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Eles Vinham a Passeio ou a Trabalho?


Nos parece que a visita de estrangeiros à Ilha, já não é de hoje. A começar pelo Português Gonçalo Coelho (1503), D. Nuno Manoel e Cristóbal de Haro (1514), Juan Dias de Solis (1516), Sebastian Caboto (1526), Gonçalo de Mendonza (1530), Cabeza de Vaca (1541), entre outros. Com o passar do tempo, outros navegadores, como também piratas e corsários, fizeram da ilha seu porto seguro documentando-a detalhadamente. Lembrando que a partir de 18 de março de 1604 se proibira a vinda de estrangeiros para o Brasil.

 

Nesta seção destacamos algumas destas descrições coletadas dos diários de bordo destes navegadores. Muitos deles pesquisadores e cientistas naturais renomados. Observe, já naquela época, o que nossos ilustres visitantes comentavam sobre a Ilha.


 

Relato de um viajante

 

Amédée François Frézier, 1712  

 

 

Destacamos o documento deste autor por apresentar uma descrição bem detalhada da Ilha, sua geografia, fauna, flora, etc. Um estudo científico dos mais relevantes.

 

A Ilha de Santa Catarina se estende do norte ao sul desde os 27 graus 22" até os 27 graus 50". É uma floresta contínua de árvores verdes o ano inteiro, não se encontrando nela outros sítios praticáveis a não ser os desbravados em torno das habitações, isto é, 12 ou 15 sítios dispersos aqui e acolá a beira mar nas pequenas enseadas fronteiras à terra firme; os moradores que os ocupam são portugueses, uma parte de europeus fugitivos e alguns negros; vê-se também índios, alguns servindo voluntariamente os portugueses, outros que são aprisionados em guerra.

Embora não paguem tributo algum ao Rei de Portugal, são seus súditos e obedecem ao Governador ou Capitão que é nomeado para comandá-los em caso de guerra contra os inimigos da Europa e os índios do Brasil, com os quais andam quase sempre em guerra; de sorte que quando penetram na terra firme, que não é menos tomada de florestas que a ilha, não ousam fazê-lo em grupos menores de 30 ou 40 homens juntos e bem armados. Este Capitão, cujo comando não passa ordinariamente de três anos, depende do Governador da Lagoa, pequena vila distante da ilha 12 léguas ao SSO. Em seu distrito havia então 147 brancos, alguns índios e negros libertos, dos quais uma parte acha-se dispersa pela orla da terra firme. Suas armas comuns são os facões de caça, flechas e machados; possuem poucas espingardas e raramente pólvora; estão, no entanto, suficientemente defendidos pelas matas onde uma infinidade de espinheiros de toda a espécie as torna quase que impenetráveis, de sorte que, tendo sempre a retirada segura e pouco equipamento a transportar, vivem tranqüilamente, sem medo de verem suas riquezas arrebatadas.

Na verdade, encontram-se eles em tão grande carência de todas as comodidades da vida que, em troca dos viveres que traziam a nós não aceitavam dinheiro, dando mais importância a um pedaço de pano ou fazenda para se cobrir, protegendo-os das penúrias do tempo; satisfazem-se com o vestuário de uma camisa e um par de calças; os mais distintos usam também paletó de cor e um chapéu: quase ninguém usa meias ou sapatos, sendo obrigados, no entanto, a cobrir as pernas quando entram no mato utilizam-se então, da pele da perna de um tigre como perneira. Não são mais exigentes com a alimentação do que com o vestuário; um pouco de milho, batatas, alguns frutos, peixe e caça, quase sempre macaco, os satisfaz. Esta gente, a primeira vista, parece miserável, mas eles são efetivamente mais felizes que os europeus, ignorando as curiosidades e as comodidades supérfluas que na Europa se adquirem com tanto trabalho; passam eles sem pensar nelas, vivem numa tranqüilidade que os subsídios e a desigualdade de condição não perturbam; a terra lhes fornece os elementos necessários a vida, as madeiras e as ervas, o algodão, peles de animais para se cobrirem e abrigarem; não almejam essa magnificência de habitação mobiliada e bem equipada, que só fazem excitar a ambição e lisonjear durante algum tempo a vaidade, sem tornar o homem mais feliz; o que é ainda mais notável é que eles se apercebem de sua felicidade quando nos vêem ir a cata de dinheiro com tanta fadiga. A única coisa que tem a lamentar é a de viverem na ignorância; são cristãos, é verdade, mas como podem ser instruídos em sua religião não havendo senão um vigário na Lagoa que lhes vem rezar missa somente nas principais festas do ano: pagam, no entanto, o dizimo a Igreja, que é a única coisa que deles exigem.

De resto, gozam de um bom clima e de ar muito saudável, não tem raramente outra moléstia a não ser o "mal do Bicho", que é uma dor de cabeça acompanhada de tenesmos ou desejo de evacuar sem nada expelir, e por isso usam eles de um remédio muito simples que julgam como um especifico: colocam no assento um pequeno limão azedo ou um emplastro de pólvora diluída em água.

Possuem também muitos remédios do país para se curarem de outras moléstias que possam aparecer. O sassafrás, esta madeira conhecida pelo seu bom aroma e comum pelas suas virtudes contra os males venéreos, ali é tão comum que nós cortamos para queimar como lenha; o guayaco , empregado também para os mesmos males não é mais raro; encontram-se ali belíssimas capilárias e uma quantidade de plantas aromáticas cuja qualidade e utilidade são conhecidas por seus habitantes para os seus usos. As árvores frutíferas são excelentes em suas espécies, as laranjas são tão boas como as da China, existem muitas limeiras, limoeiros, goiabeiras, palmitos, bananeiras, cana de açúcar, melância, melões, jerimuns e batatas melhores que as de Málaga, tão estimadas.

Foi lá que vi, pela primeira vez, o arbusto que dão o algodão. Encontra-se também nos bosques uma arvore cuja casca é composta de fibras extremamente fortes, que serve para fazer cordas, e que é chamada de "Mahot". Vimos uma árvore, singular em seu aspecto, que lhe deram o mérito do nome de "Flambeau" ou " Cirio espinhoso": efetivamente suas folhas são feitas tal de um archote de quatro velas, isto é, seu plano é uma cruz arredondada em seus ângulos, reproduzem-se como as plantas nopal, umas das outras; adquirem com o tempo uma altura de oito a quinze pés e dão um fruto que se assemelha bastante a um figo ou uma noz verde, que no Peru se apresenta com seis nervuras, conforme nos descreveu em sua Historia das Antilhas o padre Du Tertre. A "Mancanilheira" é um pouco mais rara; esta árvore é uma das mais venenosas que tivemos conhecimento; seu fruto tem o aspecto de uma maçã camoeza, também venenosa; se acontece fazer fogo ou cortar esta madeira e dela respingar o leite no rosto ou nas mãos, a parte tocada incha e uma dor prolonga-se por vários dias: quando os frutos da mancanilheira caem ao mar e acontece algum "lúcio do mar" comer deles, seus dentes ficam amarelecidos e este peixe, torna-se por sua vez, também venenoso.

A pesca é muito abundante nas inúmeras enseadas da Ilha e da terra firme, onde se pode comodamente pescar; apanhamos peixes de quatro a cinco pés de comprimento, muito agradáveis em seu gosto, semelhantes as carpas, cujas escamas eram maiores que um escudo; uns as possuem redondas e se chamam meros; outros as tem quadradas e são chamados pelos portugueses de salamera e de piragüera pelos índios; encontram-se alguns menores com o nome de quiareo, portando um osso na cabeça semelhante a uma grande fava , sem contar uma infinidade de sargos, carapaus, "machorans", roncadores, peixes-galo, peixes-rei, sardinhas, etc.

Pegamos um dia um espadarte , peixe singular, que traz a cabeça uma espécie de lamina chata guarnecida de duas linhas de pontas cerradas que lhe servem de defesa contra a baleia, como tivemos a oportunidade dever certa vez na costa do Chile; ele tem ainda uma particularidade que é possuir uma boca e uma outra abertura humana.

A caça não é menos abundante que a pesca; mas os bosques são de tão difícil acesso que é quase impossível de perseguir-se nele o animal mesmo encontrá-lo quando abatido; os pássaros mais comuns são os papagaios, muito bons para comer, encontrados sempre juntos aos casais; uma espécie de faisões chamados "giacotins", mas de um paladar bem menos delicado; os guarás, aves pescadoras, todas de um belo colorido vermelho; outros menores de um matriz das mais vivas cores agradáveis, chamados de "saiquidas". Existe também um pássaro muito singular, de um bico longo, e mais belo que o casco da tartaruga, de uma plumagem muito linda, que é o tucano, já descrito por Froger e pelo padre Feuillee. A caça ordinária dos habitantes é o macaco, do que comunamente se alimentam: mas a melhor de todas para os navios em estadia é a dos bois, dos quais há uma grande quantidade em terra firme, por perto de Arazatiba como já disse."

Amédée François Frézier foi um engenheiro militar francês que aportou na Ilha de Santa Catarina em 1712, onde fez um estudo para um mapa da ilha e descreveu o estado em que viviam os 147 habitantes brancos da mesma. Foi contratado para construir fortes nas possessões espanholas na América do Sul, para a defesa contra ingleses e holandeses. Chegou na Ilha de Santa Catarina a bordo do navio “Saint Joseph”, que vinha acompanhado do “Marie”. É dele um dos relatos mais difundidos pelos viajantes sobre a entrada da baía, pela ponta norte da Ilha de Santa Catarina e a Ilha de Gal, e dos primeiros desterrados que aqui habitavam.

 


 

De cada visitante retirei um trecho que achei importante destacar: 

 

 

George Shelvocke, 1719

A bordo do "Speedwell"

 

..."A Ilha é toda coberta de matas inacessíveis, de forma que, com exceção das plantações, não existe uma só clareira nela toda. A menor das ilhotas ao seu redor igualmente abunda em uma grande variedade de árvores e arbustos cheios de espinhos, o que lhes veda totalmente o acesso... Existe ali uma grande abundância de laranjas, tanto da espécie "China", como da "Sevilha", limões, cidras, limas, bananas, palmitos, melões de todas as espécies e batatas. Também existe ali a cana-de-açúcar muito grande e boa, mas dela não fazem nenhum ou muito pouco uso, por falta de utensílios. Assim, a pequena quantidade de rum e melado que se produz é vendida a preço muito alto."  

 


George Anson, 1740

A bordo do "Centurion"

 

..."Os bosques proporcionam nesta ilha um perfume admirável, pela grande quantidade de árvores e de arbustos aromáticos que lá se encontraram...A água, tanto na ilha como na terra firme situada em frente, é admirável, e se conserva tão bem no mar como a água do Tâmisa. Estando um ou dois dias em barricas, ela começar a trabalhar com um mau cheiro insuportável, e cobre-se de uma espuma verde; passados alguns dias esta espuma vai para o fundo e a água torna-se perfeitamente doce e clara como o cristal."

George Anson foi um almirante britânico que esteve na Ilha de Santa Catarina a bordo do “Centurion”, em sua famosa viagem (1740-44) ao redor do mundo. George Anson descreveu a ilha e corrigiu algumas informações de Frézier sobre a entrada na baía. Anson comandava uma esquadra enviada por negociantes ingleses para dar combate aos espanhóis no Pacífico. Apesar de ter sofrido naufrágios de algumas embarcações de sua esquadra e seus marinhos pegarem escorbuto, retornou à Inglaterra com muito rico. Foi elevado à nobreza após sua popular vitória naval (1747) ao largo do Cabo Finisterra. Designado em seguida, como primeiro lorde do almirantado, assistiu William Pitt, Lorde Chatham, na reorganização naval britânica.

 


Dom Pernetty, 1763

Expedição de L. A. de Bougainville, a bordo do "I'Aigle"

 

..."Os escravos andam quase nus; a maioria se cobre com uma tanga em torno dos ombros. É raro encontrar algum deles com uma camisa ou veste. Mas, desde que recebam sua liberdade, eles podem se vestir como os brancos. As escravas negras usam somente um pedaço de tecido que as cobre da cintura até acima do joelho; as que estão libertas vestem-se como as outras mulheres, com uma saia e uma camisa abotoada na frente, como as camisas dos homens, e, quando saem de casa, colocam um grande pano por cima, de tecido fino de lã, muitas vezes brancos, bordado com um fio de ouro, prata ou outro material, segundo suas condições e possibilidades." 

Antoine Joseph Pernetty ou ainda Dom Pernety, foi membro de uma expedição empreendida por Louis Antoine de Bougainville, com a qual esteve na ilha de Santa Catarina em 1763, a bordo do navios “l’Aigle”, que vinha acompanhado do “Le Sphinx”. Escreveu “Histoire d’un Voyage aux isles Malouines, fait en 1763 & 1764, avec des Observations sur le detroit de Magellan, et sur les Patagons”.

 


La Pérouse, 1785

Expedição com as fragatas "Astrolabe" e "Boussole"

 

..."O fato seguinte dará uma idéia da hospitalidade deste bom povo. Minha canoa tinha sido emborcada por uma onda, numa enseada, onde tinha ido cortar madeira; as pessoas da redondeza ajudaram a salvá-la das ondas, fazendo questão que nossos homens naufragados se metessem em seus leitos, deitando-se sobre esteiras no chão, no meio do quarto onde se esmeravam em hospitalidades. Poucos dias após, levaram a bordo do navio as velas, os mastros, a ancoreta e a bandeira da canoa, objetos muito preciosos para eles e que seriam de grande utilidade em suas pirogas. Seus costumes são delicados; eles são bons, polidos, serviçais, mas supersticiosos e ciumentos de suas mulheres, as quais jamais aparecem em público." 

Gaspard Duché de Vancy foi um artista francês do século 18, de grande notoriedade, ele participou de exposições como a do Salão dos Jovens Artistas (1781) em Paris e da Royal Academy (1784) em Londres. Pintou retratos famosos como o de Estanislau da Polônia (1784), o secretário do Reino de Nápoles (1784) e Marie Antoinette. Foi o artista oficial da expedição de La Perouse – que esteve na Ilha de Santa Catarina em 1785, com as fragatas Astrolabe e Boussole. La Perouse foi encarregado por Louis XVI de fazer uma viagem de exploração pelo Pacífico e verificar a existência de uma passagem entre esse oceano e o Atlântico. La Perouse naufragou perto da Ilha Vanikoro, depois de ter quase completado sua missão. Havia enviado porém a documentação de sua viagem por terra. La Perouse, De Vancy, e todos os cientistas morreram nesse naufrágio. Os documentos enviados para Franca foram publicados por ordem do governo francês.  

 


Semple Lisle, 1797

 

..."Os índios, que são muito hábeis em apanhá-los, cavalgam de uma maneira muito singular: suas celas são ásperas e os encilhamentos são de couro; os freios são muito semelhantes aos usados pelos Mouros, Turcos e Tártaros, circunstância que muito me impressionou, já que não existe nenhuma relação entre esses países e os indígenas. Os estribos, no entanto, são completamente diferentes e verdadeiramente únicos em sua concepção: consistem de um pedaço de madeira de forma semi-circular, com cerca de uma polegada de diâmetro, com um orifício em cada extremidade para receber as tiras de couro. O índio põe seu dedo grande nessa peça de madeira curva, que é extremamente na medida certa para isso, não tocando o estribo com nenhuma outra parte do seu pé. De fato, eles cavalgam (contrariamente ao que acontece com os Mouros e os outros) com os couros dos estribos muito longos, de forma a exigir que a perna esteja totalmente distendida para que eles possam firmar seus dedos grandes nos orifícios." 

 


Langsdorff, 1803

Expedição com "Krusenstern (Nadeshda)" e "Lisiansky (Neva)"

 

..."Durante o dia cobre-se o mesmo colchão com um pano e colocá-se no meio da sala, onde se deita toda a família após as refeições, os homens apoiados nos travesseiros, as mulheres em posição de cócoras, como na Europa os aprendizes de alfaiate costumam se sentar. No sítio não se conhece o uso de cadeiras e de mesa. - Em lugar de cadeira usam uma espécie de banqueta cujo assento não é horizontal, e consiste de duas tabuinhas coincidentes em ângulo para baixo...(Langsdorff)"

..."Na ilha de Santa Catarina, em cuja vizinhança não há minas de diamantes, um estranho pode gozar de perfeita liberdade: o Porto é excelente, e a água é ótima e fácil de ser encontrada. A madeira para fogo pode ser cortada gratuitamente, e por aquela que já está cortada, e que o vendedor traz a bordo, paga-se dez piastras pelo milheiro tendo cada cepo mais de três pés de comprimento...(Krusenstern)"

..."A Ilha de Santa Catarina foi originalmente povoada pelos desertores dos povoados vizinhos, mas sua população tem sido consideravelmente aumentada, com muitas famílias européias estabelecendo-se aqui. Por uma estimativa do governo, a população soma, no presente, a 10.142 almas, das quais umas 4.000 são negras. A condição desta infeliz raça, na ilha, não é tão ruim quanto seus irmãos nas Índias Ocidentais ou em qualquer outra colônia européia que já visitei...(Lisiansky)"

Adam Johann von Krusenstern foi chefe da expedição russa que visitou a Ilha de Santa Catarina, em 1803.  Com dois navios ”Neva” e o “Nadeshda”, a expedição contava com vários cientistas alemães, tais como o astrônomo Horner e os naturalistas Tilesius e Langsdorff. O comandante do Neva era o capitão Lisianski e foram publicados dois relatos em separado, um de cada navio.

 


John Mawe, 1807

A bordo do "Vencedor"

 

..."A superfície da ilha é irregular, com montanhas e planícies, e, em alguns lugares, pantanosa; aqui se encontra excelente stratus de esplêndida argila vermelha, com a qual se fabricam jarros, utensílios de cozinha, grandes potes para água, etc., exportados em quantidades consideráveis para o Prata e para o Rio de Janeiro." 

 


Golovnin, 1808

A bordo do "Diana"

 

..."A situação geográfica deste porto é uma das suas vantagens principais: está no caminho, tanto dos navios que navegam em direção ao Pacífico pela rota ocidental, quanto pela oriental. As costas vizinhas não têm bancos de areia e escolhos; é fácil e seguro chegar ao porto em qualquer estação e com qualquer vento; a sonda sempre marcará a distância exata. A entrada do porto está completamente livre, não apresenta nenhum perigo e achá-la, vindo do alto mar, não é difícil."

 


Porter, 1812

A bordo do "Exxex"

 

..."Aqueles habitantes parecem ser os mais felizes de quantos vivem sob o domínio português; provavelmente, porque estão mais longe de Portugal, estão menos sujeitos aos impostos e opressões, mas, sempre se queixam. Existem ai dois regimentos da guarnição de Santa Catarina, que, quando lhes faltam provisões, um oficial vai à casa dos colonos, se apropria de seus cereais e gado, e lhes dá um bônus do governo, que jamais é extinto. A gente das aldeias é bem vestida, agradável e jovial no aspécto; as mulheres são bonitas e graciosas em suas maneiras; os homens são extremamente ciumentos e creio que, para isso, tenham suficiente motivo." 

 


Kotzebue, 1815

Expedição com "Chamisso" e "Choris" a bordo do "Rurick"

 

..."Imediatamente após o pôr do sol, o ar enchia-se de vagalumes, que brilhavam no ar como pequenos pontos incandescentes; as enormes cigarras começavam a cantar, e rãs do tamanho de ouriços saíam de seus esconderijos, e pode-se dizer que latiam como cães. (Kotzebue)"

..."Registro aqui uma informação: o nome "Armação" designa as pescarias reais que executam sobre as baleias, existindo neste governo em número de quatro. Tal pesca se dá nos meses de inverno junto à entrada do canal. Os barcos que vão ao mar são de madeira e abertos, tripulados por seis remadores, um timoneiro e um arpoador; a baleia atingida é puxada à praia e lá retalhada. (Chamisso)"

..."A serpente se entrelaça em volta destes caules para espreitar sua presa. O curucuí tem o ventre vermelho e o manaquim de cores brilhantes habitam de preferência estes lugares poucos freqüentados. Um negro carrega, nas duas extremidades de uma vara comprida, cachos de banana. (Choris)."

Louis Choris foi um famoso artista plástico francês que chegou na Ilha de Santa Catarina em 1815, acompanhando a expedição de Kotzebue, no navio “Rurick”, da qual participou também o naturalista Chamisso.   

 


Duperrey, 1822

Expedição com "Lesson" a bordo do "La Coquille"

 

..."Em nossas inúmeras incursões, fomos freqüentemente acolhidos pelos nativos. Muitas vezes descansamos em suas cabanas: bastava apresentarmo-nos frente a suas portas para que recebêssemos o convite; sua hospitalidade era sempre generosa. Eles não são ricos, mas possuem o necessário. O peixe fresco ou seco ao sol; o arroz, o milho, batatas, legumes, frutas e algumas vezes carne: esta é a sua alimentação diária. (Duperrey)"

..."A maior parte dos habitantes da ilha de Santa Catarina, e mesmo os da terra firme, dedícam-se à pesca: a baía fica às vezes coberta de suas rudes pirogas, manobradas cada uma por dois homens. Os peixes são tão abundantes, sobretudo uma espécie de peixe-seco que eles chamam de "alvacore", que transborda em suas embarcações. (Lesson)"     

 


Seidler, 1825

A bordo do "Caroline"

 

..."Os brasileiros têm sua supertição, mas não uma mitologia sistematizada; por isso muito estranhávamos que nos advertissem de penetrarmos muito na mata, porque segundo, convencidamente nos afirmavam, com isso expúnhamos a vida. Tratei de saber qual era o perigo e vim a saber dos moradores do continente que na mata vivia um animal semelhante ao centauro; de tamanho gigantesco, com parte inferior do corpo de animal e a parte superior de homem. Esse ser imitava a voz humana e por meio de sons que pareciam de uma virgem violentada atraía o incauto caçador para a maior espessura da mata, para então zombar dele e assustá-lo, enriquecê-lo ou atacá-lo, matá-lo e devorá-lo."         

  


       

Lista dos Navegadores que aportaram na Ilha de Santa Catarina

     

Expedição

Ano

Embarcação

01

Frézier, Amédée François

1712

Saint Joseph e Marie

02

Shelvocke, George

1719

Speedwell

03

Betagh, Willian

1719

Speedwell

04

Anson, George

1740

Centurion, Gloucester, Sévern, Perle, Wager

05

Dom Pernetty, Antoine Joseph

1763

l’Aigle e Le Sphinx

06

La Pérouse, Jean François Galaup de

1785

Astrolabe e Boussole

07

Semple Lisle, James George

1798

Lady Shore

08

Krusenstern, Adam Johann von

1803

Nadeshda

09

Lisiansky, Urey

1803

Neva

10

Langsdorff, Georg Heinrich von

1803

Nadeshda

11

Mawe, John

1807

Vencedor

12

Golovnin, Vassili Mihailovitch (Almirante)

1808

Diana

13

Porter, David

1812

Essex

14

Kotzebue, Otto von

1815

Rurick

15

Chamisso, Adalbert von

1815

Rurick

16

Choris, Louis

1815

Rurick

17

Duperrey, Louis Isidore

1822

La Coquelle

18

Lesson, René Primevère

1822

La Coquelle

19

Seidler, Carl Friedrich Gustav

1825

Caroline

20

Trachsler, Heinrich

1828

D. Pedro I

 

 



Ilha de Santa Catarina, Relatos de Viajantes Estrangeiros nos Séculos XVIII e XIX.

 Ed. UFSC/ALESC, 2ª ed., Florianópolis, 1984.