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Se misturá fax mali
Nesta seção estão vários tabus alimentares, que o manezinho vem mantendo até os dias atuais e que, me parece, deverão manter-se por muitos e muitos anos ainda, dado ao arraigamento destes comportamentos tão típicos do ilhéu.
Tabu, representa um dogma religioso, ou seja, restrição vinculada a fatores de ordem religiosa, diferentemente do conceito de crença ou preconceito. As informações coletadas foram o resultado de estudos realizados em 2001, portanto muito recentes, o que permitirá ao pesquisador ter em mãos um retrato fiel dos tabus alimentares que atravessaram séculos, mantidos em muitas comunidades da Ilha. Enfim, os tabus alimentares, considerados por muitos como folclore e respeitado por outros como verdadeiros.
Breve Histórico
A civilização humana já vem convivendo com tabus não é de hoje. Tanto a Bíblia como o Alcorão, tratam exaustivamente de tabus. Sendo que, na idade média (séc. XVII) as elites ainda preservavam muitos destes tabus, já não acontecendo no século seguinte onde vários deles caíram por terra com as mudanças alimentares. No Brasil, os tabus alimentares vêm desde os tempos da colonização, onde senhores das fazendas e plantações, inventavam muitos tabus para evitar que seus escravos e depois seus meeiros, consumissem frutas, verduras e outros alimentos, que os proprietários queriam preservar para seu próprio consumo. A povoação da Ilha, segundo Oswaldo F. de Mello (1991), deu-se com os chamados "segundos povoadores", capitaneados por Manoel Manso de Avelar, primeiro oriundos da vila de Nossa Senhora de São Francisco, onde assentam na região onde posteriormente iria surgir a vila de Nossa Senhora das Necessidades e Santo Antonio, atual Santo Antonio de Lisboa, por volta de 1700. Até a chegada de Silva Paes, a população da ilha era inexpressiva, sendo que a só partir de janeiro de 1746, começaram a chegar os primeiros imigrantes açorianos. De lá pra cá, a partir de 1763, Dom Pernetty registra em suas andanças na Ilha, o primeiro tabu, o do consumo da Mandioca crua. Vários historiadores e folcloristas, através dos anos, vem descrevendo suas observações sobre este assunto. Vázea, em sua obra "Santa Catarina - A Ilha" (1900) faz referência à corvina, como Rodrigues Cabral, menciona tabus sobre o consumo de carne, entre outros tantos que abrangeram o assunto. Utilizando de um estudo científico realizado com pesquisa de campo desenvolvido entre os nativos da Ilha, foram reunidos de forma sintetizada e abrangente os atuais tabus que ainda o manezinho adota. Foram divididos em três grupos alimentares distintos.
Frutas e Verduras
Os tabus tratados neste grupo estão intimamente ligados com a preocupação dos donos de plantações, principalmente aqueles que mantinham escravos na sua propriedade. Na Ilha pela grande quantidade de pequenas lavouras, o que se tinha muitas vezes eram os pequenos furtos de frutas, como a melancia, a banana, a jabuticaba, a bergamota, entre outras. Tal era, a popularidade destas privações, que muitas lavouras foram preservadas por seus invasores. Algumas misturas consideradas tabus, entre elas:
Amendoim verde ou com peixe; Banana com água, ao sol com água, com berbigão ou ainda quando se está cansado; Bergamota, pêssego, manga, abacaxi com vinho; Abóbora ou repolho com vinho; Jabuticaba, manga, melancia, jaca, pêssego e pitanga com leite; Caju com leite ou café; Frutas apanhadas no sol do meio dia, com frutos do mar, com marisco, ou consumi-las quando se está cansado. Pepino cru; entre outros.
Frutos do Mar
Os tabus tratados neste grupo tiveram sua origem na bíblia, principalmente ao velho testamento onde registram-se restrições ao consumo de alguns tipos de peixes, aves, e seres desprovidos de órgãos de locomoção como os moluscos. Somando a isso, outros fatores associados às perturbações fisiológicas promovidas por uma alimentação inadequada para o consumo, ou ainda pela ingestão de alimentos de alto valor calórico ou proteico, denominados "pesados" pois exigem grande esforço de digestão pelo nosso organismo. Algumas misturas consideradas tabus, entre elas:
Peixe de lixa ou sem escamas; Berbigão com banana frita, na lua nova ou com frutas em geral; Ostra e marisco na lua nova; Camarão com amendoim, carne de porco, comida doce,ou com frutas; Frutos do mar com frutas em geral; Arraia em março está envenenada; Corvina nos meses de outubro a março e por apresentar vermes; Linguado por ter a imagem de Nossa Senhora gravado às costas;
Carnes
Os tabus relacionados neste grupo não tem um fator predominante que o tenha originado. Podendo ser de cunho religioso, folclórico ou trato adequado no abate do animal. Muitos tabus são relacionadas ao consumo das carnes, seja da forma como ela deva estar conservada ou ser preparada, seja do animal abatido, seja da relação do animal com as supertições de bruxas ou do tinhoso. Alguns tabus relacionados, entre elas:
Galo preto; Lagarto em vinha d'alho se ficar verde está contaminado por veneno de cobra; Lingua de boi ou porco porque o mau humor do animal fica acumulado; Pato com pata fendida pois tem o demo encarnado; Carne verde na sexta-feira.
Depoimentos
Nos meses de setembro a março a corvina esta magra e ai ela não tem um sabor bom para consumo, daí se dizer que nesses meses ela tem gosto de maresia.(Arantinho do Pântano do Sul)
Galo preto não se mata nem para comer, pois quem mata o galo preto perde toda proteção de sua casa contra as bruxas. O galo preto presente quando uma bruxa se aproxima da casa, e cantando faz com que a mesma perca o seu encanto e retorna ao seu estado natural.(Dona Lurdes de Ratones)
Nas comunidades pesqueiras, mulher grávida e parida (que deu a luz), são proibidas de comer carne de arraia, por ser um peixe carregado. Dizem os pescadores que a arraia menstrua como se fosse mulher.
Nessas comunidades os pescadores não comem corvina nos meses que tem a letra "R", dizem que a corvina pescada nesses meses cheira mal e a carne tem gosto estranho, o peixe esta com Maresia.
No preparo do "lagarto", deve-se colocar a carne 24 horas em vinha d'alho, se ela ficar com a coloração verde durante o molho, deve ser rejeitada, pois estará contaminada com veneno de cobra.
Mulher menstruada não pode comer peixe lixa, bagre, corvina ou camarão senão a menstruação não para.
Qualquer pessoa que tenha ferimentos não pode comer peixe bagre, pois a ferida não sara.
Não se come fruta apanhada ao Sol, porque ela esta quente, se for consumida assim dá dor de barriga. (Seo Antonio do Ratones)
Pato com uma ou as duas patas fendidas, deve ser morto mas não pode ser consumido, deve ser queimado e suas cinzas jogadas em um riacho para que não possam se juntar, pois essa ave era o abrigo do Demo. (Dona Cida do Rio Vermelho)
Não se come carne verde na sexta-feira porque não se sabe qual a sexta-feira do ano atual em que Jesus foi crucificado.
Não se pode cozinhar a mandioca com tampa na panela, a mandioca deve sempre ser cozida destampada para que o veneno evapore durante o cozimento.
Não se come marisco, berbigão e ostra durante a lua nova e dias de chuva, porque nessa época eles se abrem e puxam muita sujeira. O camarão chamado "sete barbas", aquele que é pescado na lama onde tem capim na água não é bom para se comer porque puxa o veneno do capim.(Dona Catarina do Sambaqui)
Quando a corvina é preparada com muito condimento como o alho, a cebola, a pimenta vermelha, o molho passa a ter um efeito vermífugo e, muita vezes a pessoa com vermes, ao consumi-la, estes eram eliminados, dai o tabu "a corvina tem bicho". (Dona Hilda do Ratones)
Tabus Alimentares da População Nativa da Ilha de Santa Catarina Silvio Deeke, Florianópolis - 2001 |