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Um Manezinho me contou...

            

um causo de bruxa.

                  

       

       

Entrevista tomada em 2002 num restaurante no Caminho dos Açores,

em Santo Antônio de Lisboa.

O proprietário, o sr. Fausto Andrade, morador natural daquela comunidade,

nos relatou sobre algumas situações envolvendo bruxas, lobisomens e

outras assombrações.

 

As Bruxas de Santo Antonio

Os Lobisomens de Santo Antonio

O Porco Lobisomem

A Procissão das Santas Almas

O Caixão de Defunto da Subida do Rio vermelho

     

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As Bruxas de Santo Antônio

                       

Quando eu era pequeno, sempre via as bruxas passarem pela estrada a noite, soltando aquela gargalhada fininha de mulher (parecia uma coruja no mato). Isso acontecia aqui em Santo Antônio, em Sambaqui, no Caminho dos Velhacos e até na Barreira lá em cima.

Elas vinham fazendo aquela estripulia a noite toda. A minha mãe naquela época já tinha uns 6 ou 8 filhos, ela costumava ficar fazendo renda (de bilro) até de madrugada, Ela sentava no chão Eu, minhas irmãs e irmãos ficávamos deitados no colo dela. Quando, na calada da noite ela escutava aquela risadinha na estrada, naquele tempo ouvia-se tudo que se passava na estrada, pois não tinha luz nem movimento algum durante a noite, ela nos mandava nos pegar papel ou palha de bananeira para colocar nas frestas das janelas, portas e no buraco da fechadura para que as bruxas não passasse por elas, porque as bruxas costumam passar para dentro da casa desta maneira, algumas chegam a empurrar o papel para poder passar para o lado de dentro da casa. Ai vinham chupar a gente no pescoço, nos braços e também chupar criancinha novas. Se acaso alguma passasse para dentro da casa, tínhamos que apagar todas a luzes da casa e acender uma pomboca na rua, pois a bruxa vai na luz. Então a gente voltava para a casa, fechava a porta rápido e botava rolha na fechadura para ela não entrar, ou então a gente apagava todas as luzes e ia dormir. Era o único jeito delas não trabalharem mais.

Minha mãe tinha este cuidado com todos, mas principalmente com as criancinhas de berço, para não deixar que as bruxa a chupassem. As bruxas são diferentes das mariposas, pois a mariposa tem dois olhos em cima da cabeça e um tendão embaixo, e a bruxa só tem dois olhos sobre a cabeça e não tem o tendão, mas tem um topete sobre a cabeça, para diferenciar uma bruxa duma mariposa é só olhar, a que tiver o topete é a bruxa. A que tem topete pousa na gente e fica pousada por um tempão e a que não tem não pousa ou  pousa rapidinho. Por isso a gente tinha que ter todo cuidado na época da farinhanda para não deixar a bruxa entrar no engenho de farinha.

A gente sabia ate quem era as pessoas que eram bruxas, as que se transformavam e saiam, hoje não existe nenhuma mais viva por aqui.

 

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Os Lobisomens de Santo Antônio

 

O homem é o bendito lobisomem. Havia por aqui "uma meia dúzia" de Lobisomem, a "metade" já morreu. Hoje ainda há uns dois ali na barreira e um na barra do Sambaqui. O lobisomem só sai na lua clara (lua cheia). Eles quase não aparecem mais por causa da claridade, a eletricidade tirou esta virtude, porque antigamente quando era tudo escuro, os caminhos davam oportunidades para eles aparecerem. Lá pelas onze e meia, meia noite, eles se transformam e saem para atacar as pessoas. Naquele tempo a gente pescava para manter a família. Quando voltávamos da pescaria era um inferno. Meus irmãos o João e Neri lembram-se muito bem que quando chegando na praia, lá pela uma ou uma e meia; nosso pai fazia um facho de bambu, socava bem o olho, para pegar, e ia nos esperar na praia. Nós sempre esperávamos para encostar a canoa, com medo de que o lobisomem pegasse a gente. Eram dois ou três cachorros, eram dois ou três porcos, eles pegavam mesmo. Vinham em cima da gente, tínhamos que queima-los na cara. O cabelo queimava que chegava à feder, eles vinham atrás da gente ate a casa, e tínhamos que nos cuidar senão eles avançavam na gente. Chegávamos em casa, colocávamos os balaios pra dentro e fechávamos a porta. Eles ainda ficavam ali um pouco rosnando e depois iam embora. Eu não sei se eles seguiam a gente para pegar o peixe que trazíamos no balaio ou para nos pegar.  

 

   

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O Porco Lobisomem

 

Havia aqui um senhor, o seu Francisco Germano, pai do Ademar, do Dodô, da família do Pescado Silva. Eles tinham um porco preto grande e como era a época do Presidente Jânio Quadros, o porco recebeu seu nome. Esse porco chegava na lua clara (lua cheia), se transformava em lobisomem, pulava fora do curral e saía. Corria atrás até pegar. Se a pessoa o enfrentasse, ele parava e começava a mastigar e a fazer uma espuma branca, esta espuma fedia, mas fedia que fazia o cara correr só com o cheiro dela. Ele dava arrancada pra cima da gente pra pegar, e se a gente caísse ele vinha em cima para morder nas partes baixas: bacia, bunda e  passava a boca (mordia). Meu irmão João tem uma marca na bunda da mordida deste porco, o Aldo tem uma marca na virilha. O falecido Victor, meu outro irmão, teve uma mordida grande e teve até que ir para o hospital levar pontos. Ele pegou o Victor aqui atrás do nosso engenho, tínhamos começado a trabalhar na lida da farinhada e lá pela meia noite nos fomos trocar os bois do engenho e esbarramos com o dito porco. O Victor que era forte, mas baixinho ía na frente. Ele quis correr, mas tropeçou e caiu, e o porco avançou nele. Nos batendo no porco, pau e pau. E quanto mais nos malhávamos o porco, mais ele mordia. Pela manha, fomos lá no seu Chico e falamos: Seu Chico, esse seu porco tem um problema, ele é um lobisomem. Ele respondeu: tu tás maluco meu filho? Ele esta ali dentro do curral, pode olhar! A gente ia lá dentro do chiqueiro e o porco não fazia nada, manso, rosnava calmamente, mas a noite ele fazia o diabo. Chegou um dia que nos preparamos um facho de fogo com bambu bem feito e fomos para a praia. Chegamos lá não deu outra, o porco estava lá. Metemos fogo no porco, na cara, dele pernas, mãos. Levava o fogo que a banha chegava a ferver. No outro dia fomos lá na casa do seu Chico para ver o porco, estava limpinho, não tinha queimado sequer um fio de cabelo. Falamos novamente. Seu Chico é impossível era o seu porco, o Jânio Quadros seu Chico! Foi assim até um dia que resolveram matar o porco. Naquele tempo quando se  matava um porco dividia-se com a comunidade, mas também todos ajudavam a matar e preparar bicho fosse porco ou boi era dividido entre todos.Quando chegamos lá, já estavam o seu Alcides, o Seu Agenor (meu pai), o João do Ribeirão, o falecido Rola, todos empenhados na tarefa de matar e escarnar o bicho, e foi quando se começou a preparar a carne do porco. Quando se começou a ensopar a forçura e preparar o torresmo através da retirada do toucinho, foi exatamente nesta hora que tudo se revelou, quando as parte dele começaram a cozinhar, ninguém mais ficou por perto. Era um cheiro forte, mas tão forte de urina que foi tudo jogado fora, torresmo, carne, forçura, não deu para aproveitar nada, era pura urina. Foi feito um buraco e enterrado tudo. Deste dia em diante nunca mais ninguém viu mais o tal lobisomem, ou melhor, o porco lobisomem.

        

  

        

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A Procissão das Santas Almas

 

Hoje já não acontece mais ou pode ser até que aconteça, só que ninguém mais vê, mas no tempo que não existia luz elétrica aqui em Santo Antônio e redondeza, existia a procissão das Santas Almas, ela saía a meia noite do cemitério, dava volta em toda a comunidade e depois voltava  para o cemitério, Isso acontecia no dia primeiro de novembro, amanhecer para finados, (dia dois). Muita gente viu, eu um dia também vi. Uma vez eu vinha do Cacupé, isso quando eu era noivo, cheguei na casa do Sr. Manoel Ramos, ele estava na janela, e me falou: Rapaz tas ficando maluco? Tá na hora de passar a procissão das Santas Almas. Olha! Tu tens muita coragem meu filho, que Deus te abençoe. Vá com cuidado!

E eu vim embora, quando cheguei na primeira curva do esse, no Cacupé, comecei a sentir um cheiro de vela queimando, e mais adiante eu vi em cada lado da estrada uma fileira de luzinhas, uma pertinho da outra, como uma procissão mesmo, mas não via ninguém, so aqueles pontinhos de luz, pareciam umas pomboquinhas. Não via ninguém, mas ouvia o estralar de sapatos no areião. O falecido Honorato havia morrido há pouco tempo e o José Ramos da janela de sua casa pediu ao Honorato uma vela. Nisso saiu uma luzinha da fila e foi pra janela onde estava seu José. O Sr José era irmão do Honorato, e com a vela na mão o Sr. José esperou passar toda a procissão, e quando a procissão se foi, ele apagou a vela que ganhou e a colocou em um canto da casa e foi dormir (Sr José era barbeiro em Santo Antônio). Pela manhã quando ele acordou foi mostrar pra sua mulher a vela que ganhou da procissão das Santas almas. Quando ele pegou a vela, ela tinha se transformado em uma canela de defunto. Sim uma canela certinha. Ele pegou a canela enrolou em um Jornal, pegou a bicicleta, e foi pra Santo Antônio e na cova do Honorato enterrou. Quando voltou para casa sua mulher estava doente... Doente... Doente, e não tinha jeito. Era hospital-casa, casa-hospital, e não teve como curar, e lá se foi a mulher. Morreu a mulher, ele ficou doente, passado dois ou três meses ele morreu também.        

       

    

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O Caixão de Defunto da Subida do Rio vermelho

 

Há uma coisa que sei que ainda aparece aqui na ilha, e eu tenho certeza que aparece. É na Segunda curva da estrada do Rio Vermelho, de quem vai pela Vargem Grande subindo para o Rio Vermelho. Ali na segunda curva pelo lado direito, aparece na lua nova (lua escura), bem no dia da lua, um caixão de defunto cheio de velas acesas ao seu redor, e muitas flores em cima. É, ainda aparece isso lá, e chegando na primeira curva lá embaixo já se sente o cheiro de vela queimando. Nem todas as pessoas vêem, mas é um caixão preto, não sei se aberto ou fechado porque é tapado de flores.Se você tiver coragem é só ir lá.