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Das modestas palhoças aos imponentes sobrados
Nesta seção estão descritos os diversos tipos de edificações desde os primeiros habitantes até os dias de hoje.
A pré-história da ilha indica que os primeiros moradores utilizavam-se de abrigos primitivos feitos de galhos e folhas. Habitação
Indígenas
Os primeiros povos chegaram na ilha a cerca de 5000 atrás. Nômades, não fixavam-se ao local, simplesmente permaneciam ali enquanto a natureza lhes propiciasse as condições mínimas para sobreviver. Assim, suas instalações eram muito precárias, muitas vezes instalando-se em cavernas ou utilizando das formações rochosas para protegerem-se das intempéries. Com isso dois problemas passaram a fazer parte da realidade destas comunidades: o aumento demográfico e a escassez destas moradas. Surgiram assim os primeiros abrigos construídos pela comunidade. Utilizando-se da folha de palmeira como matéria prima, montavam suas habitações que, mesmo precárias, foram suficientes para fixá-las num mesmo lugar, indefinidamente. Por muitos anos utilizaram este tipo de habitação, até que surgiram as primeiras paredes de galhos e barro, o "estuque", que consistia em somar o barro como cimento natural a galhos ou bambus como material de sustentação, as palhoças.
Palhoças
Pequenas habitações onde desprovida de luxo ou qualquer conforto mínimo abrigavam as famílias, principalmente dos nossos habitantes mais modestos, os trabalhadores da terra e do mar. Moldadas as paredes de bambú com barro "estuque" cobertas com a folha de palmeira, onde no mesmo cômodo, durante o dia fazia-se as refeições e à noite repousavam todos os moradores juntos, encostados uns com os outros para evitar o frio. O chão socado e descoberto, na maioria sem móvel que fosse, sendo que neste caso comia-se ao colo ou sentado sobre pedras. Eram, apesar de precárias na forma, resistentes às intempéries.
Choupanas
Caracterizavam-se como habitações simples. O interior com quase sempre uma sala de estar, um ou dois quartos e uma cozinha. Podia-se encontrar, a cozinha separada, neste caso, junto um quarto servindo para acomodação de escravos negros. A cobertura era feita com folhas de palmeira ou bananeira. Em casas mais abastadas o piso da sala era assoalhado e algumas com telhas ao invés de palha. Eram erguidas, de preferência, à sombra de pés de laranjeiras e fontes naturais de água.
Sobrados
Eram residências compostas por dois pavimentos, onde subdividiam-se, na parte inferior em sala, cozinha, área social e de refeições, bem como de serviço, na parte superior a área intima da casa, quartos e salas intimas. Eram construções caras e bem construídas.
Arquitetura Militar
Foram edificações executadas pela marinha real portuguesa. Por representar importante e estratégico porto de abastecimento às embarcações portuguesas, a partir de 1739 a Vila de Nossa Senhora do Desterro tornou-se importante posto militar, sendo que a partir daí iniciaram-se a construção de várias fortificações através do Brigadeiro e engenheiro Silva Paes que foi quem projetou e acompanhou a edificações nas ilhas e na Vila.
Arquitetura Açoriana
Em
Santa Catarina, o material mais usado na habitação rural é a madeira:
a floresta tropical do litoral e a araucária do planalto fornecem esse
material em abundância. São as de pau-a-pique com coberturas de palha,
ou então são feitas as paredes de barro, com armação de taquara; já
a cobertura com telhas de barro cozido denota melhoramento - é a casa
de oitão, tipo fundamental em Santa Catarina. Já
o descendente dos açorianos e vicentistas os quais se fixaram nos três
pontos do litoral São Francisco, Laguna e a Ilha, quando constrói um
edifício rudimentar, recorre a esse modelo, com uma variante - o
beirado, que deve ser uma imitação da casa urbana. Assim,
pois, observando o tipo das casas de origem açoriana ou vicentista,
principalmente, na nossa cidade, onde apesar das demolições pelo avanço
das construções modernas, se notam ainda as diversas características
dessa influência, dando a nossa cidade um aspecto “sui generis”,
vimos que, dentro da cidade portuguesa de blocos cerrados, a casa de oitão
era impossível de ser levantada. É que, com a vinda dos casais açorianos
a colonizar nosso litoral, o governo português determina a construção
das povoações sempre dentro de um formato: praça central, tendo numa das
faces da igreja e noutra a casa do governo; dessa praça, sairiam ruas
paralelas com certo número de palmos para cada família. Os açorianos,
chegando à Desterro em 1748, em levas sucessivas até 1756, localizaram-se aqui
ou espalharam-se para Enseada de Brito, Laguna, São Miguel, São José,
Sto. Antônio, Rio Tavares, Lagoa, Ribeirão, Canasvieiras, Trindade e
para o Rio Grande do Su1. Só no começo do século XIX, a população de Florianópolis consegue ascender do grau de decadência e miséria a que tinha chegado, por diversos fatores de ordem econômica e social; Já se delineava então uma certa classe média, sendo a nobreza da terra, os armadores (antigos proprietários de terra). Não havia grandes proprietários de terra na cidade (foi na base da desclassificação da grande lavoura, do lavrador e a classificação do armador que se estruturou a sociedade desterrense). Assim, pois, as casas, baixas, pegadas umas as outras, geralmente com testada exíguas e duas águas, alinhavam-se em ruas estreitas, partindo do centro, as três fontes de água, existentes nas proximidades. É o que se observa hoje na localização da praça “XV de Novembro, com a série de ruas ali desembocado: Conselheiro Mafra, Felipe Schimidt, Tiradentes, João Pinto, etc.
Arquitetura desterrense
Eram,
as casas, de porta e janela num compartimento de entrada; dali saia um corredor com
um quarto ao lado, atrás da primeira sala, sem janelas. O
corredor ia terminar
noutra sala, a varanda, onde ia abrir outro quarto, também sem janela, os
outros compartimentos do fundo que davam para o quintal. Os
telhados com beirais desciam até bem baixo. É o que se vê ainda hoje,
em casas situadas a rua João Pinto. Conforme
descrição de Oswaldo Cabral em "Nossa Senhora do Desterro - casas
- sobrados - chácaras”, eram tais casas feitas de tijolos
com traço de cal de conchas e areia, ligados com azeite de baleia,
o cimento da época. A pobreza não tinha o azeite, e o traço não
passava então de um barro grosso, cal areia, misturados com água: com
o tempo, essa mistura se esfarelava e as paredes, sob o peso das
cumeeiras de madeira pesada iam perdendo o prumo. Dai, pois, serem
construídas umas colocadas às outras, arrimando-se mutuamente. E
assim são às famosas casas "porta janela", ainda existentes, atestando os restos saudosos da nossa antiga Desterro. Úmidas e escuras, têm as janelas de guilhotina,
e abrigam ainda hoje a gente mais humilde que quer localizar-se no
centro, sem precisar subir morro ou tomar ônibus. Já
aparecem mais tarde outras casas melhores, mais confortáveis, com várias
janelas à frente, com caixilhos em losangos duplos e superpostos
gradeados (os vidros cortados apresentam os mais variados modelos,
conforme o gosto e a fortuna do proprietário). As portas já ostentam
bandeiras, com motivos desenhados e as calhas aparecem. As janelas
continuam abauladas - estilo de 1820 (as retas já são de 1890). Era comum bandeira da porta com motivos ornamentais de ferro; caixilhos das
janelas com losangos de vidro (o vidro era escasso, precisava-se
aproveitar qualquer pedacinho), o beirado gotejando em dias de chuva
para a rua (existe até hoje na prefeitura um imposto para essas casas
de beirais) e os ladrilhos enfeitando toda a parede frontal. Na
Rua Vidal Ramos, no centro, aparecem as pontinhas dos
beirais, algumas simplificadas, outras estilizadas, nos ângulos dos
telhados ou nas cimalhas. Com
relação as pombinhas, segundo
Walter Spalding, as pombinhas nos telhados são as manifestações
da arte popular de caráter religioso - a pombinha é símbolo
usado na Igreja desde os tempos primitivos e a história religiosa está
cheia de acontecimentos em que ela, bíblica mensageira de Noé,
desempenha papel muito importante". E a pombinha começou a aparecer nos telhados como súplica
visível e constante proteção divina, pois sendo muito viva à devoção
ao “Divino” (tradição açoriana), não é de estranhar que a seu
culto ande associada a pomba simbólica. Vem daí também a "festa da
cumeeira", inteiramente abandonada nos dias de hoje quanto ao simbolismo
religioso. A época materialista pôs fim a esse delicioso e
delicado símbolo cristão que transformava o almoço dos operários à sombra da “bandeira da
pombinha”, em "festas da Cumeeira", celebrada à sombra de galhos
verdes e palmas de coqueiros. Observemos
agora as casas de sobrado, índice da melhoria econômica do
morador e da necessidade de "assobradar o centro para que fosse
melhor aproveitado" (Oswaldo Cabral). Localizavam-se na praça e
nas ruas laterais - Conselheiro Mafra, João Pinto e Tiradentes. As
portas térreas, com grandes dobradiças de ferro e trancas, eram muitas
vezes almofadadas. Ao lado as sacadas, nos seus mais variados
aspectos, caixilhos ornamentais e rendilhados. Na fachada, eram comuns, portais de granito, com as
sacadas gradeadas e as
bandeiras enfeitadas de ferro, com desenhos e arabescos. Comuns os janelões abaulados,
com "sobrancelhas" e na parte superior o mirante - o sótão. Em
algumas bandeiras das portas de sacada eram ornamentadas com símbolo que
indicavam a profissão do seu antigo proprietário. Executados em
ferro retorcido, com complicados desenhos tendo nos
cantos as pinhas, também aparecem no alto, com enfeite dos ganchos
destinados a sustentar em noites de procissão, os globos de vidro com
velas para iluminar a fachada. Quanto ao
interior dessas casas, apesar de já termos falado na sua repartição
interna mais simples, podemos dizer que continham geralmente grandes
salas, altas e às vezes cobertas de azulejo, até a altura de um metro,
aproximadamente.
Suas portas
internas também são guarnecidas de bandeiras com desenhos de vidros
coloridos, enquanto uma das paredes internas da sala de jantar (ou
varanda) contém às vezes, janelas internas, para permitir a passagem
de luz aos quartos escuros;
são
fechadas por trancas, girando sobre os gonzos, ou por fechaduras
enormes que pareciam garantir, com o seu tamanho, a segurança da casa.
As janelas mais primitivas e mais modestas são fechadas com tramelas
enquanto outras ostentam trincos de ferro roliço que vão até o teto, prendendo a mesma à
parede.
As
paredes são de boa largura, às vezes revestidas de papel decorativo importado com
motivos coloridos, ou então, pintadas com barras coloridas de flores,
frutas, folhagens, conforme a peça da casa. Ainda encontramos, muitas construções que apresentam estas características no centro histórico da Ilha. Apesar que a cidade continha muito mais do que tem hoje.
A Habitação, de Olga Cruz Florianópolis, 1956. |