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A sua contribuição é sua obra.

 


No decorrer de sua vida, Franklin Cascaes (1908-1985) expressou em forma de arte os estudos que realizou sobre a cultura açoriana na Ilha de Santa Catarina, seus aspetos folclóricos, culturais, suas lendas e superstições como se fora um ritual abstrato que atingisse a estrutura vital do mito. E fê-lo soberbamente, já que da pesca da tainha à cerâmica, dos cantos aos engenhos de farinha e açúcar, aprofundou, sobretudo o estudo que trata das lendas através de um desenho fantástico, cujo sentido mítico dimensiona uma criatividade genuína e profunda.

           

 

 

  

"Eu apricio boitatá e até dedico-lhe amizade por ser partícula de mim em combustão e eletricidade."

 

"Se não houvesse o medo, essas impressões todas, a vida seria muito mais pobre, seria uma coisa dura, seca, sem expressão."

 

"O ente sobrenatural de que o homem tem mais medo é ele mesmo, é de si mesmo. Ele tem medo da verdade. Ele tem medo de boitatá, que é fogo-fátuo, que está nele próprio."

 

Nesta seção destaquei alguns contos de Cascaes.

    

      

  


Quem foi o Bruxo Cascaes

 

No ano que marca o centenário do professor, pesquisador, folclorista, gravurista e escritor, deve-se ao seu trabalho o que restou dessas “crenças espirituais fantásticas que dão vidas simbólicas fictícias a seres invisíveis”. A fúria do progresso, cujas conseqüências como poluição, descaracterização e especulação imobiliária ele denunciou até sua morte, fez com que a Política (“uma madame manhosa”) invariavelmente levasse a melhor sobre a madame tradição (“um monumento de beleza que o homem errante, habitante do globo terráqueo, guarda carinhosamente nos baús do seu pensamento e, na maioria das vezes, oralmente, oferecendo aos descendentes, imortalizando-a”). Sobraram a “beleza incomparável” da Ilha de Santa Catarina, enaltecida em toda a sua obra, e uma trajetória pessoal que a Madame História, “na sua sutil e nobre sabedoria secular”, certamente abençoaria.
Cascaes nasceu em 1908 no bairro Itaguaçu (parte continental de Florianópolis), à época pertencente ao município de São José. Desde cedo, ajudava os pais em tarefas ligadas ao cotidiano da comunidade, como fazer balaios, armar cercas de bambu, tecer tarrafas e cordas de cipó, moldar peças de argila e trabalhar no engenho de farinha. Entre uma tarefa e outra, era exposto às lendas contadas pelos pescadores e agricultores a respeito de seres mitológicos, seus estranhos poderes e suas ocorrências no interior da ilha, despertando seu interesse pelo assunto que exploraria nas décadas seguintes.
O talento para retratar o que escutava — no papel, no barro ou na pedra — o levou a lecionar na escola de Aprendizes e Artífices de Santa Catarina (atual Centro Federal de Educação Tecnológica — Cefet), a convite do diretor da instituição, o professor Cid rocha Amaral. Durante cerca de 40 anos, Cascaes ensinaria desenho, escultura, modelagem e trabalhos manuais, construindo uma carreira que vem sendo estudada pela aluna Denise Araújo Meira em sua dissertação de mestrado em educação pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).
Foi nas dependências da escola que, em 1946, o professor começou a aprofundar seu mergulho pelos costumes, práticas e conhecimentos dos descendentes dos açorianos que colonizaram Florianópolis. Na época, a provinciana capital aderia incondicionalmente ao desenvolvimento urbano, abrindo mão do passado em prol de um estilo de vida trazido dos grandes centros. Aos 38 anos, talvez prevendo que, se as mudanças continuassem naquele ritmo, pouco da cidade que ele aprendeu a amar chegaria intacta aos netos e bisnetos dos pioneiros, Cascaes trilhava a direção contrária.
Às suas próprias custas, passou a coletar antigas histórias, que tratava de eternizar em alguma das muitas artes que dominava. Havia virado artista, então? Sim, mas não com essa intenção. Mesmo se quisesse, não poderia abandonar o magistério: “Não dá para viver de arte, o artista é sempre pobre, visto como um malandro”, dizia. Em vez de lamentar a falta de apoio, embrenhava-se pelo interior da ilha, onde se sentia mais à vontade com as manias e o linguajar peculiar dos manezinhos — traduzidos com fidelidade em seus escritos — do que com a última novidade tecnológica incensada pelos “almofadinhas” da cidade.
Graças ao que o clichê acadêmico convencionou chamar de “resgate” perpetrado por Cascaes, veio à tona todo um universo imaginário condenado ao desaparecimento em nome da modernidade. Como, por exemplo, as diferenças entre bruxas e feiticeiras. Conforme a explicação de Nicolau, a Sulpício do Quintino, as primeiras são “muhié malina que nascero cá sina, somente, pra podê fazê o máli (Congresso Bruxólico). Em outra passagem (Balanço Bruxólico), Cumpadre zeferino as descreve ao Cumpadre Manuéli como “canahias desavergonhadas (...), não é a toa que no céu da boca delas nasce um dente canino.”
Os manezinhos tinham suas razões para temer e odiar as tais bruxas: elas roubavam embarcações, davam nós nas crinas e nos rabos dos cavalos (isso quando não os faziam galopar pelos ares!), “inticavam” com as pessoas mais velhas, chupavam sangue das criancinhas e aprontavam mil e umas “malas-arte”. Já as feiticeiras eram “as muhié que só pricuro fazê o bem prôs sôs próximo”, continua Nicolau. Nessa categoria entram as curandeiras e benzedeiras como sinhá Marculina do Joronço. Ao examinar Zeferino, que “não tugia nem mugia”, “desmaiado e sem fala, que nem um boneco de cera virgem”, ela diagnosticou o caso como “empresamento por vingança bruxólica cipoadamente balanceira”.
As ilustrações acentuam o caráter sobrenatural dessas narrativas. Inspirado por ossos de peixes, garras, escamas e demais elementos do mar, o artista forjava bruxas cadavéricas e pontudas. no livro Franklin Cascaes: Uma cultura em transe (editora Insular), o autor evandro André de Sousa observa que, mais tarde, essas criaturas aparecem relacionadas ao “asfalto, à eletrificação, à construção de prédios no lugar dos antigos casarios coloniais, aos avanços tecnológicos como a ida do homem à lua, a popularização da televisão, a construção da segunda ponte e a intensificação do turismo” — situações que assustavam Cascaes mais do que qualquer praga rogada por uma mulher “enganadeira dos marido com os próprios cumpadres”.
Antes de a preocupação com o meio ambiente transformar-se em retórica onipresente em qualquer segmento “inteligente” da sociedade, ele já atacava o descaso com a natureza. “Que fazem os homens responsáveis pela fauna e pela flora? Nada, é tudo conversa fiada”, indignava-se contra aqueles “que têm a distinta obrigação social, técnica-ambiental de protegê-las contra a ganância desenfreada de ricos depredadores”. E lamentava: “Que pena, ó minha mui querida Ilha de Nossa Senhora do Desterro! O homem que vive este século está obcecado pelo deus inferior que o está conduzindo por caminhos tão tortuosos que me fogem à imaginação, para poder comentar a direção certa da sua desaconselhável caminhada.”
Cascaes não viveu para ver alguns de seus piores temores confirmados, como o aterramento de mangues para sedimentar empreendimentos comerciais, as “favelas de ricos” (como se referia aos prédios de apartamentos) alterando radicalmente a paisagem da cidade e ruas sendo duplicadas para dar vazão ao trânsito crescente. Sua morte, em 1983, o impediu também de presenciar histórias que desafiam a lógica muito mais do que aquelas recolhidas em suas andanças pelos recônditos da ilha. Só que, desta vez, protagonizadas por gente letrada, urbana e vivíssima. Até demais.

Texto do jornalista Emerson Gasperin, publicado no jornal “O Catarina” nº 68, da Fundação Catarinense de Cultura. Retirado do sitio

 


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Vassoura Bruxólica

          

Bruxas dão nó na crina e no rabo do cavalo.

     

"E', neste mundo de Deus, há muitos mistérios e esta gente simples aqui da Ilha vive estas coisas quase como uma realidade. Meus lobisomens, bruxas, demônios e boitatás existem".

    

Sempre foi crença do povo hospitaleiro desta Ilha dos famosos bois-de-mamão que, na Sexta-Feira-Santa, não se deve tomar instrumentos de trabalho para usá-los, seja qual finalidade for. É também costume tradicional deste povo, descendentes de colonos açorianos, que, na Sexta-Feira-Santa, a partir de zero hora, devem banhar-se nas ondas do mar, levando consigo animais domésticos, para purificarem-se e protegerem-se de todos os males do corpo físico e espiritual.

As águas colhidas nesta hora servem para todo o tipo de cura. É a fé, longínqua dos tempos, aliada a superstição, ao medo e ao amor pela conservação do corpo físico, na cura dos males que atacam o homem em franca vivência espiritual e física com o seu Deus.

As forças atuantes de práticas religiosas freiam os instintos animalescos do homem, encaminhando-o, espiritualmente, para viver com bons modos junto com o seu Deus, com a cultura na sociedade e conseqüentemente com o seu próximo. Entrementes, sempre aparecem nos meandros desses cenários fantásticos, e outros moderados, pessoas que se arrojam contra os poderes divinos, maltratando esses conjuntos de sociedades freadoras, veículos insubstituíveis de abrandamento de sofrimentos que martirizam e açoitam a criatura humana. Um caso de desrespeito espiritual aconteceu ha muitos anos passados, lá pras bandas do sul da Ilha de Santa Catarina.

A Maria Vivina, moradora da praia dos Naufragados, fez uma aposta com a Carrica, de que, na Sexta-Feira-Santa daquele ano, ela tomaria uma vassoura e com a mesma, varreria o quintal de sua casa e, certeza tinha, nada lhe aconteceria de extraordinário. Apostaram um par de tamancos contra uma botina. E firmaram a promessa da aposta, casando-a.

Quando a Vivina deu a primeira varredela, a vassoura soltou-se de suas mãos “quinem” um relâmpago, metamorfoseou-se em bruxa, ganhou altura sobre o morro do Ribeirão da Ilha e desapareceu, num repente, no espaço sideral das alturas incomensuráveis da quimera.

A Maria Vivina caiu de joelhos no terreiro, rezou e pediu perdão aos ceus pelo ato impensado que havia cometido contra as ordens divinas, chorando copiosamente. A Carrica abraçou-se com ela e ambas choraram e sentiram o amargo do néctar da desobediência humana. 

Nenhuma das duas era bruxa, porque a vassoura, que e um instrumento de montaria de bruxas, foi embora, viajar pelo espaço sideral, sozinha.

Oh! Minha querida Ilha de Santa Catarina de Alexandria, és a graciosa sereia que repousa sobre brancas areias de cômodos errantes, sambaquis seculares, banhada pelas ondas acasteladas do oceano, perfumada pela brisa acariciante dos ventos e enxuta com as toalhas felpudas dos raios solares que beijam calorosamente seu corpo mitológico.

          

              


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As Bruxas e o Noivo

 

Procissão para a pesca da baleia.

       

Esta história, que recriei, foi contada dentro de um rancho de canoas na praia do Jurerê, pelo pescador Amaro, numa das vezes que eu estive consertando malhas de redes de pescarias com eles.
Viveu naquelas redondezas, há muitos anos passados, um moço muito feio, com o nome de Frumenço da Leocada. Era tão feio, mas tão[feio], que custou para encontrar uma deusa que o aceitasse como esposo. Todas as mulheres o rejeitavam e até fugiam de conversar com [ele] ou mesmo até [de] olhá-lo. Ele sentia-se muito triste, pois nem o rapazes do seu lugar o queriam como companheiro de passeio. Havia uns ditos a boca pequena, de que ele era lobisome[m], e até boca[s] sujas diziam que também ele era boitatá. Os donos de pescaria não o aceitavam para trabalhar no puxamento de redes de arrastar, pescar com espinhéis ou tarrafas porque viam na feiúra dele um mal de azar que podia atrapalhar as suas profissões. Nem no trabalho roceiro o coitado era aceito.
A mãe dele vivia xingando toda gente que guardava tais preconceitos físicos e qualidades maldosas sobrenaturais contra o filho.
Mas, como tudo [o] que nesta vida enfadonha tem o seu dia, ele também foi aquinhoado com o seu.
A Leocada era mãe descolada e tinha um irmão que há muitos anos havia ido embora pelos aí à procura de encontrar um meio de ganhar o pão de cada dia, com menos penúria e mais farto, porque o que ganhava na pesca nunca dava para cobrir as despesas necessárias para a alimentação da fam
ília.
É verdade que a mulher ajudava muito, cuidando da roça de mandioca, feijão, batata, aipim, milho e mais alguns outros serviços que prestava aos vizinhos que moravam muito distante[s] da casa dele. Ela sempre era chamada para raspar mandioca, peineirar massa de mandioca e fornear. Forneava uma carrada de mandioca pra ganhar duzentos réis, raspava uma carrada de mandioca e ganhava duzentos réis. É verdade que sempre ganhava um pouco de farinha, beijus, lá uma vez por outra um pedaço de carne de porco uma morcilha, um pouco de banha quando ajudava a matar o porco e a desmanchá-lo.
Casado há dez anos e já com três filhos, porque a riqueza que Deus dá aos pobres são os filhos, [seu marido] sempre pensou em colocar os filhos na escola, mas não podia porque só em Sant'Antonho é que havia uma escola. Ele não sabia ler nem escrever, como também a mulher.
Num lugar longe aí pra fora, ele conseguiu um emprego e levou a família.
Havia uns dez anos ou mais que ele não retornara à sua terra natal, embora a saudade o convidasse todos os dias e com insistência. Quando conseguiu arranjar um pouco de dinheiro de economias feitas ajudado pela mulher, voltou a rever a sua terra, pois havia deixado a sua casa e um pouco da terra aos cuidados da Leocada e do sobrinho, que já era crescido quando ele foi embora.
Depois de muitas conversas e contraconversas, ficou combinado que Frumenço iria embora com ele, pois lá ganharia um emprego com facilidade para manter-se e ajudar a Leocada. O rapaz aceitou a proposta do tio; embora contra a vontade da mãe, partiram.
Lá na terra alheia foi feliz, pois até ganhou dinheiro que deu para comprar uma casa. E daí já pensara em casamento enquanto estava moço por que sabia que era feio, e feio e velho, falava para os seus botões, é rejeitado por toda mulher casadoira.
Pelas festas de São João, um colega de trabalho dele convidou-o para assistir [a] uma alumiação do Santo citado, que ficava a uns dois quilômetros de distância da casa dele. Aceitou o convite e foram até lá.
Como a nossa vida tem seus caprichos de surpresas guardadas para a ocasião certa e precisa, ele encontrou-se com uma velha com duas filhas que estavam assistindo à alumiação e que puxaram conversa com ele.
Elas indagaram o nome dele, onde morava e trabalhava, se era casado e outros ditos. Ele também indagou tudinho da vida delas, os nomes - que até o colega dele, que sabia ler e escrever, anotou num pedaço de papel que trazia no bolso do paletó - onde moravam e mais mimos. Depois ele falou pra elas que possuía uma casa e pensava em se casar breve, pois morava com o tio e achava que o estava incomodando.
Embora ele houvesse notado nas duas moças um comportamento muito desajustado, uns corpos meio disforme[s], com ombros muito largos e quadris estreito[s], um buço de furar manta de tear manual, fala ro[u]quenha, os buracos do nariz entupidos de cabelo grosso, simpatizou muito com uma que usava o chamador de Maria e que era conhecida pelo povo do lugar como Maria Quebra-Pinico. A outra era conhecida como Rosa de Catacumba, e a velha como Rafaela Pé-de-Ganso.
O povo do lugar não mantinha qualquer afeição pelas três mulheres, que até quase não tinham contato com as pessoas da vizinhança.
Moravam numa casa de três janelas de frente e que ficava bem na beira do caminho. Quase que passavam o dia inteiro empoleiradas nas janelas com as vergonhas atiradas em cima da soleira, dando de mamar às descomposturas que recebiam das pessoas que escarneciam na sua passagem por ali.
Algumas pessoas iam ao inspetor delegado do quarteirão apresentar queixa contra as atitudes deseducadas delas. A autoridade atendia à queixa, mas relaxava. Sim, porque ele, inspetor delegado, sabia que elas eram bruxas e com mulheres bruxas não se brinca nem de pata-cega.
O homem possuía três crianças pequenas, que nos pescoços das quais ele mantinha um brebe com nove dentes de alho vestidos com cascas, um brebe pano vermelho e uma figa-de-guiné contra a ação bruxólica delas; vasos com arruda, comigo-ninguém-pode, espada de São Jorge, imbé, em todos os compartimentos de sua casa.
Se elas, quando conversavam com o Frumenço, o escarneceram, isto eu não afirmo, porque quem ama fica cego, e o amor cego não enxerga.
Elas eram muito difíceis de dialogar com as pessoas, não ofereciam oportunidade porque viviam sempre com as cancelas da bocarrona escancaradas, qui nem porta de taverna, rindo e debochando de tudo e de todos.
Na volta para casa, o Frumenço revelou ao colega que estava apaixonado pela Maria e que iria pensar em pedi-la em casamento.
O colega, que já conhecia um pouco da vida pregressa delas, pôs o Fumenço a par de tudo, até do apelido da Maria.
O feio apaixonado não pensava em outra coisa a não ser em Maria. No trabalho, nas refeições, no sono, enfim, estava preso na gaiola de cana da Maria. Pensou em remeter-lhe uma carta, depois um bilhete, em ir na casa dela e apresentar-lhe como namorado. E assim pensando, veio-lhe a idéia de mandar o coração de Pão-por-Deus para ela.
Acertou cem por cento na loteria. A tia sabia fazer o coração de Pão-por-Deus muito bem feito e logo ele pediu-lhe que fizesse um. Comprou um envelope, colocou o coração Pão-por-Deus dentro com uma dedicatória toda especial para ela:


Lá vai o meu coração
Nas asas de um tico-tico
Pra pedir o Pão-por-Deus
À Maria do Quebra-Pinico.


Chamou um garoto, encomendou-lhe a entrega da carta com o coração e recomendou-lhe que esperasse pela resposta.
As três mulheres ficaram possessas, principalmente a velha, que achou o Frumenço o diabo mais feio que apareceu neste mundo tresloucado, maduro e azedo, depois que um conhecido leu a dedicatória que o atrevido mandou para a filha, escrita no coração Pão-por-Deus.
A velha chamou o garoto entregador da carta, pediu-lhe para dizer ao apaixonado que voltasse à casa delas, que seria bem recebido, por que a Maria havia se agradado muito dele, para ser seu futuro marido. Não mandou resposta escrita porque nenhuma das três bruxas sabia ler nem escrever.
Dentro daquela noite, a velha urdiu um plano diabólico bem engendrado e apresentou ao Lúcifer. Ele aprovou, e elas colocaram em ação. Combinaram que, no dia seguinte, quando o feio apaixonado voltasse, o receberiam com muita gentileza bruxólica, para que a Maria Quebra-Pinico enjambrasse um noivado simbólico com ele, porque assim ela poderia vingar-se do apelido feio que ele a tratou quando enviou-lhe o coração Pão-por-Deus.
O Frumenço preparou-se bem, tomou o primeiro banho corporal de toda a sua vida no tanque de lavar roupa, pôs por riba no esqueleto camisa, ceroula, calça, paletó e sapatos novos, untou bem os cabelos com brilhantina, areou os dentes com carvão moído, engraxou os sapatos com carvão e banha de porco, raspou a barba e se mandou para a casa das bruxas.
Elas o receberam na janela e não o convidaram para entrar. Enquanto Maria Quebra-Pinico dialogava com ele, a Rafaela Pé-de-Ganso e a Rosa de Catacumba estava[m] sentadas no assoalho da casa, debaixo das janelas que estava[m] abertas, escutando o diálogo entre o feio e a Quebra-Pinico.

- Pos é! - falava a Quebra-Pinico para o Frumenço. Eu me agradê muito de ti pra mó de sês mo marido. Si qués aceitá, eu quero tomém, pro mó de que a minha mãi acha que eu e a Rosa já temo no ponto certo de arrumá marido pra vivê sem as custa dela. Eu te acho um rapaz munto alegante e bunito. Home ansim qui nem tu não é quarqué moça casadoira que cunsegue arrumá. Nós três gustemo munto, mas munto memo, do bilhete de Pão-por-Deus que tu mandaste pra mim. Eu não mandê tu entrá pra dentro de casa, proque aqui neste lugá não é usuáli fazê isso. Esse povo daqui são muito arreparadô da vivença dos otro. Só pricuro memo é de fazê o máli pro seu próximo.
- Maria! - falou o Frumenço. - Eu já tenho casa ca mobilia toda dentro; agora só farta memo é a muié, mó de compretá o resto. A casa é minha memo; custô o meu suóri no trabalho do dia-a-dia. Por isso eu quero arrumá uma muié que seje bem trabaiadera, boazinha, que não viva pindungando na casa dos vizinho, que saiba fazê o cumê, lavá ropa suja, fazê sabão em casa, custurá, trabaiá na roça. Enfim, que saiba ajudá o marido. É isso mesmo.
Depois de muito conversar sobre o casório, despediu-se da Quebra-Pinico e foi-se embora.

A Rosa de Catacumba e [a] velha Rafaela Pé-de-Ganso não apareceram, mas escutaram perfeitamente o diálogo que a Quebra-Pinico alimentou com o Frumenço, que até chegaram a firmarem noivado entre os dois.
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Bem, agora sim - falou a velha para as duas filhas - o mo plano que arquitetê foi confrimado e aprovado pelo nosso chefe, o Bode Cheiroso. Amanhã o feio vai drumi na casa dele. Nós vambo pidi o encanto pelo avesso: em vez de sê por riba do silvado é por debaixo; em vez de sê por debaixo do teiado, é por riba. (Isto significa o seguinte: Quando as bruxas vão se encantar, isto é, pedir o estado de metamorfose ao Capeta, elas pronunciam em coro as seguintes palavras: por cima dos silvados e por debaixo dos telhados, vamos com mil diabos. - Voar por cima dos silvados significa alcançar alturas incomensuráveis, países distantes em frações de segundos, judiar com animais e homens, praticar toda e quaisquer espécies de estrepolias que engrandeça[m] o reino do mal.) - Voar por debaixo dos telhados significa ganhar poderes diabólicos para chupar o sangue de crianças inocentes e persegui-las até dá-las à sepultura, entrar pelo buracos de fechaduras de portas de casa de família, invadir os quartos, abusar das armadilhas exorcizadas que lhes preparam para apanhá-las e escarnecer dos poderes espirituais, das benzeduras, brebes e outros).
Daí nós poisemo in riba do teiado, quebremo teia e joguemo os caco por riba dele; inchemo os pote de mijo; sujemo dentro das vasila de botá cumê; espaiemo sujidade de bicho de tudo que é culidade dentro da casa, dentro do poço dele tirá água pra bebê; esvaziemos as marcela dos brabicero, tiremo o capim do corchão e joguemo no terreno dele, arranquemo todas as pranta do quintáli e da roça, e garremo pra casa ente do galo preto cantá, proque já temo vingada do distratre que ele mandou pra ti naquele biiete sem-vregonha.
(O canto do galo preto e na hora certa é sinal de firmeza e, portanto, anula o fado bruxólico no momento em que o galo o manda para o éter).
Mas aconteceu que o Frumenço se acordou no exato momento em que elas iam se retirar. Ficou impressionado com o barulho que elas estavam fazendo in riba no telhado da casa, e como pensou em assombração, colocou na boca, atravessada, uma faca de ponta.
Não houve dúvidas: fulminou o estado fadólico, e as três mulheres se desencantaram.
Abriu a porta e deparou com um quadro estarrecedor in riba da casa dele: três mulheres nuas com as vergonhas expostas à natureza, uma já gasta pelo consumo que o defunto marido efetuou nela - a velha - e as outras duas à espera de consumidores, a Maria e a Rosa.
O Frumenço apanhou uma escada que estava encostada numa laranjeira - nem lembrou-se que estava em trajes menores, camisa e ceroula de pano de algodão - e colocou no beirado do telhado para elas descerem.
As três cobriram as duas vergonhas de cima com o cabelo, que usavam comprido, e a debaixo, com as mãos espalmadas, assim qui nem a nossa mãe Eva deveria ter feito no paraíso quando passava por perto do Adão, antes de a maçã entrar em pânico gerador.
O Frumenço estava beirando os trinta anos e nunca havia posto os olhos in riba de um corpo humano feminino. Nem naquela noite, pois elas se cobriram!
Elas estavam vingadas e o noivado desmanchado.
É isto mesmo, quem joga pedra no telhado da casa de vizinho fica sujeito a ter o seu quebrado. (1964).

   

    


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As Bruxas Roubam a Lancha Baleeira de um Pescador da Ilha

     

Viagem bruxólica à Índia.

      

Contou-me um narrador de estórias de assombração que, na Costa da Lagoa da Conceição da Ilha de Santa Catarina, em anos que já vão longe de nós, morou um pescador que possuía várias embarcações para os serviços de pesca, entre as quais, também uma lancha baleeira.
Balduíno da Prudência era o nome do pescador. Ele era um homem muito trabalhador e cuidadoso. Tratava com carinho suas embarcações e equipamentos de pesca, e mantinha o rancho onde guardava sempre fechado à chave.
Na manhã de uma sexta-feira, quando ele, acompanhado pelos seus camaradas, dirigindo-se para o rancho a fim de retirar as embarcações para ir à pescaria, encontrou a lancha molhada e com muita areia de praia espalhada sobre o fundo, o que causou grande surpresa a toda a tripulação, pois a haviam deixado enxuta e limpa, na véspera, ao recolherem-na para o interior do rancho.
Comentando e analisando o fato, eles chegaram à conclusão de que a maré daquela noite havia sido alta e, pela razão citada, não podiam encontrar nenhuma pegada na praia e, portanto, não havia vestígio para afirmarem que alguém havia retirado a lancha do rancho, mesmo porque as portas estavam fechadas à chave e, as quais encontravam-se em poder de seu dono. Por via das dúvidas, daquele dia em diante, o pescador passou a observar com muita atenção o estado da embarcação nas manhãs de sextas-feiras. Obteve resposta para seu matutamento e desconfiança, quando, na manhã, ao abrir o rancho para vistoriar sua embarcação, encontrou-a molhada e muito suja de areia.
Sabedor que era de que, naquele ano e naquele lugar, Lagoa da Conceição, as endiabradas e perigosas mulheres bruxas vinham desenvolvendo grandes atividades diabólicas contra as inocentes criancinhas da comunidade, chupando-lhes o sangue até dá-las à sepultura, zombando sarcasticamente das fortes rezas e bem urdidas armadilhas que se lhes preparavam. Toda a tripulação foi unânime em concordar com a desconfiança do velho pescador: aquele serviço só podia ser obra das temíveis mulheres bruxas.
Homem intrépido que era, acostumado a enfrentar fortes tempestades, frio, fome, sede e outras sensações diversas diariamente em sua árdua profissão de pescador artesanal, não titubeou em enfrentar mais um estranho caso que o destino lhe colocou frente a frente, como um desafio à sua coragem de indomável homem do mar. Sempre respeitou as coisas do outro mundo, nunca lhas tocou nem de leve com escárnio ou zombaria e, também, nunca duvidou da sua existência e atividades aqui neste mundo de sofrimentos e tributações várias.
Matutando, certo dia, ocorreu-lhe uma idéia de traçar um plano bem urdido para poder certificar-se verdadeiramente, se, de fato, eram as terríveis mulheres bruxas as autoras responsáveis por aqueles embustes que tanto o preocupavam. Traçou um plano tecnicamente muito louvável, que foi o seguinte: colocou uma taramela na porta da gaiuta da lancha, pela parte de dentro e, ao entardecer de uma sexta-feira, meteu-se dentro dela, fechou a porta por dentro com a taramela e aguardou o resultado dos acontecimentos.
Não tardou, havia passado alguns minutos, ele ouviu vozes estranhas de mulheres dentro do rancho e viu quando a porta foi aberta e a sua lancha arrastada para o mar, sobre as estivas que ele usava. Na porta da gaiuta ele havia feito um pequeno furo, de onde espiou e viu um, quadro horrível e descomunal. Nunca imaginado por ele, nem por nenhuma criatura humana. Viu, dentro de sua lancha, uma caterva de mulheres nuas de fisionomias horrendas, corpo disformes e esqueléticos, mãos com unhas pontiagudas, enfim, um quadro dantesco, sinistro e demoníaco.
A mulher bruxa que ocupou o lugar de patrão sobre o castelo de popa da lancha apresentava o corpo coberto de escamas negras e eriçadas, as unhas das mãos e dos pés eram feitas lanças e espadas. Os cabelos eram muito compridos e caíam pela popa da lancha espalhando-se sobre o mar, deixando no seu rastro um fogo de ardentia, de comprimento incalculável. Dos olhos, chamejavam dois fachos de luz que clareavam a frente da embarcação 8 grande distância. Cada banco da lancha estava ocupado por um monstro bruxólico que manejava o remo de voga. Quando iniciaram a viagem mar adentro, a misteriosa e agressiva bruxa-velha-chefe. que estava comandando a lancha, soltava gritos lancinantes enfurecidos. Esbravejava, pronunciando palavras de alerta às suas comandadas de que, dentro da embarcação, havia presença de um corpo humano, em estado natural:
- Aqui nesta embarcação está cheirando a sangue real!
A bruxa que estava sentada no banco da popa da lancha junto da gaiuta onde o pescador estava escondido, era comadre e prima dele. Ela sabia da presença dele ali, através do faro fadórico sobrenatural. Para protegê-la, todas as vezes que a temível bruxa-patrão esbravejava "está cheirando a sangue real nesta embarcação," ela respondia com todo vigor bruxólico para as suas colegas de sina demoníaca:
- Remem, suas éguas, e que cada remada avance uma légua, pois o galo branco já cantou e o amarelo já cacarejou.
Esta advertência para as colegas significava que deviam se esforçar para chegar ao lugar de destino e retornar sem serem molestadas pelo canto do galo preto, que significava, para a sina delas, o desencanto total. E assim, vencendo léguas por segundo em cada remada que davam, aportaram no lugar que haviam escolhido para levarem a cabo as suas sinistras diabruras e, dentro de pouco tempo, retornarem à lancha e viajarem em direção ao porto de saída. Assim, cumprindo à risca os projetos em questão, arquitetados, e muito bem arquitetados, porque os planos bruxólicos são autênticos, ao chegarem na praia desembarcaram, puxaram a lancha até meia maré e desapareceram.
O pescador, de dentro de seu esconderijo, observava com toda atenção e cuidado os movimentos delas, porém não conhecia os seus linguajares. verificando que estava livre de qualquer cilada por parte delas, abriu a porta da gaiuta, saltou de dentro da lancha, pôs olho de observação em volta do local e, com muita cautela, colocou um punhado de areia daquela praia dentro do bolso, colheu um ramo de rosas de um jardim de uma casa próxima dali e, rapidamente, recolheu-se ao seu esconderijo. Nem era passada uma fração de segundos, as endiabradas se apossaram novamente da lancha, ocupando seus devidos lugares e a soltaram mar afora.
Durante toda a viagem de ida e volta, a bruxa-patrão advertia, insistentemente, as suas comandadas, de que ela tinha plena certeza bruxólica de que, dentro daquela embarcação, havia presença de sangue real. A comadre do pescador, a bruxa que sabia da sua presença ali dentro da gaiuta, acompanhou a saída dele lá na praia onde desembarcaram e viu quando ele apanhou a areia e as flores. Durante toda a viagem de volta, quando a sua chefe esbravejava contra a presença de sangue real, ela a interrompia com muita segurança e habilidade: Remem, suas éguas, e que cada remada avance uma légua, pois os galos brancos e os amarelos já cantaram e os pretos já miúdaram.
E assim, com esses argumentos, ela defendeu o seu compadre e parente das unhas daquelas terríveis mulheres bruxas, mesmo porque também não podiam perder tempo à procura do sangue do pescador que se achava dentro da gaiuta. Ela sabia tão bem quanto todas as lições bruxólicas que haviam aprendido, quando calouras, de que, se fossem colhidas em estado fadórico pelo canto do galo preto, se desencantariam dentro da lancha, em pleno mar, e o pescador reconheceria todas quando apresentassem a sua nudez humana. E continuaram a viagem esbravejando, remando, desafiando a velocidade do tempo, até que chegaram ao porto de partida na Ilha de Santa Catarina, na Lagoa da Conceição.
Desembarcaram, abriram o rancho, recolheram a lancha dentro dele e desapareceram, num pealo, dos olhos do pescador.
O pescador, logo que se viu livre delas, apanhou a areia e as rosas que recolheu no porto onde elas o levaram e retirou-se para sua casa. No dia seguinte, ele tomou a areia e as rosas e passou a mostrá-la a toda gente da comunidade, na intenção de que alguém adivinhasse ou acertasse a procedência delas ou sua terra de origem. Não encontrou pessoa alguma que conseguisse dar uma opinião aproximada, pois nem ele mesmo era capaz de calcular onde esteve, levado por elas.
Certo dia, quando ele menos esperava, a bruxa, sua comadre apareceu em casa dele para visitar o afilhado. Ela mantinha uma amizade muito forte e íntima com uma de sua filhas, a Gracinda, que era uma moça casadoira e muito religiosa. Conversa vai e conversa vem, ele chegou até a comentar com ela o fato desagradável que com ele acontecera e que muito o impressionara.
- Comadre, eu estive num lugar muito longe, dentro da noite, e, às apalpadelas, dentro da escuridão, consegui recolher um punhado de areia e umas rosas, porém desconheço o lugar de sua origem. Já as mostrei a muita gente e ninguém, assim como eu mesmo, conseguiu identificá-las. - Quando ela colocou os olhos por riba da areia e das rosas, suas faces enrubesceram, seus olhos se esgazearam e sua fala emudeceu. Recuperando-se, ela afirmou - Compadre, a terra de origem deste punhado de areia e deste ramalhete de rosas é a Índia. Eu aprendi na minha escola de iniciação à bruxaria que lá, nos Açores, na terra dos nossos antepassados, as bruxas também costumavam roubar embarcações e fazerem estas viagens extraordinárias entre as ilhas e a Índia, em escassos minutos marcados pelos relógios do tempo. Também aqui as mulheres continuadoras dos elementos diabólicos do reino de Satanás, cujas chefes enfeixam em suas mãos os poderes emanados Dele, praticam as mesmas peripécias. Eu, compadre, afirmo-lhe com convicção certa de que as suas vidas, naqueles momentos, estiveram guardadas no repositório das minhas mãos. A bruxa-chefe, que comandava a embarcação, tinha plena certeza da presença real de sangue humano dentro da lancha e, de vez em quando, ela chamava a atenção de suas comandadas para que investigassem onde estava o elemento que o possuía. Mas eu procurei sempre com muita altivez e precisão bruxólica, atraí-las para pontos distantes que podiam atrapalhar nossa viagem, quais eram os cantares dos galos. Hoje o senhor vai saber com precisão que, dentro da sua embarcação, fazendo aquela viagem bruxólica entre.a Ilha de Santa Catarina e a Índia, estavam as mulheres bruxas mais respeitáveis, misteriosas, prepotentes e malignas que vivem o reino rubro do rei Anjo Lúcifer. Se o senhor não foi trucidado por elas, agradeça à minha presença na sua lancha, metamorfoseada em bruxa, sentada no banco de popa na frente da gaiuta, onde se achava escondido.
Ela declarou-se bruxa para o compadre e acusou-se de estar chupando o sangue do filho dele, seu próprio afilhado de batismo, e denunciou todas as demais, inclusive a chefe do bando que encetara aquela viagem.
O velho pescador ficou atarantado e, num repente, correu até a cozinha, apanhou um rabo de tatu que estava no fumeiro, aplicou-lhe uma boa surra de repreensão por riba do corpo e salgou as feridas do desencanto com sal e pimenta, do desespero que ele via no amargar do empresamento do seu filhinho.
Muitas. vezes - pensou consigo mesmo o audaz pescador - escutei conversas em ajuntamento de pessoas, no inverno, aquecendo-se ao pé do fogo de fogão de trempo de ferro, em cozinhas de assoalho de chão batido, de que as mulheres bruxas açorianas eram temidas pelo povo das ilhas, devido às práticas de suas más-artes.
"Depois da tremenda refrega demoníaca que ganhei, sem atinar porque carga de pecado cometido, de uma coisa tenho plena certeza: quem me defendeu das unhas carniceiras daquelas megeras éguas bruxas foi o meu breve milagroso, que carrego sobre o peito, desde o tempo da minha bisavó Lucreça, que era uma exímia benzedeira curandeira e que fez parte das levas de colonos que viajaram amontoados dentro de porões fétidos de barcos veleiros, na santa esperança de se radicarem aqui nesta Ilha de Santa Catarina e viverem melhores dias na santa paz do senhor, já que a sua terra natal só podia oferecer-lhes misérias econômicas, minguadas e escassas.
   

  


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A Bruxa Metamorfoseou o Sapato

      

    

O Sabiano da Ponta das Canas, tinha uma filhinha embruxada, que até metia dó à própria bruxa que a vinha sacrificando há muitos meses. Aconselhado por amigos, ele passou a tratar a criança com um benzedor que morava na praia dos Ingleses.

O benzedor chamava-se Sotero das Capivaras e era um famoso curador de doenças dos outros mundos. Mas o tratamento que ele vinha aplicando para a criança do Sabiano não estava a produzir resultados satisfatórios.

O dia marcado para ele voltar a casa do benzedor foi uma sexta-feira.

De manhã bem cedo, o Sabiano levantou-se arrumou o gado no potreiro, tomou café, lavou os pés na gamela promode os havia sujado, enxugou-os, e pediu à mulher que lhe apanhasse os sapatos que estavam pendurados nos caibrosdo telhado da varanda.

A mulher dele, a Sotera, foi apanhá-los, mas só encontrou o sapato do pé direito, o outro não estava.

Procuraram em toda a casa, mas cuáli nada, não tava em nenhum lugar.

Pensou consigo: deve ter sido o cumpadre Zé Maratato.

Aquilo anda sempre pricurando coisas mode fazer das suas...

O tempo tá seco e o mihió memo prá mode a gente caminhá é descalço.

Apanhou uma cesta tecida de folhas de tabua, botou um vidro branco dentro e rasgou os pés no caminho, na direção dos rios das Capiras dos Inglêses.

Consultou o doutro curandeiro, apanhou o remédio e mandou-se de volta a caminho de casa.

Já havia caminhado um bom pedaço, quando algo chamoulhe a atenção.

Olhou na direção da Ilha Mata Fome, e se deparou com um quadro curioso e horrível: uma bruxa passando pelo mar com o sapato dele transformado num barco, com uma vela bem enfunasa quiném lancha baleeira, passeando mui calmamente.

Apavorado com o que vira, retornou a casa do benzedor e narrou-lhe o fato.

O doutro benzedor apanhou um dente de alho com casca e mandou que ele o colocasse na boca e voltasse descançado para casa. Quanto à bruxa, ele a faria perder o estado fadórico, e consequintemente, o encanto, dentro de poucos minutos.

Ele atendeu a ordem do benzedor e calçou os pés no areião do caminho, de volta prá casa.

Quando chegou no terreiro, a Sotera já estava com a notícia bruxólica na pontinha da língua quase escapulindo.

_ "Sabiano, o teu sapato apodreceu nos caibros da varanda, molhado, sujo de areia da praia, e com um furo bem inrriba do bico."

_ Logo vi que aquela égua ia dar-me prejuízo.

Ela furou o meu sapato prá mode meter o mastro da vela.

  


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Balanço Bruxólico

 

  

"Contou-me a seguinte estória acontecida na Ilha de Santa Catarina - Ilha dos trezentos engenhos de fabricar farinha de mandioca - o Sr. José Silveira residente no Canto da Lagoa da Conceição: que seus antepassados fizeram uma derrubada no Morro da Lagoa prá mode fazerem uma plantação de mandioca e mihio. Aconteceu - continuou o narrador - que na margem da roça derrubaram um grande tanheiro, bem vazado, que ficou caído ao pé de uma grande árvore que tinha em si um cipó enroscado e que de lá do alto das ramagens dixava cair um grande seio em forma de balanço.

Quando começaram a fazer a plantação, sentiram cheiro de fumaça de querosene, que saía de dentro do vazado do tanheiro, e também porque ali faziam a comida, notaram que as panelas amanheciam sujas e as ferramentas atiradas pelo chão, como se alguém dentro da noite lá aparecesse somente para fazer malvadezas.

Desconfiados com a situação, passaram a vigiar o lugar e constataram que dentro da noite a ramagem da árvore que tinha o balanço, era tomado por luzes de várias formas e tamanhos e que se movimentavam para direções diversas.

Encorajados por uma mulher benzedeira muito entendida e poderosa destas coisas dos outros mundos, subiram o morro protegidos com bentinhos, breves, figas, mostarda, arruda, cisco das três marés, água benta, vela benta, folhas de guiné, que são verdadeiras armas contra o poder diabólico destes trasgos dos infernos.

O que encontraram e viram era horripilante para os olhos humanos. As árvores tinham na base formas de pés de vários animais, lamparinas dançavam metamorfoseadas em forma humana; na boca do tanheiro derrubado estava um bicho em forma de morcego; no alto da árvore a canga do carro de boi estava pousada, ao lado de uma lamparina; um pouco abaixo uma coruja com cara de roda de carro de boi enfeitada com um par de antolhos; e no centro de tudo, de toda fantasmogênese uma bruxa se balançava no cipó fantasiada de cabeça de boi com pernas traseiras e mãos dianteiras, também de boi, e sendo a cabeça uma roda de carro de boi.

Todas as pedras que ali viviam estavam metamorfoseadas em atitude de exorcismo.

A coruja que aparece metamorfoseada no meio da árvore, se destaca como um observador cultural, deste tipo de cultura que o Povo antigo conduz em sua bagagem tradicional ..."              

    


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Mulheres Bruxas Atacando Cavalos

    

  

Foi do pensamento inculto do homem de argila humana crua, que nasceu as estórias de que cavalos galopeiam pelos ares, quando são atacados por mulheres bruxas em atividades extra-terrenas, para chupar-lhes o sangue.

Contam que no dia seguinte, os animais que foram atacados durante a noite, e que galopearam pelos espaços siderais, apresentam-se sangrando, e com nós indesatáveis nas crinas e nos rabos.

Apontam como responsáveis pelos atos demoníacos bruxólicos, mulheres de suas comunidades, que são magras, feias e sujas, e que apresentam um dente no céu estrelado da boca e falam grosso quénem homem gordo, nariz aquelino, etc.

Na ilha de Santa Catarina é muito comum o homem do interior cercar os ranchos ou estrebarias onde recolhem o seu gado, com redes de pescaria usadas, porque as bruxas também os chupam, acreditam, dentro da noite.

Hoje, no século vinte, a madame ciência afirma que quem faz os cavalos galoparem é o morcego, transmissor da raiva, não pelos ares, mas sim, campo a dentro.

  

Ora vejam, meus amigos,
Que nesta Ilha encantada,
Até bruxas são astronautas,
Que pilotam cavalhada.

 

Na bonita praia do Rapa,
De água azul e saborosa,
Elas entram de biquíni,
E saem cobertas de rosas.

   



O Fantástico na Ilha de Santa Catarina, Franklin Cascaes 

Florianópolis, Editora da UFSC, 1989.