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Do que a Ilha é formada?

 


 

A Ilha de Santa Catarina, situada entre as latitudes 27º22’ e 27º50’ possui uma área de aproximadamente 423 Km2, apresentando direção geral NE-SW. Encontra-se separada do Continente pelas Baías Norte e Sul, cujas profundidades máximas atingem em torno de 11 m. A Baía Norte tem seu canal de entrada delimitado pelo maciço costeiro da Armação da Piedade no continente e pelo Morro do Forte na Ilha, enquanto que a Baía Sul é delimitada entre a Ilha e o continente pela Ponta dos Naufragados e Tombolo do Papagaio, respectivamente. O afunilamento do canal de entrada da Baía Sul acompanha-se das maiores profundidades encontradas no setor, atingindo cerca de 30m. As duas baías comunicam-se através de um estreito de aproximadamente 500m de largura e 27-28m de profundidade, sobre o qual foram construídas as três pontes que asseguram a ligação Ilha-Continente. Esta configuração geográfica da Ilha de Santa Catarina permite classificá-la como uma ilha continental, a qual representa a extensão dos grandes traços geológicos sobre o continente. O relevo na Ilha de Santa Catarina é marcado pela associação de duas unidades geológicas maiores: elevações dos maciços rochosos que compõem o Embasamento Cristalino e áreas planas de sedimentação. Ambas delineiam respectivamente as denominadas Serras Litorâneas e Planície Costeira, unidades geomorfológicas que caracterizam a paisagem local.

 

 


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Serras Litorâneas

 

As Serras Litorâneas apresentam em geral aspecto de crista, dada sua posição alongada e acentuado declive das encostas. A Ilha de Santa Catarina é atravessada em toda sua extensão por uma dorsal central orientada NNE e SSW, cujos divisores de água separam as pequenas bacias fluviais e planícies costeiras.

A dorsal ramifica-se lateralmente em esporões que podem continuar submersos ou emergir na forma de ilhas. Dois compartimentos podem ser distinguidos: um setor centro-norte e um setor sul.

O compartimento centro-norte, que encontra-se mais extenso na parte central, diminuindo em direção ao norte, apresenta altitude máxima de 493m no Morro da Costa da Lagoa, enquanto que o setor sul, separado do setor central pela planície onde foi construído o aeroporto, atinge 540m, junto ao Morro do Ribeirão. Os topos são angulosos ou côncavos e as encostas apresentam declividades acentuadas, chegando a 45º de inclinação ou mais. Encontram-se dissecadas por uma drenagem incipiente, com vales geralmente encaixados, pouco profundos em forma de "V". As vertentes apresentam-se irregulares definindo vários níveis de patamares.

A espessura reduzida do manto de alteração sobre estes relevos leva em alguns pontos a exposição de blocos e matacões, como por exemplo no Morro da Cruz, através da remoção dos materiais finos pelos processos erosivos.

De norte à sul, esta dorsal central separa os ambientes da Planície Costeira voltados para leste, daqueles orientados para norte ou para as baías, à oeste.

 


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Planície Costeira

 

 

As Planícies Costeiras são formadas pela deposição de sedimentos marinhos e fluvio-marinhos. São em geral de idade quaternária, representando os terrenos mais recentes na escala geológica. A formação destas Planícies Costeiras está associada as oscilações do nível do mar durante o Quaternário, resultantes principalmente da alternância de períodos glaciais e interglaciais, alterando o volume das águas oceânicas.

Na Ilha de Santa Catarina distingue-se três setores distintos de ambientes de Planície Costeira de acordo com o nível de energia ambiental ao qual estão submetidos: o setor leste, submetido a atuação das ondas e ventos de alta energia provenientes do quadrante sul, o setor oeste, definido pelas águas protegias das Baías Norte e Sul e o litoral norte, de nível energético intermediário, submetido aos ventos e ondulações de quadrante norte e protegido dos ventos de sul pelas elevações da dorsal central.

 

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Setor Oeste

 

As águas protegias das Baías Norte e Sul associadas as pequenas profundidades e ao aporte de sedimentos finos pelos rios, levou ao desenvolvimento de manguezais neste setor, junto ao baixo curso dos sistemas fluviais que definem as bacias hidrográficas voltadas para oeste. Os manguezais são ambientes controlados pela influência das marés e sua magnitude no setor está diretamente relacionada a importância dos sistemas fluviais à montante.

Por ordem decrescente de área ocupada, pode-se distinguir quatro principais manguezais: o manguezal do Rio Ratones na Baía Norte com 16,57Km2, o manguezal do Rio Tavares na Baía Sul com 15,32Km2 e os manguezais de Itacorubi e Saco Grande, ambos na Baía Norte com respectivamente 2,53 e 1,38Km2.

A extensão aqui apresentada refere-se a área ocupada em 1938. A partir desta data, diversas intervenções humanas tem levado a redução destes manguezais. Em 1978 os dois maiores tem suas áreas reduzidas em até 37%, com 10,4Km2 em Ratones e 11,47Km2 no Rio Tavares. A diminuição destes ambientes acelera-se a partir da década de setenta e, em 1981 restam apenas 37,8 e 53,6% da área original ocupadas pelos manguezais de Ratones e do Rio Tavares, com 6,25 e 8,22Km2 respectivamente. A implantação de canais de drenagem pelo DNOS, a construção de rodovias, a utilização como lixão no Itacorubi e o avanço da expansão urbana, são fatores que levaram à esta situação, comprometendo a manutenção de um dos mais importantes ecossistemas costeiros.

Outro traço morfológico do litoral neste setor oeste é a ocorrência de pequenos arcos praiais junto as reentrâncias dos maciços rochosos, tais como a Praia da Caieira e da Tapera na Baía Sul e a Praia de Cacupé, Santo Antônio de Lisboa e do Sambaqui na Baía Norte.

Nos locais onde as elevações rochosas estão em contato direto com as águas das duas baías, linhas de costões mais ou menos abruptos caracterizam a morfologia local.

 

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Setor Norte

 

Dois arcos praiais ancorados e individualizados por elevações rochosas delineiam o litoral norte da Ilha. à leste, com 4,5Km a Praia de Canasvieiras - Cachoeira de Bom Jesus, delimitada pelo extremo norte da dorsal central e pela Ponta dos Morretes e, à oeste, delimitada por esta Ponta e a Ponta do Forte, a Praia de Jurerê, com 3,5Km de extensão.

Estas praias encerram à sua retaguarda planícies constituídas pela sucessão de cristas praiais e respectivos cavados, conferindo à paisagem um aspecto ondulado. A formação destas planícies está associada principalmente ao rebaixamento progressivo do nível do mar à partir de 5.100 anos atrás, quando encontrava-se em torno de 3,5m acima do nível atual. Esta descida do nível marinho levou ao abandono de antigos depósitos de praias, com o desenvolvimento destas planícies de progradação.

Neste setor, observa-se ainda a presença de duas flechas arenosas formadas à partir do transporte de sedimentos costeiros pela atuação de correntes de deriva litorânea no sentido geral N-S e NE-SW. Trata-se de depósitos recentes, formados durante os últimos 100 anos. A mais antiga constitui-se no Pontal da Daniela, situado junto a entrada da Baia Norte. A segunda, desenvolvida nos últimos vinte anos, forma o Pontal de Ponta das Canas, o qual isolada do mar um dos poucos corpos lagunares presentes neste setor.

O caráter recente e instável destas formações demanda maior prudência quanto a sua ocupação, de forma a evitar os danos materiais e ambientais observados na Praia de Ponta das Canas nos últimos cinco anos, ocasionados pela aceleração de processos erosivos marinhos na área.

Estes processos erosivos mais acentuados têm igualmente atuado nas praias de Jurerê e Canasvieiras onde, somados a densidade crescente da ocupação balneária a partir dos anos setenta e a precariedade das condições sanitárias, esboçam um quadro preocupante para a qualidade ambiental.

 

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Setor Leste

 

No litoral leste da Ilha de Santa Catarina os maciços rochosos e áreas de sedimentação quaternária configuram uma alternância de costões e praias de forma e extensão diversas.

Três tipos de praias podem ser distinguidos: praias em forma de espiral ou parabólica como as Praias dos Ingleses e Armação, com 3 e 4Km de extensão, praias de bolso, com aproximadamente 1Km de extensão como é o caso das praias Brava, Santinho, Galheta, Mole, e Matadeiro. Um terceiro tipo constitui praias alongadas, tais como Barra da Lagoa - Moçambique e Joaquina - Campeche, ambas com cerca de 10Km de extensão e direção geral NNE-SSW.

Estas praias encontram-se ancoradas a um cordão arenoso denominado externo, cujas altitudes atingem 4 a 6m acima do nível do mar.

Este cordão isola do mar terraços planos, alongados que representam antigas lagunas que ressecaram com o rebaixamento do nível marinho. Apresentam cotas em torno de 1,0 e 1,5m, constituindo depósitos de características pantanosas, com a formação de turfas.

À oeste, estes antigos corpos lagunares estão em contato com um segundo cordão, interno, cujas altitudes alcançam de 6 a 10m acima do nível do mar. Este por sua vez, isola do mar os dois maiores corpos d’água da Ilha: a Lagoa da Conceição no centro-norte e a Lagoa do Peri no sul, ambas confinadas a oeste pelas encostas da dorsal central.

A Lagoa da Conceição com 20Km2 e profundidades máximas de 8,7m tem sua comunicação com o mar assegurada pelo canal da Barra da Lagoa, o qual permite as trocas entre a Laguna e o Oceano. Com menor área (5,2Km2), a Lagoa do Peri no sul da Ilha já não recebe contribuição de águas marinhas, em virtude de suas cotas em relação ao nível médio do mar, constituindo-se desta forma no maior reservatório de água doce da Ilha. As águas captadas da bacia hidrográfica da Lagoa do Peri, são extravasadas a partir de um sangradouro situado ao longo do terraço formado pela paleolaguna, entre os cordões interno e externo.

Estes cordões apresentam idades diferentes, sendo o interno mais antigo, com aproximadamente 120.000 anos e o externo mais recente, com idade em torno de 5.100 anos. Compõem os chamados sistemas ilha-barreira-laguna formados a partir dos movimentos positivos e negativos do nível do mar durante o Quaternário.

Um retrabalhamento dos sedimentos que constituem estes cordões pelos ventos dominantes de SE - NE, construiu depósitos de dunas fixas ou ativas de importância variável ao longo deste setor. Os campos de dunas mais expressivos, desenvolveram-se nos locais onde blocos graníticos avançam para o mar, constituindo verdadeiras armadilhas para os sedimentos, veiculados primeira-mente pelas correntes litorâneas até a praia e, em seguida, pelos ventos em direção ao continente. As dunas da Joaquina e de Moçambique - Ingleses que chegam a atingir 40m de altitude, constituem elemento marcante da paisagem costeira ao longo deste setor leste.

Finalmente, três grandes planos arenosos horizontalizados completam este quadro geral das unidades geoambientais na Ilha. Um primeiro situado ao Norte, entre as encostas da dorsal centro-norte, a Praia de Canasvieiras - Cachoeira de Bom Jesus e o Manguezal do Rio Ratones. Um segundo plano localizado na área que secciona a dorsal central em direção ao sul, e um terceiro plano na extremidade sul da Ilha, situado à retaguarda da Praia do Pântano do Sul, delimitado a norte, leste e oeste pelas elevações do compartimento sul da dorsal central.

Estas áreas planas encontram-se a aproximadamente 2,5m acima do nível médio do mar e correspondem a antigas extensões lagunares ou de mar raso, que foram ressecadas a partir de uma primeira fase de rebaixamento do nível marinho, após seu nível alto de 5.100 anos atrás.

Esta diversidade dos ambientes costeiros na Ilha de Santa Catarina constitui-se em patrimônio natural inestimável. A variedade e beleza das praias ao longo da orla atrai a cada ano cerca de 500 mil turistas durante o período de verão, atestando o valor econômico destes ambientes.

Todavia a forte pressão exercida sobre a orla nestes últimos vinte anos pela expansão ocupacional de Florianópolis e, sobretudo, pelo desenvolvimento do turismo balneário, tem evidenciado a fragilidade dos sistemas costeiros na Ilha.

A aceleração dos processos erosivos com recuo da linha de costa nas praias da Armação e Ingleses, são alguns exemplos de alteração do equilíbrio dinâmico dos sistemas praiais. A presença de construções no alto das praias interrompe as trocas de sedimentos com as dunas frontais durante os episódios tempestuosos, esboçando a curto, médio e longo prazo um quadro propício a degradação costeira muitas vezes irreversível.

Além dos impactos causados pela ocupação, fatores ainda pouco conhecidos referentes a hidrodinâmica local, ao balanço sedimentológico, bem como um possível contexto atual de elevação do nível do mar sugerem cautela na elaboração de planos de ocupação destes espaços costeiros.

Por outro lado, esta ocupação dos ambientes costeiros na Ilha reflete não apenas uma realidade espacial, mas um conjunto de complexas transformações sócio-econômicas e culturais, cujas conseqüências para o meio ambiente pode representar a destruição dos próprios recursos naturais, como no caso dos manguezais ou ainda das praias, comprometendo o seu próprio valor econômico para o turismo.

A partir de um melhor conhecimento dos processos atuantes, podemos fornecer subsídios ao controle da ocupação desordenada que vem ocorrendo, contribuindo para uma utilização mais adequada destes espaços costeiros. Mesmo que a solução dependa definitivamente duma política urbanista e de zoneamento costeiro que até hoje não foi efetivamente implantado.

 



Geologia e Geomorfologia da Ilha de Santa Catarina. 

Texto elaborado com o apoio de Janete Castilho (Geografia-UFSC).

Capítulo 1 do livro editado pelo CECCA/FNMA, Uma Cidade numa Ilha (2ª edição).

Florianópolis: Editora Insular, 1997.