Vardi!...deixa essa vassoura ai. Olha a bruxa!

       


Na infância, em verdade, a nossa mente é um mundo de fantasias. A imaginação fértil comandada pelo medo das coisas e da morte, tornam as situações inexplicáveis, o motivo principal para dar vazão as nossas ansiedades e medos.

O ilhéu tradicional possui todo um universo de crenças e supertições, muitas delas originárias do Açores. 

Veja também a seção supertições em Cultura/folclore


 

Crendices

  

  

Mau-olhado

 

É a maior e mais temida das ameaças. que acarreta toda a sorte de malefícios - dificuldades financeiras, problemas de saúde, contrariedades afetivas. Contra eles existem os breves (amuletos) e as rezas (orações) para conjurar o mesmo.

O Quebranto é a doença típica provocada pelo Mau-olhado. Caracteriza-se por um quadro de morbidez, perda da vivacidade, sonolência, olhos sempre lacrimejantes. Só é curado à força de muita erva e benzedura.

Muitos pescadores ainda acreditam, em olho grande e de inveja. Algumas situações como: quando matavam pouco peixe, atribuíam a culpa aos invejosos e então os benzedores eram chamados para exorcizarem as canoas, as redes, e, até mesmo, as pessoas da família do pescador "malinado"; ou quando vão ao mar não devem olhar para mulheres grávidas, falar em padre, penas de galinha, cobras, tamancos e outras coisas pela razão de que é agouro; ou ainda, quando enterram os peixes em praias desertas, para mostrar a embarcação vazia e nada pescaram para mais tarde, disfarçadamente, retornam e vão vendê-lo em outros lugares, evitando assim o "mau-olhado", o "quebranto" e a "inveja".

  

Doença

  

Fazer brincadeira com a própria sombra.

Se deixar entrar um cão desconhecido adentrando a casa.

Se um grilo cantar nos fundos da casa.

Se criar em casa búzios e caramujos

Não se deve varrer a casa a noite.

Não deve-se apontar no próprio corpo o lugar em que outra tenha alguma lesão ou ferida, referindo-se a ela sem que se diga - lá nele. Assim, é freqüente ouvir-se: Fulano tem uma ferida aqui no joelho, lá nele. Se não o fizer, está sujeito a adquirir o mesmo mal.

Não se deve passar meias a ferro, pois fazendo isso é chamar a tuberculose para quem as usa.

O calçado não deve ficar virado com a sola para cima pois é sinal de morte. 

  

Verrugas

  

Surgem quando apontamos as estrelas quando em noite enluarada.

  

Calendário

  

Dias de sorte ou bem afortunados são aqueles em que, pela bíblia, em que Abraão e Jacob contratavam pelo bom conselho do anjo, o qual devemos seguir: 3 de janeiro; 5 e 25 de fevereiro; 2 e 18 de março; 5, 25 e 29 de abril; 4 e 27 de maio; 3 e 8 de junho; 4, 13 e 16 de julho; 22 de agosto; 2, 7, 23 e 27 de setembro; 4 e 15 de outubro; 14 e 15 de novembro; e 18 e 26 de dezembro.

Dias de azar ou mal afortunados, na crendice popular, são aqueles em que todas as pessoas que neles adoecer morrem, salvo se tiverem o seu nascimento de Júpiter, viverão e padecerão grandes moléstias. Os que casarem viverão mal e serão mal casados. Os que começarem viagem por mar e por terra não acabarão sem grandes perigos; não é bom comprar, nem vender, nem fazer casas, nem ir a justiça ou juízo. Há três dias azarados: a primeira e a segunda segundas-feiras de abril porque nelas foram dezimadas as cinco cidades de Sodoma; a primeira segunda-feira de agosto porque nela Caim matou Abel; a primeira segunda-feira de novembro porque nela nasceu Judas, o traidor de Cristo. São eles: 2, 11, 26 e 30 de janeiro; 2, 15 e 19 de fevereiro; 15, 17 e 19 de março; 6 e 15 de abril; 7, 11, 14 e 30 de maio; 1 e 9 de junho; 2, 16 e 20 de julho; 9, 16 e 20 de agosto; 16 e 20 de setembro; 6 de outubro; 6, 7 e 11 de novembro; e 2 e 4 de dezembro.

  

Sonho

  

Com doença, ou que está doente ou de alguém que esteja doente, representa ter saúde para si ou para a dita pessoa.

Com a morte de determinada pessoa é sempre sinal de longevidade.

Com perdas materiais, representa ter boa sorte.

  

Animais

  

Ver em Cultura/Folclore/Supertições

  

Azar

  

Alguns dias do ano são considerados azarentos, como as primeiras segundas-feiras de abril, agosto e novembro. E ficando doente nestes dias, morrerá, ficará imprestável ou sofrerá muito na vida. Também não se poderá, nestes dias, negociar, viajar ou construir coisa alguma. 

Não há nada que atrase mais uma casa, que traga mais contrariedades e infortúnios do que ter barcos em miniatura em casa. 

  

Culinária

  

Deve-se tomar cuidado ao ferver o leite, pois se queimá-lo, o úbere da vaca seca.

Uma mulher ou moça estando mestruada não deve bater o bolo, pois o mesmo não cresce. Duas pessoas não devem bater a mesma massa de bolo, pois este não crescerá. Se uma pessoa bater um bolo, deve bater sempre na mesma direção, pois ao contrário não crescerá.

Lentilha ou uvas sendo comidas na ceia de 31 de dezembro dá sorte.

Benzer-se ao bater o bolo ou ao botá-lo no fogo é uma crença ainda comum na Ilha.

Se uma colher cair no chão, visita de mulher; se garfo, visita de homem.

Não deve-se cheirar a comida pois senão ela azedará.

  

Demo

  

Dizem que o diabo é preto, tem rabo, chifres, unhas compridas e pés de cabra; fede a bode e também a enxofre. Usa uma barbicha em ponta, quando em figura de gente e traz um chocalho no pescoço.

Não se deve falar sozinho, nem beber água no escuro, porque o faz com o diabo.

Não se deve acender uma vela pra Deus e outra para o Diabo, pois é provável que ele lhe "ronque as tripas".

Não se deve dar esmolas ao diabo nem fazer-lhe promessas.

Não nos devemos benzer à primeira badalada do sino, pois esta, diz o povo, é a do diabo.

  

Bruxa

  

A criança quando nasce tem logo que ser batizada, pois corre o risco de ser atacada por bruxa, por isso devem dormir com luz acesa.

As bruxas podem se transformar em qualquer animal. Por exemplo, em mariposas, lhes permitindo passar por buracos de fechadura para atacar alguma criança. 

Quando a mulher dá a apertar a mão canhota é sinal de que é bruxa.

Mulheres feias, magras e antipáticas são apontadas como bruxas.

Quando se anda à noite, nunca se deve olhar para o lado direito. Tem que olhar para o lado esquerdo, lado do coração, ou pra frente. Se for olhar pra trás, tem que virar todo o corpo, que é pra não ver lobisomem.

  

Depoimento
José Agostinho – Barra da Lagoa

  

"... Na Lagoa, existia muita benzedeira, muita bruxa.
Se uma mulher queria fazer mal a outra comadre, não sabia como, 

olhava com o olho de inveja.
A nossa vista faz mais mal do que vista de cobra.
Pra pegar bruxa tem que pegar um pouco de mostarda preta, 

ir à meia-noite no cemitério e trazer areia.
Mas tem que ir à meia-noite certinho, e sozinha.
Tem que ter coragem, se não, não vale.
Depois tem que pegar três sapos, tirar o couro da barriga e

 tirar o rabo de três cobras coral.
Aí bota tudo isso num pano, coloca embaixo de um caixote, 

como uma arapuca, e, dentro, uma vela acesa.
À noite bota perto da cama, com um pauzinho.
Quando a criança chora, sinal de que a feiticeira está chupando o seu sangue, 

nessa hora, tem que puxar o pauzinho da arapuca.
A feiticeira então fica presa e junta baguinho por baguinho da mostarda.
Tanto pode ser a sua comadre, sua amiga, irmã...
No dia seguinte ela vai pedir:
- Pelo amor de Deus, não conta para os outros.
A gente garante que não vai contar, mas de manhã parte para as vendas e 

tem que contar pelo menos pra sessenta pessoas.
Até ela perder o encanto tem que ir contando, senão, não perde.
Se contar pra bastante gente, ela perde o fado dela.
Se não contar, ela se transforma em gaivota e vai arrancar os olhos 

das pessoas que descobriram que ela é feiticeira."
   

  



Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro, Vol. I e II

Depoimento: “Vozes da Lagoa”. Ourofino, Bebel  e Borges, Elaine

Domínio Público