheguei a dançá uma marquinha com a mulher do Dr. Mário Brusa,
que era vice-governador. Pedi pro clarinetista tocar “Espinhel
Embrulhado”. O homi tocava que era um bicho. Dei o braço pra
ela e saí dançando. A parma comeu sorta”. Desta
feita Bebeco estava impecável, vestindo um terno de linho
branco comprado na Casa Três Irmãos, com dinheiro ganho na
pescaria em Rio Grande (RS). O
maior boi-de-mamão de Florianópolis não foi o do Jaqueta, nem
o do Lili, mas sim o do Pântano do Sul, assegura seu Bebeco,
cheio de orgulho, patrocinado pelo ex-governador Aderbal Ramos
da Silva, que autorizou a compra da fazenda para as fantasias na
Casa Hoepcke. - “Aquilo que era boi, oh. Tinha mais de quarenta homi. Enchemo dois caminhão e forno dançá na cidade, cantando:
“Uma
chula bem cantada, faz
chorá faz padecê, ai
uma chula bem cantada faz chorá, faz padecê...”
A
ema era tão grande que não entrou na Praça 15, por causa dos
fio. Tivemos que cortá os fios de tão arta que era.” Era
justamente Bebeco quem dançava embaixo do boi. “Eu era um
bicho. Era um boi vivo. Corri atrás do Corvina, depois atrás
do pessoal que vinha saindo do cinema. Era uma gritaria naquela
praça”. Mas
o melhor da festa estava reservado para mais tarde, uma
apresentação especial na inansão de Aderbal Ramos da
Silva, na avenida Trompowski. “Havia banquete pros convidado.
“Quando a cantoria começou, era eu e mais dois, mais uma
gaita de oito baixo e dois pandeiro de couro de cabrito com cera
de abelha. O Dr. Deba foi à loucura. Como é que pode? Um homi
daquele, estudado, não sabia o que era o caipora! Caipora é um
dançadô que encobre o rosto com uma peneira,
com um lençol sobre a cabeça e uma saia rendada”. Com
vinte e tantos anos, seu Bebeco decidiu botar o pé no mundo.
Embarcou num navio da companhia Lloyd e foi embora, ganhar
dinheiro com a pesca no Rio Grande (RS), onde permaneceu durante
quase um ano. “Lugá de mais peixes que eu vi na vida. Ganhei
cerca de 1 conto e 500, um dinheiro bom e vortei pra casa.
Trouxe muita roupa nova que na capital ninguém tinha. Uma carça
de flanelinha bem fininha que dava pra ver a cueca. Oh, rapaz,
as moças ficaro alvoraçada.” Com
fama de dançarino ele não perdia nenhum baile, era
especialista em fazer pasquins, cantava os versos e o primo
anotava. No outro dia colava na porta da venda. Todo mundo sabia
o que acontecia nos bailes, botava as pessoas na boca do povo. Mané Freitas, um festeiro do lugar, trouxe um preto famoso para animar um baile na Costa de Dentro, onde existiam três negras formosas que gostavam do gaiteiro. A Joaquina, a Belmira e a Quinota. O negro contratado para o baile de Mané Freitas, segurado seu Bebeco, “era um nego falado memo. Tinha um pau desse tamanho”. Quando o gaiteiro botou o pé no salão, Bebeco começou a tirar versinhos e o primo anotando, como de costume:
“Falemo
do Mané Freitas, . que
fez o maió trabaio, é
quem trouxe esse famoso, pra
sapecá nesse bailo. Vou
entrá aí pra dentro, vou
mostrá a minha fama, eu
sapeco a Quinota, se
o Francisco der a cama. Entrou
pra cima da cama, quebrou
a talba no meio, e
a pomba da Joaquina, levô barro até no seio”.
No
baile de inauguração do salão paroquial, mexeram com a irmã
de Bebeco e este ficou fulo de raiva, partiu para a briga com o
filho de Chico Nappi, um torrefador de café do centro da
cidade. “Eu disse: agora tu me pagas. Dei-lhe dois soco e
joguei ele pela janela do clube. Meu terno de casimira ficou que
era uma farinha. Ele era um massa dum rapagi. Disseram que ele
queria me pegá. Tava no Miramar bebendo cerveja, ele veio em
minha direção. Parmiê o gargalo da garrafa para
dá-lo nos corno. Mas não, passou dereto”. Beirando os 80
anos, Bebeco já não tem a mesma disposição para freqiientar
as festas realizadas no Pântano do Sul. Marca presença apenas
na tradicional Festa do Divino. Prefere, como ele mesmo diz,
apreciar tudo de longe, da janela de sua casa sobre o costão,
pitando o seu cachimbo, recebendo o cumprimento carinhoso das
pessoas que passam. Olhos
acostumados a fixarem o mar para observar o regime de ventos, a
dança das marés e a presença de algum cardume entrando na baía,
acompanhando o movimento dos pescadores artesanais que vivem
apenas de esperanças e mãos vazias. Dos
fartos pesqueiros do Pântano do Sul, Lagoinha do Leste, Rio das
Facas, Saquinho e Ilhas Três Irmãs, ficaram apenas a fama. As
águas írias do Pântano, que misturam-se às correntes marítimas
da longínqua Patagônia, servem para refrescar a criativa memória
do velho lobo do mar, sempre ávido em contar suas estórias,
que nós, ilhéus, preferimos creditar como histórias. O
destemido seu Bebeco nunca teve medo de ahnas de outro mundo
durante as andanças nas farinhadas no Sertão do Ribeirão e
Costa de Dentro, nas longas caminhadas até a Lagoinha para
pescar tainhas, onde observou um grande navio, todo de ouro e
muito iluminado, navegar em plena areia. Quando
se aproximou, teve a visão dificultada por uma espessa nuvem de
areia provocada por três cavaleiros misteriosos empunhando
espadas reluzentes. Há muito seu Bebeco estava intrigado com a
desordem em seu bote “vento sul”, que ficava puxado na
praia, exatamente de sexta para sábado, como se alguém tivesse
usado a embarcação. A noite turva com a lua coberta por nuvens
negras anunciava a chegada do vento sul, sem uma única alma na
praia, não foram suficientes para demover o pescador de ficar
à espreita, deitado sob o paneiro da embarcação encoberto por
um monte.de redes. Pitava o palheiro calmamente, quando ouviu
passos em plena praia e o gargalhar de mulheres. Nem acreditou
quando viu três vizinhas colocarem o bote n’água e uma delas
comentou que precisavam ser rápidas, viajar até a India e
voltar antes do galo cantar. O frágil “vento sul” enfrentava o mar revolto e a cada remada ecoavam risadas que deixavam o pescador arrepiado. O barco parecia voar. A presença de Bebeco começou a ser sentida por uma das bruxas:
-
Tô sentindo cheiro de sangue reali! Em poucas horas o barco
estava aportando numa praia -
Chupei o sangue de uma criancinha recém-nascida. -
Chupei o sangue grosso de um velho. Uma porcaria. - Eu chupei na mamica de um moço forte e bonitão.
O “vento sul” aportou no Pântano. Elas jogaram o bote na praia e desapareceram na escuridão da noite, para logo em seguida o galo anunciar a alvorada. Seu Bebeco pôde então respirar aliviado, com os pêlos do corpo ainda arrepiados. Havia finalmente descoberto o mistério. Na manhã seguinte, postou-se no portão de sua casa aguardando as vizinhas, suas comadres, passarem, como de costume.
- Cumadres, onde ocês tivero ontem à noite? -
Lugar nenhum, nem saímos de casa, cumpadre Beco. - Suas feiticeiras. Vocês tivero na Índia fazendo bruxaria. Eu tava na canoa, escondido. Vi tudo com esses olho que a terra há de cumê.
E comprovou o que disse mostrando o galho de oliveira que ele havia escondido na canoa. Elas fugiram aterrorizadas. O encanto das bruxas do Pântano do Sul estava quebrado para sempre, graças à ousadia de seu Bebeco. Içuriti Pereira
Irajurá,
Itaeli, Igara, Içairé, luçá, Ivanira e Içuriti Pereira da Silva.
Este, o vereador mais antigo legislando na Câmara de Florianópolis, é
o quinto filho de Pelópides, nome de origem grega, porém nascido na
Ilha da Madeira, escolheu o Brasil para viver e desembarcou em Itajaí
na segunda década do século. Dedicado
à leitura e impressionado com a cultura dos índios que habitaram o
nosso litoral, batizou os filhos com nomes da nação indígena
Tupi-Guarani. O linguajar manezês, capaz de pronunciar cerca de cinqüenta
palavras razoavelmente longas por minuto, traduziu Içuriti para o
purismo popular em "Çuçú", como é conhecido em todos os
recantos da Ilha de Santa Catarina e junto aos políticos catarinenses
que circulam em Brasília. Com
certeza, Içuriti Pereira divide com o radialista Miguel Livramento -
duas figuras reconhecidamente públicas - o título de mais autênticos
manezinhos da Ilha, segundo pesquisas de botequim, e mesmo quando estão
alinhados dentro de uma vistosa fatiota, não conseguem alterar a
característica do verdadeiro homem ilhéu. Vereador há vinte e quatro
anos, eleito em todos os pleitos que disputou, desde a primeira vez em
1975, "Çuçu" circula com desenvoltura pelos gabinetes da Câmara
e do Senado em Brasília, para onde já transportou dezenas de quilos de
frutos do mar e tornou-se o cozinheiro preferido de notáveis caciques
políticos, como o falecido deputado e líder peemedebista, Ulysses
Guimarães. -
Foi o Michel Curi quem me abriu as portas em Brasília, ao organizar em
1976 a primeira comissão de vereadores que foi à Capital federal em
busca de recursos para resolver problemas cruciantes em Florianópolis,
como a enchente que atingiu o Monte Verde, a construção do terminal de
ônibus, a conclusão das obras do Hospital Universitário, a transferência
do casarão dos Correios na Lagoa, do prédio do 5º
Distrito
Naval para a municipalidade e a recuperação da ponte Hercílio Luz. Foi
este trânsito em Brasília que resultou na sua indicação, através da
bancada do PMDB, para a direção da Empresa Brasileira dos Correios e
Telégrafos em Santa Catarina e, ao ausentar-se do cargo para concorrer
à vereança, deixou aquele órgão como sendo modelo no país em
produtividade e qualidade, performance jamais conquistada antes.
"Foi de fundamental importância para o meu trabalho a humanização
da empresa e a proximidade com os funcionários, abolindo inclusive o
uso da gravata". Membro
do fechado clube do Gourmet, alvo de homenagem do embaixador Jorge
Bornhausen na Embaixada Brasileira em Portugal, confessa que não chega
a ser um bom chef de cozinha, mas em Brasília "eu fiz umas
comidinhas" para os deputados da bancada catarinense,
independentemente de partido. "Em Brasília eles costumam comer
camarão de garfo e faca, por isso o crustáceo que vai à mesa tem que
ser graúdo". Convocado
pela senhora Alda De Lucca, coordenadora catarinense da Festa dos
Estados, em Brasília,
"Çuçu" ficou responsável em preparar nada menos que 340
quilos de camarão pistola, doados por empresários catarinenses. O
vereador manezinho com Henrique de Amida Ramos - que hoje descansa em
seu sítio em Cacupé - assumiu um jantar no Clube do Congresso para
oitocentas pessoas, com direito a degustação de vinho da destilaria do
falecido deputado Mazzon, de Urussanga,
ainda no avião que os transportou para a Capital federal. A
lembrança do trabalho duro de cortar pedras numa pedreira próxima à
Penitenciária Estadual, na Trindade, junto com seu Pelópides, faz
parte de uma infância pobre e distante. Acostumado a festas e mesas
fartas patrocinadas por políticos renomados e amigos abonados,
convidado por Cláudio Ávila da Silva para fazer "uma
comidinha" em Brasília, embarcou com cem tainhas, setenta e cinco
quilos de ovas e cem de camarões, para o deleite de deputados e
senadores que se entregaram ao lazer de um torneio de futebol.
"Fiquei impressionado com o deputado, José Genuíno, do PT, ele
preferiu caviar e champanhe Cristal". Seguidor
da doutrina espiritual revela-se premonitório, com sensibilidade para
antever as coisas acontecerem. "Acredito no sentimento da
espiritualidade, trato os meus eleitores e adversários políticos com o
mesmo respeito. Não tenho inimigos. Se existe algum gratuito, por
favor, me procure que estenderei a mão. São os meus amigos que
alimentam a minha alma para continuar fazendo política. A cidade me
conhece, gosta de mim. Sabe, Deus tem sido muito bom para mim, mais do
que mereço." Formado
em ciências contábeis, com o curso de administração municipal na
Alemanha ganhou maior poder de análise e experiência necessária para
legislar sobre os projetos que tramitam na Câmara Municipal. "Na
Alemanha eu circulei por várias cidades acompanhando os projetos em
desenvolvimento de usina de reciclagem do lixo, planejamento urbano,
engenharia de trânsito e regiões metropolitanas. Serviram como base
para eu discutir os projetos que chegam em minhas mãos, assumi um novo
conceito sobre o que é municipalidade." Para
chegar à condição de vereador, Içuriti Pereira quebrou pedras aos
doze anos de idade e ajudou a calçar a reta das Três Pontes (avenida
da Saudade), trabalhou na loja A Grutinha, carregou malas no Querência
Palace Hotel, prestou
serviço militar na Base Aérea de Brasília, foi servidor da secretaria
da Fazenda e da Assembléia Legislativa, professor da rede municipal e
estadual, ingressando na política quando noivou com a filha do
ex-deputado Maneca Santos, ao filiar-se ao MDB em 1967. Um
ano depois, o regime militar cassou o candidato Édison Andrino que
havia participado de um congresso estudantil em São Paulo e,
incentivado por alunos dos colégios nos quais lecionava, concorreu à
vereança no lugar que era do Lagoa a convite do partido. Carrega na
carteira, como troféu, uma cédula plastificada de número 2119, de sua
primeira disputa eleitoral, na qual ficou com a terceira suplência. Em 1975,
elegeu-se com o amigo Andrino, ambos no mesmo partido até hoje,
sendo reeleito seguidamente até o último pleito em 1996. Sempre
ressaltando o efetivo apoio do amigo e compadre, Luiz Henrique da
Silveira, prefeito de Joinville, afirma que continua na política com
perspectiva de ajudar a cidade em que nasceu. "O
salário de um vereador normalmente é repartido com seus eleitores.
Nunca fui apegado a bens materiais e o meu eterno repartir aprendi com
os ensinamentos da doutrina espiritual, encaminhado pelo advogado, Eugênio
Doin Vieira, pai do governador Paulo Afonso". Cerca de 40% de seus
eleitores o acompanham desde a sua primeira eleição. Fez escola na política
com vereadores experientes como, Waldemar da Silva Filho (Caruso), Pedro
Medeiros, Nagib Jabour, Aloísio Pizza, Michel Curi, Édison Andrino, Afonso
Veiga Filho, Deca Peres, seus amigos e conselheiros. "A forma de
fazer política era diferente da de hoje. A gente mandava fazer cerca de
duzentos santinhos na tipografia e colava nos postes com grude", O
sogro deputado dividia o apoio também para o vereador Jerônimo Chagas,
com ambos circulando na mesma faixa eleitoral. Certa noite fragrou o
Chagas percorrendo o seu reduto no Rio Tavares e o seguiu. Com o ouvido
colado na porta onde o concorrente adversário estava, ouviu um diálogo
que o deixou curioso e ao mesmo tempo excitado. -
Mexe mais, mais, mais com força, assim, assim... -
Mais devagar está ficando muito duro, assim não... Aguçando
o olho na abertura da porta, concluiu que não se tratava de nenhuma
sacanagem, mas sim o Jerônimo com uma velhinha, seu cabo eleitoral,
preparando um grude (pirão de farinha) para colar os santinhos. Içuriti
Pereira é identificado pelos amigos como uma pessoa de boa índole,
cortês, alegre, fazendo piada em torno de tudo que gira ao seu redor e
sempre preocupado em solucionar o problema dos outros. Um manezinho
assumido com direito a diploma, que não dispensa um peixe com pirão,
mas pode ser encontrado no democrático balcão do Box 32 degustando um
jamon com champanhe Don Perignon, ou no disputado Museo do Jamon, no
centro de Madri, sorvendo um fino vinho Jerez, acompanhado de jamon pata
negra fatiado (pernil defumado de um porquinho metido à besta
alimentado a castanhas, com direito à sombra e água fresca). As
viagens internacionais, o estreito contato com autoridades em Brasília
não mudaram o jeito de ser de "Çuçu", que gosta de cultivar
uma boa frieira entre os dedos do pé para a delícia de "esfergulhar"
(coçar). Mestre na arte de manezário, ele diz como identificar um autêntico
manezinho. -
O mané mesmo tem que ter tido bicho-de-pé, pelo menos uma vez, por
isso teve que andar descalço. Tem que ter cheirado a fuligem da pomboca
e amanhecer com o buraco do nariz enfumaçado e, no mínimo, ter dançado
na cabrinha. Não fazer igual ao Michel Curi que ficou entalado no
cavalinho. Respirando
a sua Florianópolis há cinqüenta anos, confessa que anda muito triste
com os descaminhos de sua cidade com o seu crescimento desordenado e
admite que, como vereador, tem uma parcela de culpa, ressaltando,
entretanto, que os subterrâneos da câmara municipal são muito
complicados, cheios de labirintos que dificultam uma discussão mais
ampla e unificada. "Aos olhos das pessoas eu posso parecer culpado,
mas a nossa bancada sempre foi minoria. Infelizmente,
cada um elege os seus interesses, prejudicando a nossa qualidade de
vida. No entanto, sou um homem esperançoso, pois Florianópolis
continua preservando 44% de sua área verde. Nem tudo está
perdido." Na
sua opinião, é o jornalista Paulo da Costa Ramos quem melhor retrata a
"desgraça desta cidade. Não é admissível que algumas pessoas
venham para a nossa Capital fazer política e permaneçam por aqui
assaltando bancos, residências e matando pessoas indefesas. Essas
atitudes não são características do manezinho sempre acolhedor, que
sabe receber e conviver com seus visitantes, desabafa. É
preciso
fundar uma associação dos que amam Florianópolis".
Zé do Cacupé
Há cinqüenta anos, José Eliseu da Silva espreita a cidade debruçado na mesma janela de sua venda, em Cacupé, de onde descortina-se uma deslumbrante vista para a baía Norte. Dali, como se estivesse filmando o tempo passar, há meio século ele acompanha as transformações do centro urbano. Os minúsculos pontos de luz perdidos na escuridão da noite deram lugar a iluminação pública com pigmentos de néon, a Ponte Hercílio Luz ganhou duas novas parceiras e as tradicionais praias do Müller e São Luiz, sumiram como por encanto, violentadas pela pomposa Avenida Beira-Mar. Conhecido nos quatro cantos da Ilha de Santa Catarina como um sujeito extremamente folclórico, Zé do Cacupé encarna a figura do autêntico manezinho, um irresistível faroleiro e contador de histórias. Com extrema facilidade de comunicar-se e se doar às pessoas, logo ao primeiro contato torna-se um íntimo amigo de muitos anos. Quando a Beira-Mar começou a ser projetada, o engenheiro Aldo de Oliveira Novo, responsável pela obra, o procurou para uma consulta. – O Dr. Aldo queria saber onde estavam as áreas com maior concentração de pedras e lama na baía. Falei como prático, e ele confirmou o que eu disse mais tarde. Conheço pedra por pedra dessa baia de tanto tarrafear, são mais de cinqüenta anos de pescaria”. Aos 70 anos, nascido e criado em Atrás do Morro (Cacupé, na linguagem indígena), Zé tem uma visão aberta, voltada para o mundo moderno, aceitando passivamente o crescimento desenfreado da cidade. O
trajeto para o Centro, transportando o peixe de cada dia em sua
canoa a remo, faz parte de um passado que não lhe deixa
saudades. “Eu saía daqui de canoa, com 300 quilos de
linguado, até o Porto do João Arsênio, que ficava próximo à
Igreja São Luiz (Agronômica). Depois levava o peixe até o
Mercado em carro-de-praça (táxi), fazia a feira e voltava
re-mando. Amarrava o meu santo direitinho numa lata, junto ao
corpo, para não ser surpreendido pelo traiçoeiro vento sul”. Antes
da construção da estrada de acesso, Cacupé era uma praia de
veraneio, freqüentada por alguns privilegiados velejadores. As
primeiras casas construídas foram das famílias Edmar Nunes
Pires, Elpídio Barbosa e Polidoro Santiago, que buscavam nas águas
tranqiiilas e na vegetação verde o descanso dos finais de
semana. Aos 29 anos, o destemido pescador sucumbiu a uma crise de poliomelite que lhe afetou uma perna. A doença deixou a sua marca, mas não foi o bastante para afastar o otimismo e a sua alegria de viver. “Nunca me entreguei, precisa-va continuar pescando. Quando fico sufocado com os meus problemas, tomo duas cervejas e boto a canoa no mar. Cada um segue o seu destino, nunca pensei que vou morrer amanhã”. Ainda
moço, Zé do Cacupé fugiu de casa e foi servir à Polícia
Especial (PE), no Rio de Janeiro. Permaneceu alguns anos em São
Paulo, depois em Santos, trabalhando como pa-deiro. Diz que foi
o padeiro oficial de Pelé, embora ninguém confirme. Mas seu
destino mesmo era a baía de Cacupé, na qual pródigos cardumes
de linguados, robalos, mangonas, pescadas amarelas e pijarevas o
aguardavam. “Ainda hoje existe muito peixe na baía, pra quem
não é malandro e gosta de pescar. Se eu quiser fechar a venda,
ainda posso viver de pescaria, tranqüilamente”. Gaba-se o conhecido faroleiro das generosas pescarias que fizeram história, com a captura de um mero de 80 quilos, uma mangona de 60 e uma raríssima caranha de 103 quilos. Enquanto domina a entrevista, seu amigo e velejador Edmar Nunes Pires, que atendia no balcão, mostra-se incrédulo quanto à caranha de 103 quilos. Conhece as virtuosidades do velho Zé, desde criança. –
Quando eu e o Geraldino pescamos esse mero de 80 quilos, o istepô
do bicho era tão grande que carregou a gente com canoa e tudo
para a ilha dos Guarás, onde ele tinha cama. Foi um trabalho,
complementa Zé. Em
sua venda, meio armazém, meio bar, Zé do Cacupé recebe
ilustres boêmios e empresários que, aos finais de tarde,
habitam aquele pequeno espaço para conversar com o sábio
comerciante, uma receita infalível para curar qualquer
estresse. Sua venda é um palco onde Zé encena o seu monólogo
do dia-a-dia, diante de uma platéia ávida pela comédia da
vida. Ele é o show! Com
uma chapinha de cerveja entre os lábios assovia
descontraidamente, canta o Carinhoso com sua voz esganiçada,
ressaltando que “esta composição é de minha autoria”,
capaz de virar Pixinguinha no túmulo. Com um balaio com
centenas de pedaços de papel de embrulho e os versos musicais,
propaga as suas qualidades de cantante, embora nunca consiga
executar a música inteira. “Não sou um bom cantor, mas
desempenho as minhas qualidades. Traz o violão e eu faço a
festa”. Manezinho
esperto, esse Zé. Usa a sua popularidade como marqueteiro
competente para atrair clientes para o Restaurante
Estrela-do-Mar, ao lado de sua venda, de propriedade do filho
Renato, especializado em frutos do mar. Aos finais de tarde,
quando o sol começa a se esconder atrás da cidade, as rodadas
de dominó sucedem-se para, mais tarde, os freqüentadores
degustarem o saboroso peixinho. “Sou o bom do dominó, visse?
Já ganhei de gente famosa, como Niltinho Ramos, Paulo Gil e do
Maneca Alves. Ontem apareci uma lisa, mas depois dei duas”. Usando
o chavão “ter um amigo na praça é o mesmo que ter dinheiro
no caixa”, Zé do Cacupé afirma que tem facilidade de fazer
amigos, por saber respeitá-los. Os mais íntimos, chamam-no
carinhosamente de Zé Ladrão, mas ele disfarça com o clássico
“ não é nada disso, é bondade sua”. Um
especialista em fazer contabilidade, ao meu modo, é claro. Três
vezes três são dezoito, vão dois, resumiu a conta para um
incauto cliente, e para outro, somou junto com a despesa a chapa
do automóvel, que estava estacionado em frente à porta. Outra
façanha do manezinho é assumir a postura de galanteador, mas
reconhece não ser um galã. “Pra mim, mulher casada é homem.
A mulher tem que ser respeitada. Esses abusadinhos metidos a galã
sempre se dão mal. Eu espero que elas se declarem: “Zé, eu
gosto de você”. “Eu também”, ensina. Sou um homem
cantado, elas gostam de me ver cantar. Tudo isso por causa da
minha lábia, por causa da minha popularidade. Se perguntarem
pelo Zé do Cacupé em Brasília, São
Paulo, Rio de Janeiro e Santos, principalmente, todo mundo me
conhece”, exagera.
“Aqui
estou na sua casa, na
beira do terreiro, se
você for bem bonzinho, te
darei um dinheiro”.
Cantarola
um verso improvisado do terno-de-reis. Cantador de terno, pé-de-valsa
dos bailes da periferia e dançador de boi-de-mamão, também são
virtudes do folclórico José Eliseu. -
Na farra do boi fui o maior campeão, por essa luz que me
ilumina - jura. Brincava nos Ratones, na Vargem do Bom Jesus.
Uma vez, rapaz, o boi me pegou de jeito, me deu uma fucinhada no
rabo, fui jogado em cima de um pé de bergamota cheio de
espinho. Eu era um bicho. Mas eu era bom mesmo quando dançava
no boi-de-mamão, dava galhada em todo mundo, era uma correria.
Um dia brinquei ferrado na cabrinha e acabei com uma roça de
aipim. No urubu, então, eu era um diabo. Saía beliscando as
velhinhas. Dançarino e namorador, era assim reconhecido na região, lembra. Alugava uma carroça em Cacupé, carregada com três moças e quatro rapazes, para dançar na Vargem. “Era aquela mistura. Um dia virei a carroça no caminho e apareceu a calcinha V8 de uma das moças. Aí eu disse: “Visse, acabei vendo a tua calcinha. Tu não queria me mostrar...” –
Como qualquer homem do interior da Ilha, Zé do Cacupé também
conviveu com a bruxaria, afirmando que essas coisas ainda
existem. Mas era na escuridão da noite, na pescaria no meio da
baía que as bruxas gostavam de atacar. “Aqui existia uma
figueira enorme, dava para eu ver certinho uma grande peneira
sobre ela, toda iluminada, depois desaparecia. Era o espírito
de um sujeitão pão-duro, que tinha enterrado dinheiro naquele
lugar e voltava para tomar conta”. Naquela
época todo mundo acreditava em tudo, concorda Zé, ao lembrar
que estava tarrafeando e viu claramente uma bruxa passar voando
à distância. Mas o pior estava reservado para uma noite quando
ele voltava da pescaria com um balaio cheio de peixes.
“Apareceu um cavalo branco, lindão. Vou aproveitar para levar
esse balaio pesado, pensei. Nem te falo. O cavalo peneirou
(disparou) e eu fui jogado em cima de um monte de espinhos,
perdi o peixe, me arrombei todo”. Outra visão muito freqüente nas noites de Cacupé, confirmada pelo Edmar Pires, era a presença de um padre sem cabeça, só aparecia a batina. “Certa vez, um cara foi agarrado pelo padre, foi sufocado e quase morreu. Foi salvo pelos pescadores, lembra Zé. Aos 60 anos, Zé do Cacupé demonstra ser um homem ainda forte, conhecido como mão-de-ferro, por causa do remo. Ninguém fez questão de cumprimentá-lo. Diz que a receita é comer peixe com pirão desde criança. “O peixe tem vitamina, dá força, é bom pra cabeça. A carne verde tem vitamina demais, dá doença: a carne de porco tem o bicho do porco, dá doença no cérebro. Mas o camarão não, é bom pra tesão. Mas tem que chupar a cabecinha”. Conhecer
o serviço meteorológico é outra qualidade dele. “Uma vez, o
Cel. Rosinha chamou o Seixas Neto perto de mim e disse-lhe: Oh,
Seixas, que vento vai dar amanhã? Vento sul, Coronel, respondeu o Seixas. Aí eu discordei. Olho pro céu e digo o tempo certinho. Basta observar se o Cambirela está com ou sem chapéu”. Pediu para registrar a captura de um camarão, que depois de seco pesou 6,300 kg. E sentencia: - Eu sempre digo pros meus amigos. Cada um na sua arte. Você é bom na sua, e eu sou bom na minha profilaxia.
Fonte: Retratos à Luz da Pomboca, Aldírio Simões, IOESC, Florianópolis, 1997. Audírio Simões é apresentador do Programa Bar Fala Mané e colunista do Jornal ANCapital |