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A
sua contribuição é sua obra.
No
decorrer de sua vida, Franklin Cascaes (1908-1985) expressou em
forma de arte os estudos que realizou sobre a cultura açoriana na Ilha
de Santa Catarina, seus aspetos folclóricos, culturais, suas lendas e
superstições como se fora um ritual abstrato que atingisse a estrutura
vital do mito. E fê-lo soberbamente, já que da pesca da tainha à cerâmica,
dos cantos aos engenhos de farinha e açúcar, aprofundou, sobretudo o
estudo que trata das lendas através de um desenho fantástico, cujo
sentido mítico dimensiona uma criatividade genuína e profunda.

Nesta
seção destaquei alguns contos de Cascaes.
..
Vassoura
Bruxólica

"E',
neste mundo de Deus, há muitos mistérios e esta gente simples aqui da
Ilha vive estas coisas quase como uma realidade. Meus lobisomens,
bruxas, demônios e boitatás existem".
Sempre
foi crença do povo hospitaleiro desta Ilha dos famosos bois-de-mamão
que, na Sexta-Feira-Santa, não se deve tomar instrumentos de trabalho
para usá-los, seja qual finalidade for. É também costume tradicional
deste povo, descendentes de colonos açorianos, que, na
Sexta-Feira-Santa, a partir de zero hora, devem banhar-se nas ondas do
mar, levando consigo animais domésticos, para purificarem-se e
protegerem-se de todos os males do corpo físico e espiritual.
As
águas colhidas nesta hora servem para todo o tipo de cura. É a fé,
longínqua dos tempos, aliada a superstição, ao medo e ao amor pela
conservação do corpo físico, na cura dos males que atacam o homem em
franca vivência espiritual e física com o seu Deus.
As
forças atuantes de práticas religiosas freiam os instintos animalescos
do homem, encaminhando-o, espiritualmente, para viver com bons modos
junto com o seu Deus, com a cultura na sociedade e conseqüentemente com
o seu próximo. Entrementes, sempre aparecem nos meandros desses cenários
fantásticos, e outros moderados, pessoas que se arrojam contra os
poderes divinos, maltratando esses conjuntos de sociedades freadoras, veículos
insubstituíveis de abrandamento de sofrimentos que martirizam e açoitam
a criatura humana.
Um caso de desrespeito espiritual aconteceu ha muitos anos
passados, lá pras bandas do sul da Ilha de Santa Catarina.
A
Maria Vivina, moradora da praia dos Naufragados, fez uma aposta com a
Carrica, de que, na Sexta-Feira-Santa daquele ano, ela tomaria uma
vassoura e com a mesma, varreria o quintal de sua casa e, certeza tinha,
nada lhe aconteceria de extraordinário. Apostaram um par de tamancos
contra uma botina. E firmaram a promessa da aposta, casando-a.
Quando
a Vivina deu a primeira varredela, a vassoura soltou-se de suas mãos
“quinem” um relâmpago, metamorfoseou-se em bruxa, ganhou altura
sobre o morro do Ribeirão da Ilha e desapareceu, num repente, no espaço
sideral das alturas incomensuráveis da quimera.
A
Maria Vivina caiu de joelhos no terreiro, rezou e pediu perdão aos ceus
pelo ato impensado que havia cometido contra as ordens divinas, chorando
copiosamente. A Carrica abraçou-se com ela e ambas choraram e sentiram
o amargo do néctar da desobediência humana.
Nenhuma
das duas era bruxa, porque a vassoura, que e um instrumento de montaria
de bruxas, foi embora, viajar pelo espaço sideral, sozinha.
Oh!
Minha querida Ilha de Santa Catarina de Alexandria, és a graciosa
sereia que repousa sobre brancas areias de cômodos errantes, sambaquis
seculares, banhada pelas ondas acasteladas do oceano, perfumada pela
brisa acariciante dos ventos e enxuta com as toalhas felpudas dos raios
solares que beijam calorosamente seu corpo mitológico.

....
As
Bruxas e o Noivo
Esta
história, que recriei, foi contada dentro de um rancho de canoas na
praia do Jurerê, pelo pescador Amaro, numa das vezes que eu estive
consertando malhas de redes de pescarias com eles.
Viveu naquelas redondezas, há muitos anos passados, um moço muito
feio, com o nome de Frumenço da Leocada. Era tão feio, mas tão[feio],
que custou para encontrar uma deusa que o aceitasse como esposo. Todas
as mulheres o rejeitavam e até fugiam de conversar com [ele] ou mesmo
até [de] olhá-lo. Ele sentia-se muito triste, pois nem o rapazes do
seu lugar o queriam como companheiro de passeio. Havia uns ditos a boca
pequena, de que ele era lobisome[m], e até boca[s] sujas diziam que
também ele era boitatá. Os donos de pescaria não o aceitavam para
trabalhar no puxamento de redes de arrastar, pescar com espinhéis ou
tarrafas porque viam na feiúra dele um mal de azar que podia atrapalhar
as suas profissões. Nem no trabalho roceiro o coitado era aceito.
A mãe dele vivia xingando toda gente que guardava tais preconceitos físicos
e qualidades maldosas sobrenaturais contra o filho.
Mas, como tudo [o] que nesta vida enfadonha tem o seu dia, ele também
foi aquinhoado com o seu.
A Leocada era mãe descolada e tinha um irmão que há muitos anos havia
ido embora pelos aí à procura de encontrar um meio de ganhar o pão de
cada dia, com menos penúria e mais farto, porque o que ganhava na pesca
nunca dava para cobrir as despesas necessárias para a alimentação da
família.
É verdade que a mulher ajudava muito, cuidando da roça de mandioca,
feijão, batata, aipim, milho e mais alguns outros serviços que
prestava aos vizinhos que moravam muito distante[s] da casa dele. Ela
sempre era chamada para raspar mandioca, peineirar massa de mandioca e
fornear. Forneava uma carrada de mandioca pra ganhar duzentos réis,
raspava uma carrada de mandioca e ganhava duzentos réis. É verdade que
sempre ganhava um pouco de farinha, beijus, lá uma vez por outra um
pedaço de carne de porco uma morcilha, um pouco de banha quando ajudava
a matar o porco e a desmanchá-lo.
Casado há dez anos e já com três filhos, porque a riqueza que Deus dá
aos pobres são os filhos, [seu marido] sempre pensou em colocar os
filhos na escola, mas não podia porque só em Sant'Antonho é que havia
uma escola. Ele não sabia ler nem escrever, como também a mulher.
Num lugar longe aí pra fora, ele conseguiu um emprego e levou a família.
Havia uns dez anos ou mais que ele não retornara à sua terra natal,
embora a saudade o convidasse todos os dias e com insistência. Quando
conseguiu arranjar um pouco de dinheiro de economias feitas ajudado pela
mulher, voltou a rever a sua terra, pois havia deixado a sua casa e um
pouco da terra aos cuidados da Leocada e do sobrinho, que já era
crescido quando ele foi embora.
Depois de muitas conversas e contraconversas, ficou combinado que Frumenço
iria embora com ele, pois lá ganharia um emprego com facilidade para
manter-se e ajudar a Leocada. O rapaz aceitou a proposta do tio; embora
contra a vontade da mãe, partiram.
Lá na terra alheia foi feliz, pois até ganhou dinheiro que deu para
comprar uma casa. E daí já pensara em casamento enquanto estava moço
por que sabia que era feio, e feio e velho, falava para os seus botões,
é rejeitado por toda mulher casadoira.
Pelas festas de São João, um colega de trabalho dele convidou-o para
assistir [a] uma alumiação do Santo citado, que ficava a uns dois quilômetros
de distância da casa dele. Aceitou o convite e foram até lá.
Como a nossa vida tem seus caprichos de surpresas guardadas para a ocasião
certa e precisa, ele encontrou-se com uma velha com duas filhas que
estavam assistindo à alumiação e que puxaram conversa com ele.
Elas indagaram o nome dele, onde morava e trabalhava, se era casado e
outros ditos. Ele também indagou tudinho da vida delas, os nomes - que
até o colega dele, que sabia ler e escrever, anotou num pedaço de
papel que trazia no bolso do paletó - onde moravam e mais mimos. Depois
ele falou pra elas que possuía uma casa e pensava em se casar breve,
pois morava com o tio e achava que o estava incomodando.
Embora ele houvesse notado nas duas moças um comportamento muito
desajustado, uns corpos meio disforme[s], com ombros muito largos e
quadris estreito[s], um buço de furar manta de tear manual, fala ro[u]quenha,
os buracos do nariz entupidos de cabelo grosso, simpatizou muito com uma
que usava o chamador de Maria e que era conhecida pelo povo do lugar
como Maria Quebra-Pinico. A outra era conhecida como Rosa de Catacumba,
e a velha como Rafaela Pé-de-Ganso.
O povo do lugar não mantinha qualquer afeição pelas três mulheres,
que até quase não tinham contato com as pessoas da vizinhança.
Moravam numa casa de três janelas de frente e que ficava bem na beira
do caminho. Quase que passavam o dia inteiro empoleiradas nas janelas
com as vergonhas atiradas em cima da soleira, dando de mamar às
descomposturas que recebiam das pessoas que escarneciam na sua passagem
por ali.
Algumas pessoas iam ao inspetor delegado do quarteirão apresentar
queixa contra as atitudes deseducadas delas. A autoridade atendia à
queixa, mas relaxava. Sim, porque ele, inspetor delegado, sabia que elas
eram bruxas e com mulheres bruxas não se brinca nem de pata-cega.
O homem possuía três crianças pequenas, que nos pescoços das quais
ele mantinha um brebe com nove dentes de alho vestidos com cascas, um
brebe pano vermelho e uma figa-de-guiné contra a ação bruxólica
delas; vasos com arruda, comigo-ninguém-pode, espada de São Jorge, imbé,
em todos os compartimentos de sua casa.
Se elas, quando conversavam com o Frumenço, o escarneceram, isto eu não
afirmo, porque quem ama fica cego, e o amor cego não enxerga.
Elas eram muito difíceis de dialogar com as pessoas, não ofereciam
oportunidade porque viviam sempre com as cancelas da bocarrona
escancaradas, qui nem porta de taverna, rindo e debochando de tudo e de
todos.
Na volta para casa, o Frumenço revelou ao colega que estava apaixonado
pela Maria e que iria pensar em pedi-la em casamento.
O colega, que já conhecia um pouco da vida pregressa delas, pôs o
Fumenço a par de tudo, até do apelido da Maria.
O feio apaixonado não pensava em outra coisa a não ser em Maria. No
trabalho, nas refeições, no sono, enfim, estava preso na gaiola de
cana da Maria. Pensou em remeter-lhe uma carta, depois um bilhete, em ir
na casa dela e apresentar-lhe como namorado. E assim pensando, veio-lhe
a idéia de mandar o coração de Pão-por-Deus para ela.
Acertou cem por cento na loteria. A tia sabia fazer o coração de Pão-por-Deus
muito bem feito e logo ele pediu-lhe que fizesse um. Comprou um
envelope, colocou o coração Pão-por-Deus dentro com uma dedicatória
toda especial para ela:
Lá vai
o meu coração
Nas asas de um tico-tico
Pra pedir o Pão-por-Deus
À Maria do Quebra-Pinico.
Chamou um garoto, encomendou-lhe a entrega da carta com o coração
e recomendou-lhe que esperasse pela resposta.
As três mulheres ficaram possessas, principalmente a velha, que achou o
Frumenço o diabo mais feio que apareceu neste mundo tresloucado, maduro
e azedo, depois que um conhecido leu a dedicatória que o atrevido
mandou para a filha, escrita no coração Pão-por-Deus.
A velha chamou o garoto entregador da carta, pediu-lhe para dizer ao
apaixonado que voltasse à casa delas, que seria bem recebido, por que a
Maria havia se agradado muito dele, para ser seu futuro marido. Não
mandou resposta escrita porque nenhuma das três bruxas sabia ler nem
escrever.
Dentro daquela noite, a velha urdiu um plano diabólico bem engendrado e
apresentou ao Lúcifer. Ele aprovou, e elas colocaram em ação.
Combinaram que, no dia seguinte, quando o feio apaixonado voltasse, o
receberiam com muita gentileza bruxólica, para que a Maria
Quebra-Pinico enjambrasse um noivado simbólico com ele, porque assim
ela poderia vingar-se do apelido feio que ele a tratou quando enviou-lhe
o coração Pão-por-Deus.
O Frumenço preparou-se bem, tomou o primeiro banho corporal de toda a
sua vida no tanque de lavar roupa, pôs por riba no esqueleto camisa,
ceroula, calça, paletó e sapatos novos, untou bem os cabelos com
brilhantina, areou os dentes com carvão moído, engraxou os sapatos com
carvão e banha de porco, raspou a barba e se mandou para a casa das
bruxas.
Elas o receberam na janela e não o convidaram para entrar. Enquanto
Maria Quebra-Pinico dialogava com ele, a Rafaela Pé-de-Ganso e a Rosa
de Catacumba estava[m] sentadas no assoalho da casa, debaixo das janelas
que estava[m] abertas, escutando o diálogo entre o feio e a
Quebra-Pinico.
-
Pos é! - falava a Quebra-Pinico para o Frumenço. Eu me agradê muito
de ti pra mó de sês mo marido. Si qués aceitá, eu quero tomém, pro
mó de que a minha mãi acha que eu e a Rosa já temo no ponto certo de
arrumá marido pra vivê sem as custa dela. Eu te acho um rapaz munto
alegante e bunito. Home ansim qui nem tu não é quarqué moça
casadoira que cunsegue arrumá. Nós três gustemo munto, mas munto memo,
do bilhete de Pão-por-Deus que tu mandaste pra mim. Eu não mandê tu
entrá pra dentro de casa, proque aqui neste lugá não é usuáli fazê
isso. Esse povo daqui são muito arreparadô da vivença dos otro. Só
pricuro memo é de fazê o máli pro seu próximo.
- Maria! - falou o Frumenço. - Eu já tenho casa ca mobilia toda
dentro; agora só farta memo é a muié, mó de compretá o resto. A
casa é minha memo; custô o meu suóri no trabalho do dia-a-dia. Por
isso eu quero arrumá uma muié que seje bem trabaiadera, boazinha, que
não viva pindungando na casa dos vizinho, que saiba fazê o cumê, lavá
ropa suja, fazê sabão em casa, custurá, trabaiá na roça. Enfim, que
saiba ajudá o marido. É isso mesmo.
Depois de muito conversar sobre o casório, despediu-se da Quebra-Pinico
e foi-se embora.
A
Rosa de Catacumba e [a] velha Rafaela Pé-de-Ganso não apareceram, mas
escutaram perfeitamente o diálogo que a Quebra-Pinico alimentou com o
Frumenço, que até chegaram a firmarem noivado entre os dois.
- Bem,
agora sim - falou
a velha para as duas filhas - o mo plano que arquitetê foi confrimado e
aprovado pelo nosso chefe, o Bode Cheiroso. Amanhã o feio vai drumi na
casa dele. Nós vambo pidi o encanto pelo avesso: em vez de sê por riba
do silvado é por debaixo; em vez de sê por debaixo do teiado, é por
riba. (Isto significa o seguinte: Quando as bruxas vão se encantar,
isto é, pedir o estado de metamorfose ao Capeta, elas pronunciam em
coro as seguintes palavras: por cima dos silvados e por debaixo dos
telhados, vamos com mil diabos. - Voar por cima dos silvados significa
alcançar alturas incomensuráveis, países distantes em frações de
segundos, judiar com animais e homens, praticar toda e quaisquer espécies
de estrepolias que engrandeça[m] o reino do mal.) - Voar por debaixo
dos telhados significa ganhar poderes diabólicos para chupar o sangue
de crianças inocentes e persegui-las até dá-las à sepultura, entrar
pelo buracos de fechaduras de portas de casa de família, invadir os
quartos, abusar das armadilhas exorcizadas que lhes preparam para apanhá-las
e escarnecer dos poderes espirituais, das benzeduras, brebes e outros).
Daí nós poisemo in riba do teiado, quebremo teia e joguemo os caco por
riba dele; inchemo os pote de mijo; sujemo dentro das vasila de botá
cumê; espaiemo sujidade de bicho de tudo que é culidade dentro da
casa, dentro do poço dele tirá água pra bebê; esvaziemos as marcela
dos brabicero, tiremo o capim do corchão e joguemo no terreno dele,
arranquemo todas as pranta do quintáli e da roça, e garremo pra casa
ente do galo preto cantá, proque já temo vingada do distratre que ele
mandou pra ti naquele biiete sem-vregonha.
(O canto do galo preto e na hora certa é sinal de firmeza e, portanto,
anula o fado bruxólico no momento em que o galo o manda para o éter).
Mas aconteceu que o Frumenço se acordou no exato momento em que elas
iam se retirar. Ficou impressionado com o barulho que elas estavam
fazendo in riba no telhado da casa, e como pensou em assombração,
colocou na boca, atravessada, uma faca de ponta.
Não houve dúvidas: fulminou o estado fadólico, e as três mulheres se
desencantaram.
Abriu a porta e deparou com um quadro estarrecedor in riba da casa dele:
três mulheres nuas com as vergonhas expostas à natureza, uma já gasta
pelo consumo que o defunto marido efetuou nela - a velha - e as outras
duas à espera de consumidores, a Maria e a Rosa.
O Frumenço apanhou uma escada que estava encostada numa laranjeira -
nem lembrou-se que estava em trajes menores, camisa e ceroula de pano de
algodão - e colocou no beirado do telhado para elas descerem.
As três cobriram as duas vergonhas de cima com o cabelo, que usavam
comprido, e a debaixo, com as mãos espalmadas, assim qui nem a nossa mãe
Eva deveria ter feito no paraíso quando passava por perto do Adão,
antes de a maçã entrar em pânico gerador.
O Frumenço estava beirando os trinta anos e nunca havia posto os olhos
in riba de um corpo humano feminino. Nem naquela noite, pois elas se
cobriram!
Elas estavam vingadas e o noivado desmanchado.
É isto mesmo, quem joga pedra no telhado da casa de vizinho fica
sujeito a ter o seu quebrado. (1964)

.....
As
Bruxas Roubam a Lancha Baleeira
de
um Pescador da Ilha

Contou-me
um narrador de estórias de assombração que, na Costa da Lagoa da
Conceição da Ilha de Santa Catarina, em anos que já vão longe de nós,
morou um pescador que possuía várias embarcações para os serviços
de pesca, entre as quais, também uma lancha baleeira.
Balduíno da Prudência era o nome do pescador. Ele era um homem muito
trabalhador e cuidadoso. Tratava com carinho suas embarcações e
equipamentos de pesca, e mantinha o rancho onde guardava sempre fechado
à chave.
Na manhã de uma sexta-feira, quando ele, acompanhado pelos seus
camaradas, dirigindo-se para o rancho a fim de retirar as embarcações
para ir à pescaria, encontrou a lancha molhada e com muita areia de
praia espalhada sobre o fundo, o que causou grande surpresa a toda a
tripulação, pois a haviam deixado enxuta e limpa, na véspera, ao
recolherem-na para o interior do rancho.
Comentando
e analisando o fato, eles chegaram à conclusão de que a maré daquela
noite havia sido alta e, pela razão citada, não podiam encontrar
nenhuma pegada na praia e, portanto, não havia vestígio para afirmarem
que alguém havia retirado a lancha do rancho, mesmo porque as portas
estavam fechadas à chave e, as quais encontravam-se em poder de seu
dono. Por via das dúvidas, daquele dia em diante, o pescador passou a
observar com muita atenção o estado da embarcação nas manhãs de
sextas-feiras. Obteve resposta para seu matutamento e desconfiança,
quando, na manhã, ao abrir o rancho para vistoriar sua embarcação,
encontrou-a molhada e muito suja de areia.
Sabedor que era de que, naquele ano e naquele
lugar, Lagoa da Conceição, as endiabradas e perigosas mulheres bruxas
vinham desenvolvendo grandes atividades diabólicas contra as inocentes
criancinhas da comunidade, chupando-lhes o sangue até dá-las à
sepultura, zombando sarcasticamente das fortes rezas e bem urdidas
armadilhas que se lhes preparavam. Toda a tripulação foi unânime em
concordar com a desconfiança do velho pescador: aquele serviço só
podia ser obra das temíveis mulheres bruxas.
Homem intrépido que era, acostumado a enfrentar fortes tempestades,
frio, fome, sede e outras sensações diversas diariamente em sua árdua
profissão de pescador artesanal, não titubeou em enfrentar mais um
estranho caso que o destino lhe colocou frente a frente, como um desafio
à sua coragem de indomável homem do mar. Sempre respeitou as coisas do
outro mundo, nunca lhas tocou nem de leve com escárnio ou zombaria e,
também, nunca duvidou da sua existência e atividades aqui neste mundo
de sofrimentos e tributações várias.
Matutando, certo dia, ocorreu-lhe uma idéia de traçar um plano bem
urdido para poder certificar-se verdadeiramente, se, de fato, eram as
terríveis mulheres bruxas as autoras responsáveis por aqueles embustes
que tanto o preocupavam. Traçou um plano tecnicamente muito louvável,
que foi o seguinte: colocou uma taramela na porta da gaiuta da lancha,
pela parte de dentro e, ao entardecer de uma sexta-feira, meteu-se
dentro dela, fechou a porta por dentro com a taramela e aguardou o
resultado dos acontecimentos.
Não tardou, havia passado alguns minutos, ele ouviu vozes estranhas de
mulheres dentro do rancho e viu quando a porta foi aberta e a sua lancha
arrastada para o mar, sobre as estivas que ele usava. Na porta da gaiuta
ele havia feito um pequeno furo, de onde espiou e viu um, quadro horrível
e descomunal. Nunca imaginado por ele, nem por nenhuma criatura humana.
Viu, dentro de sua lancha, uma caterva de mulheres nuas de fisionomias
horrendas, corpo disformes e esqueléticos, mãos com unhas pontiagudas,
enfim, um quadro dantesco, sinistro e demoníaco.
A mulher bruxa que ocupou o lugar de patrão sobre o castelo de popa da
lancha apresentava o corpo coberto de escamas negras e eriçadas, as
unhas das mãos e dos pés eram feitas lanças e espadas. Os cabelos
eram muito compridos e caíam pela popa da lancha espalhando-se sobre o
mar, deixando no seu rastro um fogo de ardentia, de comprimento incalculável.
Dos olhos, chamejavam dois fachos de luz que clareavam a frente da
embarcação 8 grande distância. Cada banco da lancha estava ocupado
por um monstro bruxólico que manejava o remo de voga. Quando iniciaram
a viagem mar adentro, a misteriosa e agressiva bruxa-velha-chefe. que
estava comandando a lancha, soltava gritos lancinantes enfurecidos.
Esbravejava, pronunciando palavras de alerta às suas comandadas de que,
dentro da embarcação, havia presença de um corpo humano, em estado
natural:
- Aqui nesta embarcação está cheirando a sangue real!
A bruxa que estava sentada no banco da popa da lancha junto da gaiuta
onde o pescador estava escondido, era comadre e prima dele. Ela sabia da
presença dele ali, através do faro fadórico sobrenatural. Para protegê-la,
todas as vezes que a temível bruxa-patrão esbravejava "está
cheirando a sangue real nesta embarcação," ela respondia com todo
vigor bruxólico para as suas colegas de sina demoníaca:
- Remem, suas éguas, e que cada remada avance uma légua, pois o galo
branco já cantou e o amarelo já cacarejou.
Esta advertência para as colegas significava que deviam se esforçar
para chegar ao lugar de destino e retornar sem serem molestadas pelo
canto do galo preto, que significava, para a sina delas, o desencanto
total. E assim, vencendo léguas por segundo em cada remada que davam,
aportaram no lugar que haviam escolhido para levarem a cabo as suas
sinistras diabruras e, dentro de pouco tempo, retornarem à lancha e
viajarem em direção ao porto de saída. Assim, cumprindo à risca os
projetos em questão, arquitetados, e muito bem arquitetados, porque os
planos bruxólicos são autênticos, ao chegarem na praia desembarcaram,
puxaram a lancha até meia maré e desapareceram.
O pescador, de dentro de seu esconderijo, observava com toda atenção e
cuidado os movimentos delas, porém não conhecia os seus linguajares.
verificando que estava livre de qualquer cilada por parte delas, abriu a
porta da gaiuta, saltou de dentro da lancha, pôs olho de observação
em volta do local e, com muita cautela, colocou um punhado de areia
daquela praia dentro do bolso, colheu um ramo de rosas de um jardim de
uma casa próxima dali e, rapidamente, recolheu-se ao seu esconderijo.
Nem era passada uma fração de segundos, as endiabradas se apossaram
novamente da lancha, ocupando seus devidos lugares e a soltaram mar
afora.
Durante toda a viagem de ida e volta, a bruxa-patrão advertia,
insistentemente, as suas comandadas, de que ela tinha plena certeza bruxólica
de que, dentro daquela embarcação, havia presença de sangue real. A
comadre do pescador, a bruxa que sabia da sua presença ali dentro da
gaiuta, acompanhou a saída dele lá na praia onde desembarcaram e viu
quando ele apanhou a areia e as flores. Durante toda a viagem de volta,
quando a sua chefe esbravejava contra a presença de sangue real, ela a
interrompia com muita segurança e habilidade: Remem, suas éguas, e que
cada remada avance uma légua, pois os galos brancos e os amarelos já
cantaram e os pretos já miúdaram.
E assim, com esses argumentos, ela defendeu o seu compadre e parente das
unhas daquelas terríveis mulheres bruxas, mesmo porque também não
podiam perder tempo à procura do sangue do pescador que se achava
dentro da gaiuta. Ela sabia tão bem quanto todas as lições bruxólicas
que haviam aprendido, quando calouras, de que, se fossem colhidas em
estado fadórico pelo canto do galo preto, se desencantariam dentro da
lancha, em pleno mar, e o pescador reconheceria todas quando
apresentassem a sua nudez humana. E continuaram a viagem esbravejando,
remando, desafiando a velocidade do tempo, até que chegaram ao porto de
partida na Ilha de Santa Catarina, na Lagoa da Conceição.
Desembarcaram, abriram o rancho, recolheram a lancha dentro dele e
desapareceram, num pealo, dos olhos do pescador.
O pescador, logo que se viu livre delas, apanhou a areia e as rosas que
recolheu no porto onde elas o levaram e retirou-se para sua casa. No dia
seguinte, ele tomou a areia e as rosas e passou a mostrá-la a toda
gente da comunidade, na intenção de que alguém adivinhasse ou
acertasse a procedência delas ou sua terra de origem. Não encontrou
pessoa alguma que conseguisse dar uma opinião aproximada, pois nem ele
mesmo era capaz de calcular onde esteve, levado por elas.
Certo dia, quando ele menos esperava, a bruxa, sua comadre apareceu em
casa dele para visitar o afilhado. Ela mantinha uma amizade muito forte
e íntima com uma de sua filhas, a Gracinda, que era uma moça casadoira
e muito religiosa. Conversa vai e conversa vem, ele chegou até a
comentar com ela o fato desagradável que com ele acontecera e que muito
o impressionara.
- Comadre, eu estive num lugar muito longe, dentro da noite, e, às
apalpadelas, dentro da escuridão, consegui recolher um punhado de areia
e umas rosas, porém desconheço o lugar de sua origem. Já as mostrei a
muita gente e ninguém, assim como eu mesmo, conseguiu identificá-las.
- Quando ela colocou os olhos por riba da areia e das rosas, suas faces
enrubesceram, seus olhos se esgazearam e sua fala emudeceu.
Recuperando-se, ela afirmou - Compadre, a terra de origem deste punhado
de areia e deste ramalhete de rosas é a Índia. Eu aprendi na minha
escola de iniciação à bruxaria que lá, nos Açores, na terra dos
nossos antepassados, as bruxas também costumavam roubar embarcações e
fazerem estas viagens extraordinárias entre as ilhas e a Índia, em
escassos minutos marcados pelos relógios do tempo. Também aqui as
mulheres continuadoras dos elementos diabólicos do reino de Satanás,
cujas chefes enfeixam em suas mãos os poderes emanados Dele, praticam
as mesmas peripécias. Eu, compadre, afirmo-lhe com convicção certa de
que as suas vidas, naqueles momentos, estiveram guardadas no repositório
das minhas mãos. A bruxa-chefe, que comandava a embarcação, tinha
plena certeza da presença real de sangue humano dentro da lancha e, de
vez em quando, ela chamava a atenção de suas comandadas para que
investigassem onde estava o elemento que o possuía. Mas eu procurei
sempre com muita altivez e precisão bruxólica, atraí-las para pontos
distantes que podiam atrapalhar nossa viagem, quais eram os cantares dos
galos. Hoje o senhor vai saber com precisão que, dentro da sua embarcação,
fazendo aquela viagem bruxólica entre.a Ilha de Santa Catarina e a Índia,
estavam as mulheres bruxas mais respeitáveis, misteriosas, prepotentes
e malignas que vivem o reino rubro do rei Anjo Lúcifer. Se o senhor não
foi trucidado por elas, agradeça à minha presença na sua lancha,
metamorfoseada em bruxa, sentada no banco de popa na frente da gaiuta,
onde se achava escondido.
Ela declarou-se bruxa para o compadre e acusou-se de estar chupando o
sangue do filho dele, seu próprio afilhado de batismo, e denunciou
todas as demais, inclusive a chefe do bando que encetara aquela viagem.
O velho pescador ficou atarantado e, num repente, correu até a cozinha,
apanhou um rabo de tatu que estava no fumeiro, aplicou-lhe uma boa surra
de repreensão por riba do corpo e salgou as feridas do desencanto com
sal e pimenta, do desespero que ele via no amargar do empresamento do
seu filhinho.
Muitas. vezes - pensou consigo mesmo o audaz pescador - escutei
conversas em ajuntamento de pessoas, no inverno, aquecendo-se ao pé do
fogo de fogão de trempo de ferro, em cozinhas de assoalho de chão
batido, de que as mulheres bruxas açorianas eram temidas pelo povo das
ilhas, devido às práticas de suas más-artes.
"Depois da tremenda refrega demoníaca que ganhei, sem atinar
porque carga de pecado cometido, de uma coisa tenho plena certeza: quem
me defendeu das unhas carniceiras daquelas megeras éguas bruxas foi o
meu breve milagroso, que carrego sobre o peito, desde o tempo da minha
bisavó Lucreça, que era uma exímia benzedeira curandeira e que fez
parte das levas de colonos que viajaram amontoados dentro de porões fétidos
de barcos veleiros, na santa esperança de se radicarem aqui nesta Ilha
de Santa Catarina e viverem melhores dias na santa paz do senhor, já
que a sua terra natal só podia oferecer-lhes misérias econômicas,
minguadas e escassas.



O
Fantástico na Ilha de Santa Catarina, Franklin Cascaes
Florianópolis, Editora
da UFSC, 1989.
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