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Quando
eu era pequeno, sempre via as bruxas passarem pela estrada a
noite, soltando aquela gargalhada fininha
de mulher (parecia uma coruja no mato). Isso acontecia aqui em
Santo Antônio, em Sambaqui, no Caminho
dos Velhacos e até na Barreira lá em cima.
Elas
vinham fazendo aquela estripulia a noite toda. A minha mãe
naquela época já tinha uns 6 ou 8 filhos, ela costumava
ficar fazendo renda (de bilro) até de madrugada, Ela sentava no
chão Eu, minhas irmãs e irmãos ficávamos deitados no colo
dela. Quando, na calada da noite ela escutava aquela risadinha
na estrada, naquele tempo ouvia-se tudo que se passava na
estrada, pois não tinha luz nem movimento algum durante a
noite, ela nos mandava nos pegar papel ou palha de bananeira
para colocar nas frestas das janelas, portas e no buraco da
fechadura para que as bruxas não passasse por elas, porque as
bruxas costumam passar para dentro da casa desta maneira,
algumas chegam a empurrar o papel para poder passar para o lado
de dentro da casa. Ai vinham chupar a gente no pescoço, nos
braços e também chupar criancinha novas. Se acaso alguma
passasse para dentro da casa, tínhamos que apagar todas a luzes
da casa e acender uma pomboca na rua, pois a bruxa vai na luz.
Então
a gente voltava para a casa, fechava a porta rápido e botava
rolha na fechadura para ela não entrar, ou
então a gente apagava todas as luzes e ia dormir. Era o único
jeito delas não trabalharem mais.
Minha
mãe tinha este cuidado com todos, mas principalmente com as
criancinhas de berço, para não deixar que as bruxa a
chupassem. As bruxas são diferentes das mariposas, pois a
mariposa tem dois olhos em cima da cabeça e um tendão embaixo,
e a bruxa só tem dois olhos sobre a cabeça e não tem o
tendão, mas tem um topete sobre a cabeça, para diferenciar uma
bruxa duma mariposa é só olhar, a que tiver o topete é a
bruxa. A que tem topete pousa na
gente e fica pousada por um tempão e a que não tem não
pousa ou
pousa rapidinho. Por isso a gente tinha que ter todo
cuidado na época da farinhanda para não deixar a bruxa entrar
no engenho de farinha.
A
gente sabia ate quem era as pessoas que eram bruxas, as que se
transformavam e saiam, hoje não existe
nenhuma mais viva por aqui.

....
...
Os
Lobisomens de Santo Antônio
O
homem é o bendito lobisomem. Havia por aqui "uma meia
dúzia" de Lobisomem, a "metade" já morreu.
Hoje ainda há uns dois ali na barreira e um na barra do
Sambaqui. O lobisomem só sai na lua clara (lua cheia). Eles
quase não
aparecem mais por causa da claridade, a eletricidade tirou esta
virtude, porque antigamente
quando era tudo escuro, os caminhos davam oportunidades para
eles aparecerem. Lá
pelas onze e meia, meia noite, eles se transformam e saem para
atacar as pessoas. Naquele tempo a gente pescava
para manter a família. Quando voltávamos da pescaria era um
inferno. Meus irmãos o João e Neri lembram-se muito
bem que quando chegando na praia, lá pela uma ou uma e meia;
nosso pai fazia um
facho de bambu, socava bem o olho, para pegar, e ia nos esperar
na praia. Nós sempre esperávamos para
encostar a canoa, com medo de que o lobisomem pegasse a gente.
Eram dois ou três cachorros, eram
dois ou três porcos, eles pegavam mesmo. Vinham em cima da
gente, tínhamos que queima-los na cara.
O cabelo queimava que chegava à feder, eles vinham atrás da
gente ate a casa, e tínhamos que nos cuidar
senão eles avançavam na gente. Chegávamos em casa,
colocávamos os balaios pra dentro
e fechávamos
a porta. Eles ainda ficavam ali um pouco rosnando e depois iam
embora. Eu não sei se eles seguiam
a gente para pegar o peixe que trazíamos no balaio ou para nos
pegar.

....
O
Porco Lobisomem
Havia
aqui um senhor, o seu Francisco Germano, pai do Ademar, do Dodô,
da família do Pescado Silva. Eles
tinham um porco preto grande e como era a época do Presidente
Jânio Quadros, o
porco recebeu seu
nome. Esse porco chegava na lua clara (lua cheia), se transformava
em lobisomem, pulava
fora do curral e saía. Corria atrás até pegar. Se
a pessoa o enfrentasse,
ele parava e começava a mastigar e a fazer uma espuma branca, esta
espuma fedia, mas fedia que fazia o cara correr só com o cheiro
dela. Ele dava arrancada pra cima da gente pra pegar, e
se a gente caísse ele vinha em cima para morder nas partes
baixas: bacia, bunda e passava
a boca (mordia). Meu irmão João tem uma marca na bunda da
mordida deste porco, o Aldo tem uma marca na virilha. O falecido
Victor, meu outro irmão, teve uma mordida grande e teve até que
ir para o hospital levar pontos. Ele pegou o Victor aqui atrás do
nosso engenho, tínhamos começado a trabalhar na lida da farinhada
e lá pela meia noite nos fomos trocar os bois do engenho e
esbarramos com o dito porco. O
Victor que era forte, mas baixinho ía na frente. Ele quis correr,
mas tropeçou e caiu, e o porco avançou nele. Nos batendo no
porco, pau e pau. E quanto mais nos malhávamos o porco, mais ele
mordia. Pela manha, fomos lá no seu Chico e falamos: Seu Chico,
esse seu porco tem um problema, ele é um lobisomem. Ele
respondeu: tu tás maluco meu filho? Ele esta ali dentro do
curral, pode olhar! A gente ia lá dentro do chiqueiro e o porco
não fazia nada, manso, rosnava calmamente, mas a noite ele fazia
o diabo. Chegou um dia que nos preparamos um facho de fogo com
bambu bem feito e fomos para a praia. Chegamos lá não deu outra,
o porco estava lá. Metemos fogo no porco, na cara, dele pernas,
mãos. Levava o fogo que a banha chegava a ferver. No outro dia
fomos lá na casa do seu Chico para ver o porco, estava limpinho,
não tinha queimado sequer um fio de cabelo. Falamos novamente.
Seu Chico é impossível era o seu porco, o Jânio Quadros seu
Chico! Foi assim até um
dia que resolveram matar o porco. Naquele tempo quando se matava um
porco dividia-se com a comunidade, mas também todos ajudavam a
matar e preparar bicho
fosse porco ou boi era dividido
entre todos.Quando chegamos lá, já estavam o seu Alcides, o Seu
Agenor (meu pai), o João do Ribeirão, o falecido Rola, todos
empenhados na tarefa de matar e escarnar o bicho, e foi quando se
começou a preparar a carne do porco. Quando se começou a ensopar
a forçura e preparar o torresmo através da retirada do toucinho,
foi exatamente nesta hora que tudo se revelou, quando as parte
dele começaram a cozinhar, ninguém mais ficou por perto. Era um
cheiro forte, mas tão forte de urina que foi tudo jogado fora,
torresmo, carne, forçura, não deu para aproveitar nada, era pura
urina. Foi feito um buraco e enterrado tudo. Deste dia em diante
nunca mais ninguém viu mais o tal lobisomem, ou melhor, o porco
lobisomem.

.....
A
Procissão das Santas Almas
Hoje
já não acontece mais ou pode ser até que aconteça, só que
ninguém mais vê, mas no tempo que não existia luz elétrica
aqui em Santo Antônio e redondeza, existia a procissão das
Santas Almas, ela saía a meia noite do cemitério, dava volta em
toda a comunidade e depois voltava
para o cemitério, Isso acontecia no dia primeiro de
novembro, amanhecer para finados, (dia dois). Muita gente viu, eu
um dia também vi. Uma vez eu vinha do Cacupé, isso quando eu era
noivo, cheguei na casa do Sr. Manoel Ramos, ele estava na janela,
e me falou: Rapaz
tas ficando maluco? Tá
na hora de passar a procissão das Santas Almas. Olha! Tu tens
muita coragem meu filho, que Deus te abençoe. Vá com cuidado!
E
eu vim embora, quando cheguei na primeira curva do esse, no Cacupé,
comecei a sentir um cheiro de vela queimando, e mais adiante eu vi
em cada lado da estrada uma fileira de luzinhas, uma pertinho da
outra, como uma procissão mesmo, mas não via ninguém, so
aqueles pontinhos de luz, pareciam umas pomboquinhas. Não via
ninguém, mas ouvia o estralar de sapatos no areião. O falecido
Honorato havia morrido há pouco tempo e o José Ramos da janela
de sua casa pediu ao Honorato uma vela. Nisso saiu uma luzinha da
fila e foi pra janela onde estava seu José. O Sr José era irmão
do Honorato, e com a vela na mão o Sr. José esperou passar toda
a procissão, e quando a procissão se foi, ele apagou a vela que
ganhou e a colocou em um canto da casa e foi dormir (Sr José era
barbeiro em Santo Antônio). Pela manhã quando ele acordou foi
mostrar pra sua mulher a vela que ganhou da procissão das Santas
almas. Quando ele pegou a vela, ela tinha se transformado em uma
canela de defunto. Sim uma canela certinha. Ele pegou a canela
enrolou em um Jornal, pegou a bicicleta, e foi pra Santo Antônio
e na cova do Honorato enterrou. Quando voltou para casa sua mulher
estava doente... Doente... Doente, e não tinha jeito. Era
hospital-casa, casa-hospital, e não teve como curar, e lá se foi
a mulher. Morreu a mulher, ele ficou doente, passado dois ou três
meses ele morreu também.

......
O
Caixão de Defunto da Subida do Rio vermelho
Há
uma coisa que sei que ainda aparece aqui na ilha, e eu tenho
certeza que aparece. É na Segunda curva da estrada do Rio
Vermelho, de quem vai pela Vargem Grande subindo para o Rio
Vermelho. Ali na segunda curva pelo lado direito, aparece na lua
nova (lua escura), bem no dia da lua, um caixão de defunto cheio
de velas acesas ao seu redor, e muitas flores em cima. É, ainda
aparece isso lá, e chegando na primeira curva lá embaixo já se
sente o cheiro de vela queimando. Nem todas as pessoas vêem, mas
é um caixão preto, não sei se aberto ou fechado porque é
tapado de flores.Se você tiver coragem é só ir lá.
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