Manés e Manezinhas memoráveis

         

Sabias quem foi...?

                   

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Alguns manezinhos marcaram a vida dessa nossa pacata Ilha. Pesquisando meus alfarrábios descobri algumas informações que dizem respeito a alguns destes personagens que marcaram época na pacata e provinciana Desterro e depois ex-Desterro?

(trechos colhidos de livros de Aldírio Simões e Raul Caldas)

         

 

Rita Maria

 

"...Dar assistência aos marujos, pescadores, viajantes e boêmios da cidade foi tarefa árdua de Rita Maria durante boa parte de sua existência, uma preta gorda, filha de escravos, que morava nas proximidades do Forte Santana, no início do século passado. Seu lar era uma pequena casa de madeira em duas águas, como tantas outras que habitavam aquela região, a beira do mar onde todas as manhãs ela molhava os pés para afastar o inchume impertinente e observar o movimento das pequenas embarcações que chegavam à praia vendendo mercadorias e sendo saudada pelos visitantes:

 

- Apronta a bóia e uma boa cachacinha. Avisa as meninas que cheguei.

 

Negra simpática e sempre de sorriso largo. Rita Maria era conhecida como “a mãe dos desamparados”. Ao meio-dia sua casa era pequena para receber tantos fregueses que, em clima de festa, devoravam os disputados pratos feitos por ela, um feijãozinho novo caseiro, farinha boa do Rio Tavares, cachaça da Vagem Grande e, como sobremesa, as meninas-mariposas que ajudavam na tarefa diária. Aos finais de semana quando não existia movimento, Rita recebia senhoras que iam em busca de garrafadas para curar seus males, que iam desde simples enxaquecas ou uma fórmula mais forte para provocar aborto.

Aos domingos descia a rua Conselheiro Mafra para assistir missa na Igreja de Nossa Senhora do Parto e, à tarde, envolvia-se na tarefa de lavar e remendar velhas calças e camisas da marujada. Estava sempre disposta a ajudar os aflitos com uma boa reza para afastar “um encosto” e, como benzedeira famosa que era, para sarar as mais diversas enfermidades. Rodeada pelas moças que moravam no lugar e nativos das proximidades em torno de muita cachaça, a preta velha contava histórias hilariantes de seus fregueses que terminava num bem afinado coral de gargalhadas.

A simpatia e fama de boa senhora ficavam apenas no círculo do cais do porto: era odiada pelas mulheres dos marujos. Elas sabiam que o interesse de seus maridos em freqüentar o lugar não era apenas pela boa comida servida por Rita Maria..."

 

Trecho retirado do livro “Domingueiras. Sou Ilhéu, graças a Deus”, de Aldírio Simões.