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Chegaram, olharam, gostaram e... ficaram.


Tem-se que a denominação Santa Catarina (que posteriormente abrangeu o Estado) foi dada a ilha por Sebastian Caboto, provavelmente em homenagem à sua mulher, Catarina de Medrano. Todavia como o espírito religioso fosse sempre muito forte entre a população ilhéu, com o passar do tempo tal homenagem foi transferida integralmente à padroeira do Estado, Santa Catarina de Alexandria, mártir do Cristianismo.

  

   

 


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Os Carijó

 

Os primeiros habitantes da região de Florianópolis foram os índios tupis-guaranis. Praticavam a agricultura, mas tinham na pesca e coleta de moluscos as atividades básicas para sua subsistência.

Os indícios de sua presença encontram-se nos sambaquis e sítios arqueológicos cujos registros mais antigos datam de 4.800 A.C.

Os Carijó, eram uma tribo da nação indígena Tupi-guarani que vivia no sul do Brasil na época do descobrimento. Meiembipe, era como chamavam a Ilha de Santa Catarina. 

Tinham pele clara, característica incomum da maioria dos indígenas. Eram milhares e viviam em pequenas aldeias com cabanas de pau-a-pique. Não passavam fome, pois a floresta, que era densa, lhes fornecia o sustento pelas frutas, caça e pesca em abundância. Além disso, utilizavam técnicas primitivas no plantio de milho e mandioca, sempre próximas de suas aldeias. Viviam em equilíbrio com a natureza. 

Eram hábeis artesãos, confeccionavam redes, cestos, peças talhadas na madeira, canoas e pirogas, utensílios de cerâmica lisos e decorados. Técnicas adquiridas e transmitidas de gerações, principalmente entre as mulheres que desde cedo na aldeia aprendiam com os mas velhas, que tinham a obrigação de ensinar, a repassarem às crianças, que tinham obrigação de aprender. 

O artesanato Carijó era muito diversificado. Seus traçados variavam das redes, esteiras e cestos às armadilhas de caça, como o mundéu e a arapuca, e de pesca, como o covo e o jiqui. Seus trabalhos em pedra polida e madeira abarcavam várias armas para a caça e a guerra, além de inúmeros artefatos, com destaque para a sua maior peça artesanal, a canoa escavada em tronco de garapuvu.

Além desta canoa, confeccionavam também uma embarcação leve, a partir de cascas de árvore amarradas com fibras vegetais, vedadas e impermeabilizadas com ceras e resinas. Sua cerâmica, caracterizada por peças de grandes dimensões, com fins utilitários e decorativos, expressava um apurado senso artístico. Ainda fabricavam bebidas alcoólicas e farinhas , à base do milho e da mandioca.

Viveram em harmonia até a chegada dos primeiros europeus. Conviveram bem com os navegantes estrangeiros que aportavam, somente para reparar e buscar suprimentos. Viveram na ilha por mais de trezentos anos. Mais tarde, com o tráfico de escravos foram gradativamente exterminados, até que no final do séc. XVIII não havia mais sinal qualquer desta grande comunidade indígena.

 


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Náufragos e Degradados

 

Eram marinheiros ou prisioneiros que eram lançados a sorte das ondas ou mesmo que fugiam quando as embarcações que por aqui passavam abasteciam-se de água potável e alimentos. A partir das primeiras incursões na Ilha, já encontravam-se alguns homens pardos ou negros fixados à terra.

É impossível dizer hoje quem foram, realmente, os primeiros habitantes de origem européia da Ilha de Santa Catarina, em virtude da ausência de registros da ­época. Sabe-se, no entanto, que, e 1520, 11 náufragos da expedição de Juan Dias de Solis sobreviveram ao desastre com o navio onde estavam, e nadaram até uma praia, localizada entre Garopaba e a Ilha. Esses náufragos deram início a um pequeno povoa­mento, circulando pela região. Navegadores que aqui passaram nesse espaço de tempo narram o auxílio recebido desses homens, que informavam sobre as condições do mar e da costa. Essa população, contudo, além de pequena era instável. Muitas vezes os habitantes embarcavam e seguiam viagem com os navios que passavam pela região.

Em 1549 o viajante Hans Staden menciona ter encontrado "apenas um espanhol", no local do atual Estreito, convivendo com os índios, e coordenando o trabalho desses no atendimento aos navios em trânsito. A informação confirma a tese de que os indígenas da região eram pacíficos e sociáveis. Alguns historiadores afirmam, inclusive, que os índios Carijó mantinham um pequeno comércio marítimo com os habitantes de Santos, cujas embarcações lhes traziam ferramentas e instrumentos de pesca e lavoura, que trocavam por algodão, entre outros produtos.

 


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Jesuítas e Missionários

 

De 1622 a 1628, os jesuítas promoveram a - provavelmente - mais longa missão que mantiveram no Sul, cujo resultado foi a "conversão" de 450 índios Carijó levados para o Rio de Janeiro. Revoltados com a concorrência, cerca de 50 bandeirantes entraram em conflito com os padres, obrigando os missionários a antecipar sua saída do litoral catarinense. 

Os padres também têm responsabilidades sobre a morte de quantidades enormes de índios, vitimados por doenças européias, contra as quais desconheciam terapias e não dispunham de defesa imunológica. Ignorando o malefício que cometiam, concentravam em seus aldeamentos missionários os indígenas, que morriam como moscas, atingidos pela varíola e, sobretudo, tuberculose, já que era praxe enviar sacerdotes contaminados com o "mau do peito" para a colônia, cujo clima tropical era considerado salutar.

Dez anos depois também se registra outro fracassado projeto de ocupação. Sem o apoio da Ordem dos Jesuítas para que lhe ajude a capturar índios para a escravidão, Antônio Amaro Leitão e o grupo de paulistas que lidera abandonam o local.

Em 1651, foi construído um cruzeiro na Ilha de Santa Catarina, na clareira onde, 22 anos mais tarde, Dias Velho Ilha erguer a capelinha de Nossa Senhora do Desterro, mesmo local de sua morte por corsários em 1687.

 


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Os Vicentistas

 

As Bandeiras

 

Portugal estimula a ação das bandeiras vicentistas. De olho na prata das minas do Peru, estende o meridiano de Tordesilhas até a boca do rio da Prata, onde prospera intenso contrabando. Seu objetivo é estabelecer ali um ponto de apoio (o  que dará origem, mais a frente, a Colônia do Sacramento). Para a concretização do plano, são criados os povoados de São Francisco do Sul, Desterro, Laguna e São Pedro do Rio Grande. E na esteira deles, bandeirantes, está Francisco Dias Velho - predador de índios, político e negociante de sal e farinha.

 

Fundação de Nossa Senhora do Desterro

 

Foi com o paulista Francisco Dias Velho, em 1673, que aconteceu o povoamento oficial da Ilha de Santa Catarina e da parte continental próxima. Embora a região já fosse habitada por índios e alguns náufragos, estes iam e vinham pela costa, sem estabelecer povoados fixos. Com Dias Velho e as pessoas que o acompanham na empreitada de criar uma empresa agrícola, surge o que mais tarde viria a ser Florianópolis, e que, naquela época, era chamada tão somente de Ilha de Santa Catarina.

Nesse primeiro momento existiam apenas casas rústicas e roçados, tanto na ilha quanto no continente fronteiriço. Pelo que está escrito num relato de Manuel Gonçalves de Aguiar, que esteve na região - antes e depois de Dias Velho os homens do bandeirante paulista escolheram inicialmente o continente, nas proximidades do que hoje é o bairro do Estreito, para estabelecer o povoado. Como eles vieram por terra de São Paulo para o Sul, este era o local lógico para ficar.

Logo, porém, tiveram de atravessar a baia em direção à ilha. Índios bravios, atraídos pelas plantações dos desbrava­dores, começaram a roubar alimentos. O confronto foi inevitável, e nele com certeza morreram integrantes de ambos os grupos. Como eram então os índios uma população bem maior que a dos brancos, negros e índios domesticados, estes últimos bateram em retirada. Não pode ser descartada ainda a possibilidade de que Dias Velho e seus homens fizessem incursões para a captura de índios, com o objetivo de utilizá-los como mão-de-obra escrava.

Pelos documentos encontrados e preservados até hoje, sabe-se que - já na ilha - os colonizadores plantavam mandioca, milho, feijão, cana-de-açúcar e fumo. Também pescavam em pequenas canoas.

Manuel Gonçalves de Aguiar informa, ainda, que a criação de gado logo se fez presente: "O gado teve princípio na ilha pelo levar a ela, da Vila de Curitiba, um morador desta mesma ilha. Passou-o em balsas pela costa do mar."  

Com o avanço do tempo e o progresso da empresa agrícola de Dias Velho, também o povoado cresceu, ganhando logo uma capela, construída a mando do paulista, em homenagem á Nossa Senhora do Desterro. As casas, contudo, continuavam simples e desprovidas de qual­quer conforto. O desenvolvimento do povoado era lento, mas constante. O ataque pirata de 1687, como assassinato de Dias Velho, interrompe essa fase, provocando a fuga dos sobreviventes. Era o declínio dessa etapa de povoamento, só retomado anos mais tarde.

 


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Açorianos e Madeirenses

 

Em 06 de janeiro de 1748, desembarcaram na Ilha de Santa Catarina 461 pessoas , formando 88 “cazaes” vindos do Arquipélago dos Açores. Foram os primeiros dos cerca de 6.000 açorianos e madeirenses que emigraram para o Desterro, entre esta data e 1756.

A colonização açoriana visou dois objetivos distintos: de um lado, resolver o problema de parte da população das ilhas, que formava uma verdadeira massa de miseráveis, desprovida de terras para cultivo e sem emprego; de outro lado, atender às necessidades políticas do Reino, de ocupação das terras do Sul do Brasil, disputadas com a Espanha.Este segundo objetivo parece ter sido o mais importante: enquanto realizava sua obra na Ilha, construindo fortes e criando a estrutura da Capitania, Silva Paes chamava a atenção das autoridades portuguesas, insistentemente, para a necessidade do seu povoamento, sem o qual não adiantaria a fortificação.

Entretanto, o outro também foi significativo – cabe destacar que muitos dos futuros colonos foram embarcados compulsoriamente, principalmente aqueles que se constituíram no “peso morto” das ilhas -velhos, doentes, inválidos. O governo português determinou que a cada “cazal” fosse distribuído um lote de um quarto de légua (1650 metros) em quadro, duas vacas e uma égua, além de sementes e ferramentas. Coube ao Governador da Capitania, Manuel Escudeiro Ferreira de Souza, a tarefa de distribuir os novos povoadores pela Ilha e pelo continente fronteiro. Escudeiro fez doações de terras em pontos já conhecidos e onde já havia alguns moradores, bem como povoações novas.

Na ilha, os colonos foram encaminhados para Trindade, Ribeirão, Lagoa, Ratones, Santo Antonio, Canasvieiras, Rio Vermelho e Rio Tavares. A adaptação dos açorianos foi lenta e difícil. Sua tradicional cultura do trigo não se adequou ao clima da região, além do que as características físico-químicas do solo ilhéu, de baixos teores de fósforo, potássio e matéria orgânica, se traduzem em baixa fertilidade, não propiciando as culturas anuais. Poucos também receberam as vacas e éguas prometidas. Além disso, os braços mais fortes eram chamados ao treinamento militar – em 1754 existiam 18 “companhias de paisanos”, somando 1300 homens. Como resultado de tudo isto, as terras eram abandonadas e o trabalho agrícola substituído por ofícios urbanos diversos e pela pesca. Os que ficaram na terra acabaram por ter no cultivo da mandioca, desconhecida nos Açores, a atividade básica, e no preparo da farinha, a principal fonte de renda.

A imigração açoriana coincide com o desenvolvimento das armações de baleia. Com isso, boa parte dos “colonos” acabaram se empregando na atividade pesqueira e na construção naval. Formando a grande maioria da população da Ilha, os açorianos participaram de modo decisivo na elaboração da cultura local. As técnicas de pesca, o carro-de-boi, a olaria de cerâmica utilitária e decorativa, a renda-de-bilro, o “boi-na-vara” e a “farra-do-boi”, as festividades do Divino, o “pão-por-Deus”, os fandangos, etc., são herança dos filhos do Arquipélago, que ainda nos legaram uma literatura oral e uma mitologia riquíssimas, forneceram o substrato lingüístico local e desenvolveram aqui o engenho de farinha, a partir da combinação do moinho de vento com a atafona.

 


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Negros Africanos

 

Durante os primeiros cinqüenta anos da colonização da Ilha de Santa Catarina o aproveitamento do negro como mão-de-obra foi muito reduzido. A atividade econômica da Ilha durante esse período praticamente restringiu-se aos quadros de uma economia de subsistência. Segundo informações dos viajantes, a troca eventual assumia a forma de escambo (troca de produtos naturais ou de valores permutáveis), o que revela que a economia da Ilha era, pelo menos em parte, uma economia natural.

Sem dúvida, mesmo nos primórdios da ocupação do solo houve a exploração do trabalho escravo. Já com a bandeira de Dias Velho chegaram escravos à Ilha. Paulo José Miguel de Brito, descrevendo-a afirma que o povoador levara consigo "seus dois filhos José Pires Monteiro, duas filhas, cujos nomes se ignoram, e quinhentos índios domesticados, e além disso dois frades e um homem casado por nome José Tinoco, sua mulher Ignacia da Costa, e um filho pequeno chamado José, e duas filhas, uma Ignez da Costa, outra Domingas da Costa". Esse texto demonstra não só que desde os primeiros povoadores houve trabalho escravo em Santa Catarina, como que os primeiros escravos foram indígenas.

É importante chamar a atenção para a composição racial dessa bandeira porque não deveria diferir muito das demais que se deslocaram no século XVII para a costa catarinense, nem dos grupos de povoadores que foram ter posteriormente à Ilha. O índio foi o elemento humano com que o bandeirante contou no seu deslocamento para o sul.

Para compreender isto é preciso lembrar que "mesmo no começo do século XVIII, o índio ainda era o principal agente do trabalho escravo" em São Paulo, onde a população negra manteve-se reduzida até os fins do século XVII, bem como que o padrão de composição étnica das bandeiras de apresamento e de descoberta de metais pendia decisivamente para uma participação maior do escravo indígena. O escravo negro só se tornou agente regular de trabalho das minas. Ora, os bandeirantes vicentistas, e mais do que eles os grupos de paulistas que os sucederam, foram homens que se deslocaram para o sul porque, como já dissemos, não puderam competir vantajosamente com as "emboabas" na exploração mineradora, pela impossibilidade de dispôr de recursos suficientes para adquirir escravos negros na quantidade necessária àquela exploração. Compreende-se portanto a razão pela qual as bandeiras que foram para a costa catarinense levaram um contingente tão numeroso de escravos indígenas.

Isso não exclui, evidentemente, a ida de alguns negros com os paulistas para Santa Catarina naquela época. O próprio Dias Velho deixou na sua herança 25 escravos pretos, segundo se infere do inventário do povoador iniciado em São Paulo a 2-11-1689. Embora não haja referências precisas à localização destes escravos, é provável que ao menos parte deles tenha ficado em Santa Catarina, mesmo depois da morte desastrada de Dias Velho.

Os dados disponíveis sobre a Ilha no século XVII e nos começos do século XVIII são escassos e inseguros. Um ou outro viajante, alguma correspondência oficial e pouca coisa mais são dos documentos nos quais temos que nos firmar para tentar reconstruir a atividade e o desenvolvimento econômico da Ilha. Mas, não pode restar dúvidas quanto à participação do negro, se bem que reduzida, na vida de Santa Catarina desde o início da colonização. Nem teria sido possível, não fosse assim, que Frézier, relatando sua estada na Ilha em 1712 escrevesse: "Les Habitants Qui les occupent sont les Portugais, une partie d'Europeens fugitifs, et quelques Noirs; on y voit aussi des Indiens Qui et jettent volontairement parmi eux pour servir, ou qu'ils prennent en guerre". Mas, esse mesmo texto revela a importância do indígena no povoamento. Aliás, pelas indicações que a documentação disponível fornece, vê-se que até 1730 o desenvolvimento econômico da Ilha foi muito reduzido, não cabendo ao indígena um papel definido na estrutura de trabalho dos grupos que a habitavam.

É provável que a escravaria indígena, no início do povoamento, tenha desempenhado um papel importante no desbravamento da Ilha e sobretudo na sua defesa. Mas, pouco se pode adiantar quanto ao seu aproveitamento nas atividades de produção.

Essa restringia-se ao consumo e à troca eventual com um ou outro viajante. Frézier relata que na sua passagem por Santa Catarina o que mais interessou aos habitantes da Ilha foi a aguardente e retalhos de fazenda para se vestirem. Em contrapartida os ilhéus forneceram frutas, galinhas e fumo aos franceses, além da lenha para o navio e água. Carne de vaca, se vinda de Laguna, especialmente para os viajantes. Esse relato evidencia que, de fato, a economia da Ilha era uma economia natural. Além disso, a descrição que Frézier faz do regime alimentar da população mostra que mesmo a coleta possuía grande importância nos hábitos e padrões de consumo.

Anteriormente à época em que Frézier esteve na Ilha, houve maior atividade econômica e então teria sido possível a utilização da mão-de-obra escrava. Pedro Taques afirma que Dias Velho, ao pedir a concessão de uma sesmaria que abrangia parte da Ilha, alegava possuir aí "fazenda de cultura" .

Depois da tragédia ocorrida com Dias Velho, entretanto, "o povoamento processava-se lenta e intermitentemente, e, só de longe em longe, buscavam pequenos grupos instalar-se nela (na Ilha) ou nas suas proximidades". Durante esse período, tudo indica que, se o papel do escravo indígena na atividade produtiva, por causa das próprias condições da produção econômica, deveria ser pequeno, o do negro provavelmente terá sido ainda menor.

O crescimento demográfico da Ilha nesse período, deveu-se a "sucessivos e logo interrompidos estabelecimentos (que se) bem que precários, sempre deixavam resíduos de povoação; a qual no decurso do tempo crescendo naquele mesmo sítio, em que se fixaram seus primitivos habitantes, mereceu ser em 1726 criada Vila, com a denominação de Desterro, em razão de ser a Matriz dedicada à Senhora do Desterro".

Em torno dessa mesma Matriz, Manuel Gonçalves de Aguiar encontrou em 1711 agrupados os poucos habitantes da Ilha, avaliados em número de mais ou menos 20.

Frézier, em 1712 apontava já 147 brancos, além dos negros libertos e escravos indígenas. Em 1719 Jorge Shelvocke passou pela Ilha e no relato de viagem que deixou há dados que indicam ter havido uma formação na sua atividade econômica. O navegador, durante o tempo que permaneceu em Santa Catarina, além de ter utilizado os víveres fornecidos pela população, adquiriu nada menos de 150 alqueires de farinha de pão, 160 alqueires de favas e fumo "em abundância", pagando suas comprar não só em espécie (sal), como em dinheiro. Esses dados sugerem que, como acontecia em outras regiões da Colônia, as transações com os navios chegavam a assumir certa importância. Serviam como meio de abastecimento de utilidades desejadas ou escassas e, por fim, favoreciam a lenta formação de uma economia monetária. Indiretamente, e é o que nos interessa de perto, demonstram que as atividades agrícolas podiam ser intensificadas quando se apresentava a ocasião, a ponto de atender alterações consideráveis do ritmo tradicional de consumo. A população, um ano depois, era estimada pelo ouvidor Raphael Pires Pardinho, que lá estivera em correição, em 27 casais, com 130 pessoas de confissão.

Além do relato de Frézier e dos dados fornecidos por Jacintho Mattos nada há para comprovar diretamente a participação do negro nesta fase do povoamento da ilha. Porém é de crer-se que, embora reduzida, tivesse sido constante. Os dados de que dispomos relativos ao Continente evidenciam que nas expedições de conquista e penetração o negro esteve presente. Brito Peixoto levou-os para Laguna desde a época da fundação. Em 1725 na Frota de João Magalhães, "os trinta comandados eram principalmente os seus próprios escravos e os de seu sogro e a maioria homens pardos".

Entretanto, dadas as condições econômicas da Ilha e de seus habitantes, durante todo esse período a presença do negro foi ocasional, pois nenhuma atividade regular exigia o aproveitamento da mão-de-obra escrava.

 


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Cronologia da Colonização

 

 

1650

A ilha ainda está por colonizar, apesar de já se achar o Brasil dividido em Capitanias, e desde 21 de janeiro de 1535 estar de posse de suas terras e do continente - 70 léguas no litoral, desde Cananéia a Laguna - a Pero Lopes de Sousa, irmão de Martim Afonso, nomeado pelo governo português, em 1530, comandante geral de terra e mar.

 

1666

O Capitão-Mor de Paranaguá, Gabriel de Lara, procurador do Marquês de Cascaes - então donatário das terras de Pero Lopes de Sousa por herança de família - concede ao paulista Antônio Afonso e seus companheiros virem estabelecer-se com as famílias em Santa Catarina e seu continente, dentro de quarenta léguas ao Sul até a Lagoa de Ibiraquera. Cada colono recebe uma carta de sesmaria de meia légua.

No mesmo ano o Capitão-Mor da pinça de Santos, Agostinho de Figueiredo, por ordem do Marquês de Cascaes, dá carta de sesmaria para a Ilha e terra firme a Miguel Antunes Pronto e treze camaradas. Depois deste apareceram outros, com idênticas concessões, por mandado de Gabriel de Lara e seu substituto, Domingos Francisco. 

 

1673

O paulista Francisco Dias Velho, um proprietário de terras em Santos, aporta na ilha com a mulher, três filhas e dois filhos moços, João e Salvador Pires, além de centenas de índios domesticados. Acompanham-no tam­bem dois padres da Companhia de Jesus, e um agregado de nome José Tinoco. Este também trouxe a família, composta por um filho e duas filhas. Todos participarão da empresa agrícola que Dias Velho fará prosperar na ilha. 

 

1675

Dias Velho retorna à ilha, depois de breve ausência Inicia então a construção de uma igreja de pedra e cal, em homenagem a Nossa Senhora do Desterro. 

 

1678

O bandeirante paulista pode oficialmente, em Santos, a posse legal das terras. Retorna a ilha - onde ficaria em definitivo - em março de 1679. 

 

1679

Deste ano até 1680, Dias velho experimenta o crescimento de sua empresa agrícola, servindo a ilha como entreposto para a tentativa de instalação da Colônia de Sacramento, ao Sul. 

 

1680

Em depoimento aos espanhóis, em Buenos Aires, o índio prisioneiro Jerônimo Camargo declara, aos 27 dias de maio: "Não sabe de nenhuma povoação além daquelas que estão na Ilha de Santa Catarina, e que nela está um homem rico, com sua família, chamado Francisco Dias Velho. Este homem possui até 200 índios da nação tupi, escravos. Na ilha estão ainda 25 portugueses e espanhóis". 

 

1681

Uma colheita ruim decepciona Dias Velho, mas ele não desiste de colonizar a região. 

 

1687

Dias Velho é trucidado por corsários estrangeiros que invadem a ilha, sem conseguir evitar violências contra sua mulher e filhas. A igreja construída por ele serve como última trincheira contra o avanço inimigo. 

 

1709

Decisão tomada pelo alvará de 22 de outubro devolve as terras à administração pública, depois que o último herdeiro de Pero Lopes de Sousa as vende. Com isso o governador de São Paulo podia concedê-las em colonização sesmarias, e com essas concessões desenvolver uma política mais dinâmica de povoamento. 

 

1711

Gonçalves de Aguiar visita as fundações e terras meridionais da Colônia, encontrando, onde hoje é Florianópolis, apenas alguns ranchos á beira da praia. Os ranchos são de pau-a-pique, com telhados de palha Neles vivem uns poucos pescadores e canoeiros, dividindo espaço com canoas e redes. 

 

1714

Frézier, segundo narra Afonso de Taunay, cartografa trechos da costa fronteira à ilha e dela própria Mas n&o faz maiores referências a povoados, descrevendo a Ilha como coberta de densa floresta, onde se abriam alguns claros apenas. Habitam-na 147 pessoas brancas, alguns negros e indígenas. E nisso se resume toda a população da Ilha. Mesmo assim o povoado já é uma freguesia, como se percebe através do termo de casamento exarado em 7 de janeiro. 

 

1722

Manuel Manso de Avelar afirma que, como Laguna, situada mais ao Sul, a ilha “não passa de uma mera povoação pobre e limitada e, para melhor dizer, é uma pescaria”. 

 

1725

O governador de São Paulo recomenda a Manuel Manso de Avelar, que exercia o posto de Capitão de Ordenanças, dispor que as casas dos moradores fossem cobertas de telhas, para abrigar casais açorianos que viriam povoar as terras de Santa Catarina Alguns anos mais tarde a população aumentou, com um pequeno contingente de elementos militares, designados para guarnecê-la, e que para ela se transportaram com suas famílias. 

 

1726

A freguesia toma-se Vila, presumivelmente no dia 23 de março, como nome de Nossa Senhora do Desterro. A área da comuna se dilata ao continente, alcançando a Ponta do Ouvidor - ao Sul de Garopaba - até o Rio de Camboriú, ao Norte, além de subir o Planalto até Bom Retiro, inclusive. 

 

1736

O cronista da expedição de Bougainville, Dom Pernetty, conta na vila 150 casas, “quase todas térreas”. 

 

1737

Em 11 de agosto D. João V eleva ao status de governo a ilha e o continente - apenas na faixa litorânea -, nominando-a como Capitania de Santa Catarina. São contadas na vila 200 casas, sendo apenas duas "de sobrado". 

 

1739

Em 7 de março o brigadeiro José da Silva Paes chega do Rio de Janeiro, acompanhado de alguma tropa e dos empregados que farão parte das repartições civis que organizaria. Acontece então a verdadeira instalação do primeiro governo de Santa Catarina. É neste dia também que a Vila de Desterro se transforma em Capital e Silva Paes, o primeiro governador, pede ao Rei o envio de quatro mil famílias açorianas e madeirenses para colonizar a ilha e o continente.   

 

1748

A Coroa resolve povoar o Sul brasileiro com pessoas retiradas do arquipélago de Açores e da Ilha da Madeira, fazendo transportar, deste ano até 1756, aos poucos, milhares de indivíduos, localizando-os inicialmente na Ilha de Santa Catarina. Neste ano chegam as primeiras 461 pessoas. São, ao todo, quatro levas, que completam entre quatro e seis mil pessoas, segundo registros da época.

 

 



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A mão-de-obra Escrava no Povoamento da Ilha de Santa Catarina.

Fernando Henrique Cardoso. In Cor e Mobilidade Social em Florianópolis, 

São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1960.