Enquanto passa o cafezinho.


Nas minhas idas e vindas ao interior da Ilha, registrei conversas com moradores das diversas comunidades, os verdadeiros manezinhos da Ilha. 

Agora conheça mais um pouco deste personagem.


Trecho da entrevista do autor com a dona Valdeci Silva de Jesus (63) e seo Dalci Onório de Jesus (66), moradores na localidade de Barra do Sambaqui, ambos nascidos no interior da ilha. Prosa gravada em 12/07/01.


Foi ao início da noite, em torno das 8:30h, que chegamos na casa da dona Ciça, como é carinhosamente conhecida nas redondezas. Estavam eu e o amigo Edson "Bruxo" Silva no portão da casa da dona Ciça que quando nos viu no "terreiro" mandou-nos entrar.

Qual nosso espanto encontramos mais três pessoas: o Reginaldo, o Dorvalino e o Adércio, com viola e acordeão. Disseram que era comum reuniões como aquela, praticamente, todas as noites.

Cantadores eram comuns serem encontrados ensaiando ou simplesmente tocando juntos pelas noites à dentro, até que chegasse o cansaço da lida nos cafezais, ou engenhos de farinha e cana, tomando então o rumo para suas casas. As vezes, quilômetros de distância.

Muito bem recebidos naquela residência simples e agradável. Nela, em volta da mesa da cozinha, já devidamente apresentados e rapidamente ambientados, iniciamos a entrevista, objetivo da nossa visita.

Ao som de violão e acordeão, que entoavam cantigas regionais, começamos a conversar sobre a dança da ratoeira, muito comum entre os jovens e muito difundida na região e em toda a ilha.

Em seguida, dona Ciça nos contou da época - a mais de 50 anos atrás, quando da farinhada, coincidente à colheita do café, todos ficavam reunidos no engenho. Era ali, que se ouviam estórias de bruxas, lobisomens entre outros entes fantásticos da poranduba ilhéu.

Farinhada: Na época da safra, após colhida a mandioca era levada ao engenho. Era o início da atividade fabril mais conhecida na ilha, a produção de farinha ou a farinhada, que poderia envolver tanto a família como parte da comunidade. Era um processo demorado, levando muitos dias até ter o suficiente para consumir e comercializar a farinha e o polvilho, seu sub-produto. 

Diz dona Ciça que no engenho, além das brincadeiras de roda como a ratoeira e contos, também tinha o "jogo do capote", a dança da peneira, a do balaio, entre outras.

Jogo do Capote: No engenho, em época de farinhada, durante a raspagem da mandioca, a moça raspava somente a metade do tubérculo comestível deixando perceber o seu pretendente que era quem recebia.

Seo Dalci indagado sobre a farra do boi quando era praticada nos tempos de sua mocidade em Vagem Pequena, nos relatou que o caminhão soltava os bois na estrada e não era tão maltratado como hoje. Naquele tempo, conta ele, as pessoas corriam junto ao boi até cansá-lo. Quando isso ocorria, o boi extasiado, era trocado por outro. Sendo que, ao final da debandada reuniam-se todos e ai sim, abatiam os animais e repartiam suas cotas.

Ao contrário dos tempos de outrora, atualmente, o boi é cruelmente maltratado até a morte. Ele, entre outras atrocidades é espancado até suas forças esgotarem, e, todo ensangüentado luta pelo resto da vida que lhe sobra. Não resistindo. Morre.

Na opinião do seo Dalci, irritado desabafa: ...hoje já virou bagunça, ...brincadeira de vagabundo, ...de quem não tem nada para fazer, ...não é brincar com o pobre bicho e sim dar pauladas nele, ...e o pior é que tem gente que grita e esbraveja, xinga e fala palavrões, ... não respeitam ninguém. O que percebi é da sua decepção com os jovens farristas que modificaram o sentido da brincadeira tornando-a um ato de violência.

Perguntei para o casal sobre como era a vida quando crianças, as dificuldades e problemas daquela época comparados ao dias de hoje.

Dona Ciça, nasceu e cresceu em Sambaqui e me relatou que quando criança, muito pobre, ajudava o pai na lida diária desde os seus seis ou sete anos tanto nas roças de mandioca, como nos cafezais, ou no engenho. Mas apesar da vida difícil, trabalhando desde pequenina, tinha seus momentos de contentamento, pois como era de família numerosa, vivia sempre rodeada de outras crianças. Não freqüentava escola com assiduidade pois as meninas desde criança eram criadas para tornarem-se, se casadas, donas de casa. 

Quanto ao seo Dalci, que nasceu na Vagem Pequena e cresceu lá, não foi muito diferente. Por muitas vezes não teve o que comer. Foi lavrador e pescador, hoje aposentado pelo Estado, vive do pouco que recebe como aposentadoria.

Perguntei se conheciam alguma estória de bruxas e lobisomens? Dona Ciça, com cuidados, me disse que havia uma senhora nas redondezas que era bruxa, e que sua aparência e modos acusavam-na como tal. Era de aparência debilitada e ficava sempre "acrocada" pelo quintal. Vive até hoje na região.

Bruxa: Ente fantástico da poranduba ilhéu. Tendo capacidade de transformar-se em qualquer inseto ou animal de pequeno porte para penetrar na casa das pessoas e por mau-olhado nas crianças deixando-as doentes ou debilitadas. 

Fizemos um intervalo para tomar um aparadinho (café) e comer umas broas caseiras que dona Ciça já tinha preparado. Aproveitei para conhecer melhor a casa  onde encontrei um fogão à lenha e um forno para pão (no quintal).

Retornando, conversamos mais um pouco sobre a manutenção do folclore naquela região. Dona Ciça deixou transparecer sua indignação pela comunidade jovem não querer dar continuidade a estas manifestações culturais. Disse: ...o jovem não quer mais saber de participar de um boi-de-mamão ou de um pau-de-fita ou dançar a ratoeira, ...hoje quem faz isso somos nós, ...se a gente morre, ninguém vai continuar o nosso trabalho.

Bruxa: Ente fantástico da poranduba ilhéu. Tendo capacidade de transformar-se em qualquer inseto ou animal de pequeno porte para penetrar na casa das pessoas e por mau-olhado nas crianças.

Finalizamos a entrevista, agradecemos a hospitalidade e saímos dali pelas 23:00h com intenção de retornar.

    

   


Trecho da entrevista do autor com Nilo, seo Cadinho e Amaro, moradores na localidade de João Paulo (Saco Grande). Prosa gravada em 22/04/03.

   

Chegamos eu e o amigo "bruxo da Ilha" ao local da prosa, na rua da Cantareira, na casa do seo Cadinho, o barbeiro mais tradicional da localidade. Estavam lá também, o Nilo e o Bom Amaro...