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Terra de sol e mar e pampeiro também.


Nesta seção destacamos as principais manifestações climáticas, como as massas de ar e variações térmicas. Além das influências que advêm destas oscilações.


 

Clima Regional e Urbano da Ilha de Santa Catarina

 

 

O tempo atmosférico indica as condições do ar de um local em um certo momento, estando sujeito a modificações constantes. As estações do ano, resultantes das diferentes posições da Terra em relação ao Sol, influenciam na ocorrência dos tipos de tempo mais freqüentes em dado período do ano. Em Florianópolis, por exemplo, durante o inverno, predominam tipos de tempos associados à passagem da frente fria: período de elevação da temperatura seguido da entrada do vento sul, chuva forte com trovoadas; período de forte nebulosidade com chuva leve e contínua e em seguida céu claro, baixa umidade relativa do ar e temperaturas muito baixas. No verão predominam temperaturas elevadas e instabilidades convectivas (tempestades de verão). A freqüência com que determinados tipos de tempo se sucedem durante o ano, ano após ano, em determinado lugar, caracteriza o clima.

A caracterização científica dos climas é baseada na análise de um grande número de dados relativos às condições do tempo (temperatura, umidade do ar, pressão, precipitação e ventos), registrados e acumulados durante longo período, em estações meteorológicas. Entretanto, pela observação empírica todas as pessoas têm uma noção do clima do lugar onde vivem, sendo que profissionais como pescadores e agricultores, cuja atividade é bastante dependente das condições atmosféricas, são capazes inclusive de fazer previsões de tempo de curto prazo bastante precisas.

Os climas existentes sobre a superfície terrestre resultam da combinação de seus elementos (temperatura, umidade relativa do ar, pressão, precipitação e ventos) e fatores astronômicos e geográficos (latitude, altitude, grau de continentalidade, vegetação e correntes marítimas). Elementos e fatores se influenciam concomitantemente, caracterizando e individualizando grandes porções de ar, denominadas massas de ar.

As massas de ar se distinguem por duas propriedades físicas principais: temperatura e umidade. Assim o tempo dominante pode ser caracterizado por uma massa de ar quente e seca ou quente e úmida ou fria e seca ou fria e úmida. Além do tempo de massa, podem ocorrer também correntes perturbadas, ou seja, tempo de instabilidade com ventos fortes, chuvas e trovoadas. Este tipo de tempo resulta da influência de uma massa de ar sobre outra. Exemplo deste tipo de tempo é a passagem da frente fria, que representa o encontro da massa de ar quente com a fria e o deslocamento da primeira pela segunda.

A formação de uma massa de ar requer grandes extensões homogêneas, de modo que as áreas de origem são os oceanos e os continentes em diferentes latitudes. De acordo com sua origem as massas de ar recebem denominações tais como: Continental Ártica, Polar Marítima, Tropical Marítima, Equatorial Continental, Tropical Continental, Equatorial Marítima.

De acordo com a latitude, o clima regional é controlado pelas massas de ar dominantes. STRAHLER propôs um modelo de classificação genética dos climas baseado na atuação das massas de ar. Dentro dessa classificação os climas do mundo dividem-se em três principais: climas das latitudes baixas, controlados pelas massas de ar equatoriais e tropicais; climas das latitudes médias, controlados pelas massas de ar tropicais e polares; e climas das latitudes altas, controlados pelas massas polares e Ártica. As subdivisões consideram os demais fatores (vegetação, grau de continentalidade, correntes marítimas e altitude) como por exemplo: Desértico tropical e de estepe, Continental úmido, Marítimo subártico, Clima de terras altas. Modelos de classificações genéricas como o de KÖPPEN (1846-1940) baseiam-se nos elementos climáticos como temperaturas médias anuais e totais pluviométricos além da vegetação, como por exemplo: Clima tropical chuvoso de floresta - Af (temperatura média superior a 18ºC e úmido o ano todo); Clima temperado chuvoso e quente - Cfa (temperatura média do mês mais quente superior a 22ºC, úmido o ano todo) (AYOADE, 1986).

A Ilha de Santa Catarina, situada nas médias latitudes a 27º S, apresenta características climáticas controladas pela atuação das massas Polar marítima (Pa) e Tropical marítima (Ta) do Atlântico. De acordo com os critérios do modelo de classificação de Strahler seu clima é do subtipo subtropical úmido. Segundo E. NIMER está inserida na região de clima temperado de categoria subquente, com temperatura média oscilando entre 18 e 15ºC no inverno e entre 26 e 24º C no verão. A temperatura média anual é de 20.4ºC (NIMER, 1989: 252-53).

A amplitude térmica anual, diferença entre as temperaturas médias máximas e mínimas, é pequena devida à proximidade do mar que gera circulação local com a formação das brisas terrestres e marítimas. A umidade relativa do ar média é de 80%; também influenciada pela maritimidade é mais elevada no inverno. Os ventos predominantes sopram do quadrante norte associados à massa de ar Tropical Atlântica. Os ventos do quadrante sul, também freqüentes, são os mais velozes, com rajadas de até 80 km/h, estando associados à atuação da massa Polar (MONTEIRO, 1992: 26-27).

O encontro das massa Tropical (Ta) e Polar (Pa) dá origem à frente fria polar, que no seu deslocamento ocasiona bruscas mudanças no tempo atmosférico em qualquer estação do ano. No inverno, a passagem da frente fria é sucedida por ondas de frio das massas polares, que baixam consideravelmente as temperaturas. O mesmo efeito no verão tem ação amenizadora.

A frente polar controla também o ritmo da precipitação, visto que as chuvas são em geral pré-frontais, frontais e pós-frontais. As chuvas são distribuídas durante o ano com ausência de estação seca definida. Observa-se entretanto, chuvas menos abundantes nos meses de inverno, normalmente leves e contínuas, e mais abundantes no mês de fevereiro, em geral rápidas e torrenciais (MONTEIRO, op cit.: 26). As chuvas abundantes do verão estão associadas ao grande aquecimento do continente, cujas temperaturas médias máximas, junto ao litoral, são alcançadas em fevereiro, devido ao atraso do aquecimento das águas em relação ao solstício de verão (21/12), quando os raios solares tornam-se perpendiculares ao Trópico de Capricórnio emitindo maior radiação para o hemisfério sul.

Precipitações concentradas no inverno, que ocasionam enchentes em grande parte do Estado de Santa Catarina, têm sido associadas ao fenômeno El Niño - Oscilação Sul. Decorrem do aquecimento anômalo da superfície do Oceano Pacífico, nas proximidades da costa do Peru. Com o aquecimento das águas, ao invés de o ar descer sobre o Pacífico, como normalmente ocorre, ele sobe, descendo sobre a Amazônia e o Nordeste brasileiro, bloqueando o deslocamento da frente fria que permanece estacionária sobre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Esta, além de estacionária será alimentada, durante duas ou três semanas, pelo ar quente vindo da Amazônia, que fornece o vapor d'água que vai sendo transformado em chuva pelo mecanismo dinâmico do sistema atmosférico (MOLION, 1990: 126).

Para o aquecimento anômalo do Pacífico várias hipóteses têm sido levantadas como o enfraquecimento dos ventos alísios, impedindo o deslocamento das águas quentes da costa do Peru para o Taiti (MOLION, 1989: 26), bem como erupções vulcânicas que ocorrem em períodos concomitantes ao fenômeno no assoalho do Pacífico (Dorsal do Pacífico Leste).

As estações primavera e outono, não apresentam um quadro climático definido. Ambas caracterizam-se pelas tendências médias do inverno e verão, respectivamente, cujos mecanismos de circulação só aos poucos vão se perdendo.

No mês de novembro a situação de primavera adquire as características do quadro de verão, com diminuição da intensidade das massas polares e moderação dos avanços frontais que pouco ultrapassa a linha do trópico. A frente tende a deslocar-se em direção ao oceano. As ondas de calor de Noroeste (NW), que precedem as frentes, tornam-se cada vez mais violentas. As chuvas e trovoadas são reforçadas por influência das baixas pressões induzidas pela massa de ar Tropical continental, que se origina na depressão do Chaco, e pela Equatorial continental da Amazônia, ambas intensificadas pelo aquecimento do continente (MONTEIRO, 1962: 140-41).

Em março e abril prevalecem condições atmosféricas muito semelhantes àquelas do verão, pois as massas tropicais mais ativas fazem a Frente Polar Atlântica recuar como frente quente. Já no final do outono, aumentam as condições de acúmulo de ar frio na Patagônia, intensificando a frontogênese e o avanço das massas polares o que sinaliza a proximidade do inverno.

A Ilha de Santa Catarina comporta, na sua porção central, parte do centro urbano de Florianópolis. Apesar de ser uma cidade de porte médio, esta já apresenta problemas característicos da urbanização, entre os quais aqueles que se referem ao clima urbano.

Há muito tempo a atmosfera das grandes cidades passou a ser objeto de estudos científicos, principalmente por estudiosos dos climas. Os primeiros estudos sobre o clima urbano foram realizados em Londres por EVELYN (1661) e HOWARD (1833), porém são considerados clássicos aqueles produzidos por LANDSBERG (1956) e CHANDLER (1965) (ver LOMBARDO, 1985).

O clima urbano destaca-se pelas diferenças que apresenta em relação ao clima das áreas rurais vizinhas. Acrescentam-se aos fatores geográficos do tempo e clima, os fatores urbanos, modificando os atributos ambientais.

As áreas construídas da cidade com concreto, vidro e asfalto alteram o albedo, coeficiente de reflexão de radiação ou perda de energia, uma vez que tais materiais são eficientes absorvedores de calor. Asfalto e concreto absorvem mais de 75% da radiação solar incidente.

Nas cidades, as áreas construídas crescem em detrimento daquelas com vegetação. Áreas com cobertura vegetal podem absorver até 90% da radiação incidente, porém são consumidoras de calor para fotossíntese, amenizando as temperaturas. Já áreas construídas com concreto, vidro e asfalto são armazenadoras e refletoras de calor, elevando as temperaturas no interior da cidade. Enquanto o calor absorvido pela vegetação se desprende lentamente durante o dia por causa da evaporação nas folhas, aquele absorvido pela cidade se perde somente do entardecer até a noite causando mal estar nos habitantes, justamente no momento de retorno do trabalho. À noite a troca de calor entre os edifícios dificulta o resfriamento do ar da cidade. De acordo com ERIKSEN (1978) citado por LOMBARDO (op cit.: 26), o excesso de calor associado à qualidade do ar nas cidades pode prejudicar a saúde humana, provocando distúrbios de coração, circulação e respiração.

A altura, densidade e forma das construções mudam a morfologia do solo urbano, influenciando no ângulo de incidência da radiação solar, de modo que podem diminuir ou aumentar a recepção de energia em determinadas áreas da cidade. No hemisfério sul, superfícies inclinadas para o sul recebem durante o ano menos energia do que aquelas voltadas para o norte, em função do movimento aparente do Sol. Quanto mais inclinada a superfície, menor a insolação recebida. A falta de insolação é propícia à proliferação de fungos e aumento de doenças respiratórias que poderão atingir as pessoas que vivem e trabalham nessas áreas.

O asfaltamento, calçamento de vias e adensamento de construções aumentam a cobertura do solo por materiais impermeáveis, aumentando o escoamento e o risco de ocorrência de enchentes.

Na cidades há produção artificial de calor pelas máquinas, condicionadores de ar, tráfego de pessoas e automóveis, refletindo na diminuição da umidade do ar. Entretanto, a produção industrial e o tráfego de automóveis contribuem para o aumento de material particulado no ar, especialmente óxidos de enxofre e fósforo, que se constituem em núcleos de condensação ativos, quando a umidade relativa do ar atinge determinado valor. Normalmente, a condensação ocorre a partir da saturação do ar (100% de umidade relativa do ar), porém nos centros urbanos, com maior concentração de poluição, pode ocorrer com umidade do ar de até 70%. Os núcleos, quando ativos, passam a absorver moléculas de vapor d’água do ar, aumentam de tamanho e reduzem a visibilidade, dando origem a uma névoa úmida. Em locais de alto índice de poluição a freqüência de ocorrência de nebulosidade é maior (TUBELIS & NASCIMENTO, 1988: 167-69).

Nas cidades os ventos fortes são desacelerados e os fracos acelerados à medida que se movimentam no interior das mesmas. A concentração de edificações, por um lado, dificulta a ventilação da cidade e por outro cria turbulência, triplicando a velocidade do vento canalizado pelas ruas (WMO, s/d).

Nas áreas de maior concentração de edificações altas e pavimentação, o armazenamento de calor pelos edifícios, a troca de calor entre eles, a diminuição da perda de calor por evaporação (ausência de áreas verdes) e a diminuição da ventilação dão origem às "ilhas de calor" ou seja, áreas mais quentes do que aquelas que estão ao redor dela.

Com relação à caracterização de um clima urbano na Ilha de Santa Catarina existem informações levantadas em investigações pontuais e preliminares.

Levantamentos meteorológicos foram realizados, entre maio e junho de 1987, com o objetivo de caracterização preliminar do comportamento da atmosfera, principalmente do campo térmico, na área mais urbanizada da cidade de Florianópolis. Nas conclusões deste trabalho os autores SEZERINO & MONTEIRO (1990) levantam conclusões importantes para o planejamento do crescimento da cidade.

Durante os levantamentos, abrigos meteorológicos portáteis foram espalhados por diversos pontos da cidade para registro das variações dos elementos do tempo e clima. Na análise dos dados levantados SEZERINO & MONTEIRO (1990) detectaram sintomas do fenômeno "ilha de calor", pois em alguns pontos da cidade as temperaturas registradas foram superiores às observadas na Estação Meteorológica Florianópolis, situada em São José e representativa do clima regional. Tais diferenças foram atribuídas, principalmente, ao nível de comprometimento urbano daqueles pontos.

No centro da cidade foram observadas diferenças de temperaturas superiores a 1ºC nos seguintes locais: nas imediações do Ceisa Center (+1,2ºC à noite); entre o Ceisa Center e a Rua Felipe Schmidt(+2,6ºC às 15:00 h); na Rua José Rufino da Silva, nas proximidades da Beira Mar Norte num ponto de relativo adensamento de edifícios residenciais altos (+1,2ºC, às 15:00 h; entre a Felipe Schmidt e Deodoro (+2,4ºC, às 21:00), devido ao deslocamento do calor armazenado nas imediações do Ceisa Center e no cruzamento das ruas Nereu Ramos e D. Jaime Câmara (+7ºC, às 9:00 h), como conseqüência de uma "ilha de calor" remanescente na madrugada e deslocada pelo vento sul. Ás 9:00 h, as temperaturas registradas ao nível da rua, 11,6ºC e 13,2ºC, foram inferiores àquelas observadas nos altos da Catedral e Ceisa Center, 13,6§ C e 12,0ºC, respectivamente. A temperatura mais baixa registrada ao nível da rua junto à Catedral em comparação com aquela registrada no mesmo nível no Ceisa Center, de acordo com SEZERINO & MONTEIRO (1990: 35, 47, 53) demonstram o "possível papel auxiliar do amplo jardim arborizado na Praça XV, como elemento atenuador do armazenamento de calor pelos edifícios."

Na conclusão da investigação não foi possível delimitar um traçado nítido de uma "ilha de calor", porém foram encontrados indícios de sua formação ou de uma tendência à mesma. A indefinição da "ilha de calor " foi atribuída primeiro, à morfologia urbana cuja edificação não se encontrava muito compacta, com edifícios altos formando conjuntos de diferentes graus de adensamento entre áreas de edificação baixa e notáveis manchas de áreas verdes, na época (1987). Segundo, ao fato das funções centrais terem se espalhado para as terras do continente e leste do Morro da Cruz e por último à configuração física da península insular, cercada pelas águas do estreito, baía norte e baía sul. (SEZERINO ; MONTEIRO, 1990: 56-57)

Essa indefinição no entanto não descaracteriza o clima urbano, pois segundo os autores o fenômeno "ilhas de calor" apesar de ser um efeito urbano "universal", nem sempre se manifesta de maneira acentuada, nem implica em "uma" ilha configurada nas cidades, podendo por outro lado se apresentar como um "arquipélago". (SEZERINO ; MONTEIRO, 1990: 57- 59)

Outro sintoma característico de clima urbano foi manifestado pela influência exercida pela morfologia urbana no elemento vento. Este chegou a apresentar, no centro da cidade uma inversão de direção (NE-NW), quando os ventos predominantes, registrados na estação meteorológica regional, sopravam do quadrante sul (S-SE). De acordo com os autores, acima citados, essa deformação só poderia estar associada à influência da edificação na torção dos ventos em função de sua canalização interna. A mesma influência, possivelmente combinada com aquela da topografia explicaria as menores intensidades registradas nas áreas centrais (SEZERINO ; MONTEIRO, 1990: 36)

M. A. MONTEIRO realizou no mês de abril de 1991, análise exploratória do comportamento das variáveis climáticas na região sudeste do Morro da Cruz, abrangendo os bairros José Mendes, Saco dos Limões, Pantanal, Costeira do Pirajubaé e Aeroporto (MONTEIRO,1992).

Com base na mesma metodologia utilizada por M. L. SEZERINO e C. A. de F. MONTEIRO (1990: 20-60), procedeu aos registros meteorológicos e para análise referenciou-se à estação meteorológica de Proteção ao Vôo de Florianópolis, da rede meteorológica do Ministério da Aeronáutica, localizada nas proximidades do Aeroporto Hercílio Luz.

Durante os quatro dias de observação, foram registradas, nos horários sinóticos (9:00, 15:00 e 21:00 h), diferenças de temperatura superiores a 1§ C em relação à estação referência . As maiores diferenças no elemento temperatura foram registradas persistentemente nos pontos localizados na Caeira do Saco dos Limões e no entroncamento da Costeira do Pirajubaé, efeito, em parte, do adensamento de edificações e circulação de veículos automotores, atributos do ambiente urbano. Na Caeira do Saco dos Limões a maior diferença registrada foi de +4ºC, às 9:00 do dia 14/04. No entroncamento da Costeira a maior diferença, +3ºC, foi registrada às 9:00 h do dia 11/04 e às 15:00 h do dia 12/04.

No Bairro José Mendes e nos entroncamentos do Saco dos Limões e Costeira do Pirajubaé, foram registrados os maiores acúmulos de poluição por material particulado e óxido de enxofre (SO2). Tal situação observada foi atribuída, principalmente, a pouca vegetação e constante fluxo de veículos automotores nesses locais (MONTEIRO, 1992: 61)

Entretanto os fatores estáticos e dinâmicos também desfavorecem a urbanização nesta região. Sua orientação e posição entre o mar e os morro a protege dos ventos do quadrante Norte, direção predominante, recebendo no inverno, devido à declividade das vertentes orientadas para S-SW, menos de 60% da insolação recebida por superfícies horizontais e menos de 35% daquela recebida por vertentes voltadas para o Norte, na mesma época.

O adensamento e verticalização nessa área tendem a dificultar a ventilação pelos ventos do quadrante sul, menos freqüentes, e pela brisa marinha, definindo os contornos da "ilha de calor" já esboçada.

Na região na qual está inserida a Ilha, os fatores dinâmicos concorrem com a urbanização para a tendência à concentração de poluentes nas proximidades da superfície. As massas de ar Tropical Atlântica e Polar, principais controladoras do clima regional, estão associadas a centros de alta pressão e são causadoras de períodos de inversões térmicas, ou seja, aumento da temperatura com a altitude. Normalmente a temperatura diminui com a altitude, já que a fonte de aquecimento da camada mais baixa da atmosfera, a troposfera, é a superfície terrestre (MONTEIRO, 1992: 27).

Quando ocorre inversão térmica o ar frio fica retido junto à superfície pela camada de ar quente acima, o que dificulta o movimento ascendente e conseqüentemente a dispersão dos poluentes gerados pelas atividades urbanas (parques industriais e circulação de veículos automotores). Quando o ar sobe ele se expande e os poluentes são espalhados por grandes extensões. Já em períodos de inversão térmica, o ar permanece comprimido ao nível do solo e os poluentes retidos e concentrados na camada em que respiramos.

Em Florianópolis esse fenômeno, é mais intenso e freqüente no inverno, permanecendo em média por 72 horas (MONTEIRO, 1992: 67). Atualmente, quando ocorre inversão térmica, tem-se tempo bom e céu claro precedido de nevoeiro baixo, ao amanhecer, no inverno. Nos períodos mais prolongados de seca, percebe-se durante o dia uma névoa seca, sem grande redução de visibilidade e, ao entardecer o céu apresenta coloração avermelhada devido à difusão da radiação visível sobre as partículas em suspensão.

Ainda que não exista indústrias poluidoras na Ilha, a poluição do ar, embora não quantificada, está presente em função da significativa circulação de veículos automotores, como demonstrada no experimento qualitativo realizado na vertente Sudoeste da parte central da Ilha (Monteiro,1992: 61-65). Aumentando a concentração urbana e a circulação de veículos individuais, correremos o risco da ocorrência de "smog" uma mistura de fumaça e nevoeiro que ocorre em dias sem vento e frios, após a passagem das frentes frias, quando a inversão térmica causa elevada concentração de poluição atmosférica. A ocorrência desse fenômeno é prejudicial à saúde humana, principalmente às crianças, idosos e portadores de doenças respiratórias.

Esse fenômeno ocorre em São Paulo, em grau acentuado devido à industrialização e pela persistência da alta pressão que pode permanecer durante uma semana sobre a região (MONTEIRO, 1992: 68). Em dias de risco é necessária a proibição de tráfego de automóveis no centro da cidade, sendo que nesse ano de 1995 foi estabelecido um sistema de rodízio de circulação de automóveis, baseado nos dígitos finais da placa de identificação do veículo. Em Londres, em dezembro (inverno) de 1952, na ocorrência do fenômeno "smog", o índice de mortalidade por doenças respiratórias aumentou em nível alarmante.

O modelo de crescimento urbano atualmente vigente na Ilha de Santa Catarina privilegia o adensamento e verticalização das construções e o transporte individual, o que levará ao aumento da impermeabilização do solo. O incentivo ao aumento da população e circulação de automóveis vai aumentar a produção artificial de calor e de emissões de partículas de poeira, fumaça e gás carbônico (CO2) no ar. A concentração de edificações e circulação poderá tornar mais nítida a "ilha de calor" já esboçada na área central. O aumento de material particulado no ar poderá aumentar a ocorrência de nevoeiros e chuvas, e a impermeabilização dos solos o risco de enchentes.

O centro urbano já enfrenta problemas com chuvas concentradas em curtos períodos. Nas baixadas, como na Beira Mar Norte e no Campus Universitário da Trindade, já ocorrem inundações e a tendência é o aumento de ocorrências. Noutras áreas ainda não atingidas, com o aumento da impermeabilização do solo, o risco de ocorrer enchentes aumentará.

O incremento da ocupação e valorização de certas áreas, têm empurrado a população de baixa renda para as partes mais altas, íngremes e perigosas dos morros, aumentando o risco de deslizamentos.

Além do mais, loteamentos são aprovados em áreas impróprias à ocupação, pelo próprio poder público. Os deslizamentos, na maioria das vezes, atingem a população carente dos altos dos morros, mas também podem atingir população que vive no sopé destes, dependendo apenas de sua magnitude.

O Poder Público precisa atualmente administrar a ocupação da cidade e não induzir um novo surto de crescimento que virá em detrimento da qualidade de vida e do conforto ambiental de moradores e visitantes da Ilha.

Florianópolis é uma cidade litorânea que tem sido afastada do contato com o mar através de aterros e paredões.

As massas aquáticas são úteis e benéficas tanto do ponto de vista climático como psicológico (WMO, s/d: 8). As águas são reguladoras térmicas, pois se aquecem e se resfriam lentamente, diminuindo as variações entre as temperaturas máximas e mínimas. Além disso, proporcionam serenidade para quem as aprecia, principalmente águas calmas como as das baías.

A ocupação de alta densidade de espigões (edifícios de 12 ou mais andares), formando verdadeiros "paredões", modelo de ocupação atualmente implementado na orla marítima da ilha, a exemplo da Beira Mar Norte, poderá causar dificuldade de ventilação e insolação das áreas interiores engendrando novas "ilhas de calor" ou "de frio" pelo sombreamento.

Outra conseqüência do atual modelo de crescimento é a redução de áreas verdes, imprescindíveis à melhoria da qualidade de vida nos centros urbanos. Atualmente, de acordo com a Assessoria de Meio Ambiente e Secretaria Municipal de Educação , há cerca de 3 m2 de áreas verdes por habitante em Florianópolis, quando a Organização Mundial de Saúde recomenda 12 m2. A ampliação de áreas de cobertura vegetal entre os espaços edificados é fundamental, pois as árvores refrescam o ar, devido à transpiração, filtram alguns tipos de contaminação atmosférica e em forma de barreiras podem evitar a contaminação acústica causada pelas vias urbanas de circulação (WMO, s/d: 8).

É necessário que se proteja as áreas verdes ainda existentes na cidade, delimitando-as como tal, impedindo usos como a construção de vias ou qualquer outro tipo de ocupação que não sejam para o lazer público. Defender a manutenção e criação de praças arborizadas e de reservas florestais urbanas, como a mata do Hospital de Caridade, é imprescindível para o bem estar dos habitantes da cidade, é um ato cidadão em defesa da qualidade de vida.

 



Aspectos do Clima Regional e Urbano da Ilha de Santa Catarina

Capítulo 2 do livro editado pelo CECCA/FNMA, Uma Cidade numa Ilha (2. edição). 

Texto elaborado com o apoio de Magaly Mendonça (Geografia/UFSC). Florianópolis: Ed. Insular, 1997.